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#108 MIGUEL MORGADO - Conservadorismo, Política, TROIKA, Pedro Passos Coelho, Religião, Austeridade

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#108 MIGUEL MORGADO - Conservadorismo, Política, TROIKA, Pedro Passos Coelho, Religião, Austeridade

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2908 segments

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Naqueles anos, houve uma pessoa que

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percebeu exatamente qual era o caminho

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que o país tinha que percorrer, que se

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chamava Pedro Passos Coelho. Ele viu

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esse caminho com mais clareza de

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qualquer outra pessoa, inclusivamente

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membros do seu próprio governo. E houve

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um um interesse hegemónico da esquerda

0:12

em demonizar, em diabolizar tudo o que

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não fosse a esquerda. E, portanto, ser

0:16

conservador era criminoso, mas ser

0:18

liberal também era criminoso.

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>> Causa desconforto quando dizem que tudo

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é política e tá bem,

0:23

>> são disparado. É assim que depois se

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justifica os campos de concentração.

0:26

Como é que alguém que patrocinou o

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regime

0:31

extremista do nazismo alemão se torna a

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partir dos anos 30, 80 e 90 a referência

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central da reinterpretação do movimento

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da esquerda no ocidente. Eu vou

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continuar a deixar refletir no meu

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rosto, nos meus olhos, nos meus gestos,

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que não estou a gostar do que estou a

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ouvir. Quem não gosta de me ver assim,

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pode mudar o canal.

1:03

Muito boa tarde, se Deus quiser. Sejam

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bem-vindos a mais um episódio de

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Despolariza. O meu nome é Tomás

1:08

Magalhões e antes de vos apresentar ao

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convidado do dia, quero agradecer aos

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novos mecenas Francisco Moreira, Damião

1:14

Franco, Alexandra Carvalho, Joana Bel,

1:16

Filipa Castro, Gabriel Silva, Ana da

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Silva e Cristiana Rocha. Muito obrigado.

1:21

Estas pessoas contribuem para que o

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despedoriza possa continuar e crescer.

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ganham também a poderem vir ao estúdio e

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ver episódios, um grupo de WhatsApp, um

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grupo de desporto, eventos, jantares,

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uma data de coisas. Se estiverem

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interessados em apoiar, há um link à

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minha volta e outro na descrição.

1:40

Hoje tenho comigo Miguel Morgado, que

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nasceu pouco depois da revolução de

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1974.

1:45

é licenciada em economia e doutorada em

1:47

ciência política pela Universidade

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Católica Portuguesa, onde leciona no

1:51

Instituto de Estudos Políticos como

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professor associado. Foi professor

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convidado na Universidade de Toronto e

1:57

noutras universidades norte-americanas e

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brasileiras. Entre 2011 e 2015, foi

2:02

assessor político do primeiro-ministro

2:04

Pedro Passos Coelho. Entre 2015 e 2019,

2:07

deputado à Assembleia da República pelo

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PSD e autor de vários livros de ensaio

2:12

político, como o Introdução ao

2:15

Conservadorismo, Introdução ao

2:16

Liberalismo e tem intervenção pública

2:19

regular como comentador político em

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meios de comunicação social. Bem-vindo,

2:23

Miguel. Bem-vindo, obrigado. Ai,

2:25

obrigado. Não és a primeira pessoa a

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responder. Bem-vindo ao bem-vindo.

2:29

>> Fras ti fi. Desculpa.

2:31

>> Eh, olha, muito feliz por estares aqui.

2:33

Já já estava a tentar apanhar-te algum

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tempo.

2:35

>> Ainda bem.

2:36

>> Também hoje em dia venho menos a Lisboa,

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então quando venho disparo assim algumas

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direções.

2:42

>> Nota-se pelo teuque. Vem aquel Lisboa.

2:44

>> Maravilha.

2:45

E vamos arrancar da maneira de costume,

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que é lutaria genética e social. Porque

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eu quando comecei a escrever o blog do

2:52

Despolariza, escrevi um artigo sobre

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isto que tem a ver com eh ninguém

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escolheu os genes que lhe calhou, não é?

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Quantos cromossomas tinha e as

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características que tinha, nem escolheu

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o tempo, nem o país, nem a família, o

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contexto social onde nasceu. E isso

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define uma boa parte de quem nós somos.

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E acho que ajuda eh quando as pessoas

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estão a discordar, falar disto ajuda a

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humanizar e empatizar, porque todos

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temos histórias diferentes. E então o

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que é que te saiu a ti na lotaria

3:20

genética e social?

3:22

>> Bem, na lotaria genética não sei bem.

3:23

Eh, para além da minha aparência física,

3:25

ter olhos verdes e quando era miúdo era

3:27

louro, agora já não sou. Hah,

3:31

o resto não sei, não sei como é que

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havia de caracterizar a minha lotaria

3:35

genética, a minha herança genética. Eh,

3:39

quanto ao que diz respeito ao acaso

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social, bem, eu nasci em Stúball, eh,

3:46

a minha família nunca teve problemas de

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esquecer materiais. Os meus pais vinham

3:51

de meios muito humildes, mas eles foram

3:54

um produto como muitos centenas de

3:56

milhares de portugueses foram o produto,

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o bom produto daquele grande crescimento

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económico que Portugal tinha tido entre

4:02

os anos 60 e os anos 70.

4:05

Portanto, foram as primeiras pessoas das

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suas famílias a licenciar-se, por

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exemplo. Eh,

4:11

portanto, tinham me muitos humildes e

4:13

proporcionaram a mim e à minha irmã,

4:14

tenho uma irmã mais velha, eh, uma vida

4:17

bem melhor do que aquelas que eles

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tinham tido quando quando eram miros.

4:20

Isso foi bom para mim.

4:21

>> E eram politizados ou envolvidos

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politicamente?

4:25

>> Eh, a minha família e havia muitas

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pessoas politizadas da minha família. Fa

4:30

alargada

4:32

no lado da minha mãe, do lado do meu

4:33

pai, havia muitas pessoas envolvidas,

4:36

muitas proveniências diferentes. Ah, eu

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tinha um tio que pertenceu ao Loá,

4:41

movimento extrema esquerda. Eh, enfim,

4:44

para as pessoas que não não estão a par

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dessas chiclas daquela época, eram que

4:48

tinham as ações subversivas contra o

4:50

Estado Novo na altura, os assaltos ao

4:52

banco da Figueira da Foz, essas coisas

4:54

todas.

4:55

Ah,

4:57

onde

4:58

militaram

5:00

pessoas que depois transitaram seguir ao

5:02

25 de abril pelo partidos de extrema

5:03

esquerda, algumas também para para o PS.

5:06

Esse meu tio depois também eh acabou por

5:10

se vincular até mais ao PS já nos anos

5:12

80, mas era eu tinha emigrado para

5:14

França, portanto uma grande parte da

5:16

minha família tinha igrado do lado do

5:17

meu pai, do lado da minha mãe. E por

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isso além da politização de esquerda

5:21

direita que havia, bem à direita não

5:22

havia muita politização, mas acho,

5:24

sobretudo à esquerda havia outra

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experiência que foi importante para mim

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na minha família, que foi por na na

5:30

sequência de tanta gente ter emigrado

5:34

quando nós os víamos. ou vinham a

5:36

Portugal ou alguns depois quando

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conseguiram regressar, nem todos, eh,

5:40

traziam a consciência de problemas

5:42

políticos e sociais que que eram

5:44

estranhos para mim como português, como

5:46

de português, nunca tinha saído daqui.

5:48

Ah, os problemas que havia

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na África do Sul, em França, no Brasil,

5:55

na Austrália, eh, no Canadá, eram muito

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diferentes dos problemas políticos de

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Portugal dos anos 80. E isso também me

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deu uma consciência mais alargada,

6:04

imediata.

6:05

eh de que havia outras fraturas sociais,

6:08

de que havia outras preocupações, as

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políticas. Percebeste que estávamos

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atrasados em alguns assuntos ou nalguns

6:13

casos havia sempre a comparação. Os meus

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familiares tinham muito o síndrome do

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imigrante português, que como deixaram

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Portugal país muito pobre, eles próprios

6:22

eram muito pobres, não é? Todas essas

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pessoas que iam em migrar da minha

6:25

família eh deixaram para trás um país

6:27

muito pobre

6:28

>> e voltavam com no Algarve e no Alentej.

6:31

Lantej queriam-nos convencer que a opção

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que tinham tomado de vida, porque

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emigrar naquela altura não é como migrar

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hoje, as pessoas emigravam e ficavam

6:40

anos sem saber da família, do país, não

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é?

6:43

>> Não é como hoje com telemóveis e e-mails

6:45

e

6:47

fazer chamadas de vídeo muito diferente

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emigrar naquela altura, anos 50, anos 60

6:53

ou emigrar agora. Mas gostavam de nos

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mostrar a todos, aos que tínhamos

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ficado, não porque era miúdo, claro, mas

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aos meus pais, aos meus tios, às outras

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pessoas, que eles é que tinham tomado a

7:05

opção certa e Portugal continuava uma

7:07

pasmaceira, mesmo quando isso não era

7:09

verdade relativamente às experiências

7:10

que alguns deles tinham tido.

7:12

Eh, alguns foram muito bem sucedidos, os

7:14

que foram para o Canadá, por exemplo.

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outros nem tanto, os que foram para o

7:21

Brasil, mas eles trou eles traziam, não

7:25

era só essa comparação da superioridade

7:27

dos seus países de acolhimento

7:28

relativamente a nós, que nós tínhamos

7:29

ficado aqui um bocadinho na parvoeira.

7:32

Hum, era o facto de haver coisas

7:34

diferentes. Por exemplo, no Brasil, uma

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preocupação do dia- a dia ser a

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criminalidade e insegurança a um grau

7:40

inimaginável em Setúbal dos anos 70 e

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80. Isso tudo balatera para padrões

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portugueses uma uma cidade considerada

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até relativamente violenta e insegura,

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todos comparados com os outros pontos do

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país. Mas para mim ficar a saber que uma

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sociedade podia viver num permanente

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clima de violência, de tensão, de

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homicídios na rua, eh tiroteios.

8:03

Ah, foi uma coisa que foi-me trazida por

8:04

aí.

8:05

>> Hum.

8:06

>> Ah, e outros casos também. O problema do

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apart na África do Sul, minha família

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tinha ido para a África do Sul, depois

8:10

tinha

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saído da África do Sul para a Austrália,

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um movimento que muitos portugueses

8:15

fizeram, que para a África do Sul também

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familiares, mas fizeram isso.

8:20

França,

8:22

os famiros que tinham ido para França

8:24

também tinham sido politizados lá e,

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portanto, trazia um conjunto de

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referências que para mim eram

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completamente estranhas, os partidos

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franceses, h a guerra na Argélia e as

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cicatrizes que tinha criado eh na

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sociedade francesa. Muitas dessas

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coisas, eu como não lia livros, como não

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lia livros, também não via telejornais.

8:42

Uhum.

8:42

>> Às vezes esse tipo de conversas que eu

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apanhava aqui ali eram mais eh foram

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mais importantes para eu perceber que

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havia mais coisas do que aquelas coisas

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que se passavam na rua de Stúal.

8:52

>> Muito interessante. Eu cresci em

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Inglaterra, como estava a dizer há

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bocado, e só estou a contar isto por

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causa do que do do tema seguinte, que é

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eu cresci ouvir a expressão Conservative

9:02

Party, não é? aqui ali na televisão,

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embora não percebesse muito bem o que

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era, mas depois cheguei a Portugal e aos

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poucos fui-me apercebendo que a palavra

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conservador cá em Portugal é mais ou

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menos um insulto para muitas pessoas.

9:14

>> Uhum.

9:14

>> E então eu queria-te perguntar, sei que

9:16

já escreveste um livro inteiro sobre

9:17

isto mais ou menos, mas o que é que é o

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conservadorismo e porque é que em

9:20

Portugal aconteceu isto de conservador

9:23

se ter tornado mais ou menos um insulto?

9:25

Ah,

9:25

>> quando somos todos conservadores aqui e

9:27

ali.

9:28

>> Claro, nós somos todos, nós somos todos

9:29

conservadores. Evidentemente que somos

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todos conservadores. A segunda parte da

9:32

pergunta é mais fácil de responder do

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que a primeira. Porque é que em Portugal

9:34

é é um termo pejorativo? Porque a

9:38

cultura política portuguesa e a

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linguagem mediática que se utiliza, que

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depois as pessoas papagaiam, foi formada

9:44

nos anos 60 e nos anos 80. E houve um um

9:45

interesse hegemónico da esquerda em

9:47

demonizar, em diabolizar tudo o que não

9:49

fosse a esquerda. E, portanto, ser

9:51

conservador era criminoso, mas ser

9:53

liberal também era criminoso. O que

9:54

significava que a cultura política

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portuguesa estava o arrepioo da cultura

9:57

política de qualquer democracia liberal

10:01

constitucional saudável no Ocidente.

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Enfim, foi um foi uma hegemonia da

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esquerda que o país pagou muito caro com

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atraso, com muitos problemas de

10:11

desenvolvimento durante muitos anos.

10:13

Portanto, essas coisas estão a mudar

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lentamente, mas é verdade, nos anos 80,

10:17

nos anos 90, bem, cí mais tarde até a

10:20

ser liberal era um crime, eh, ser

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conservador era outro crime, quando na

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verdade são ingredientes indispensáveis

10:26

de uma cultura polí qualquer. Não é que

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as pessoas tenham que ser liberais ou

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conservadoras, mas são indispensáveis

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num movimento pendular que qualquer

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sociedade democrata tem que ter, umas

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vezes mais para a esquerda, vezes mais

10:34

para a direita. Portanto, setor faz

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parte das patologias que a esquerda

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política em Portugal e esquerda

10:40

intelectual em Portugal introduziram,

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das quais nos vamos livrando aos poucos.

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Eh, devagarinho, mas vamosos livrando.

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Quanto à primeira parte da pergunta

10:50

conversa,

10:50

>> lev o Exato. O conservadorismo é muito

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mais heterrogéneo do que se pensa.

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Portanto, há vários tipos de

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conservadorismo muito diferentes.

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E eu que quando me pedem para me

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classificar politicamente,

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intelectualmente, até acho que a palavra

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que tá ali mais à mão para mim é ser

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conservador, eu na verdade

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mais ou menos desprepresso quase todos

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os tipos de conservadorismo.

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A, portanto, existe um conservadorismo

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de tipo tradicionalista com o qual eu

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nunca me identifiquei,

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que em grande medida nasce e por crítica

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a duas experiências revolucionárias

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e na Europa. uma em Inglaterra, nome

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meados século X7, que gera um tipo de

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literatura descrita a pessoas que pronto

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ninguém conhece, mas o conte de Claron

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ainda no século X7, David Jun depois no

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século XVI e que vão ser críticos da

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experiência revolucionária que

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terminaria numa espécie de república ali

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na meados do século X7 a Inglaterra e

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depois sobretudo a Revolução Francesa,

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não é? que é o grande a grande o grande

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acontecimento eh da política moderna,

12:00

que vai suscitar uma grande crítica da

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da revolução. Há um grande entusiasmo à

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volta da revolução, porque também há

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imediatamente um movimento crítico eh

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que é na sua essência tradicionalista e

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é na decorrência desse conservadorismo

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tradicionalista que emerge imediatamente

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com o ausão da revolução que depois uns

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anos mais tarde ali em 1819

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em França, em França, a palavra

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conservador

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vai ser utilizada para descrever este

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tipo de pessoas e que é o título de um

12:34

jornal fundado, enfim, por vários

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intelectuais franceses, da altura da

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restauração da monarquia, depois da

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experiência do Napoleão.

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O mais famoso de todos talvez seja o

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Chatom Ran, um grande escritor, para

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além de um teório política, era um

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grande escritor do romantismo francês e

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ele é que inventa a palavra conservador

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para se aplicar aí. E nem sequer são

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tanto os ingleses que depois vão-se

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ajustar uns 10 anos depois, quando

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começam a designar o partido Tory como

12:57

partido conservador, que é uma coisa ali

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também do final

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>> da década de 20 do século XIX,

13:02

>> dá um tipo de conservadorismo

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tradicionalista. Eh, e esse eu nunca me

13:07

identifiquei. Portanto, o que eu

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procurei sempre fazer foi

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eh lançar as bases que permitisse

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identificar um conservadorismo que não

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estava tão dependente desse contexto

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histórico da Revolução Francesa e das

13:22

suas repercussões, a crítica do terror,

13:26

jacobino,

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e o as constituições e escritas por cima

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da tábula rasa, como se dizia na altura.

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Eh, portanto, consismo que se afastasse

13:37

desses problemas conjunturais e fosse

13:40

uma filosofia política muito mais ampla

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do problema humano. E eu

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designei à falta de melhor expressão,

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esse conservadorismo, conservadorismo do

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futuro. Em vez de ser um conservadorismo

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do passado, olhar para o passado, não é?

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Como se nós tivéssemos sempre a olhar

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para trás.

13:55

>> Sim, sim.

13:55

>> A tradição, o que é que as revoluções

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comprometem, etc. Esse tipo de problemas

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que não me interessavam tanto, mas não

14:00

me interessavam nada. eh um

14:02

conservadorismo que olhasse para o

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futuro. Eh, e aí escolhi como, enfim,

14:08

quando tentei construir esse

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conservadorismo, eh, filme também em

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torno de um canânono diferente.

14:14

Portanto, o conservadorismo

14:15

tradicionalista tem os seus heróis e eu

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propus uma lista de eh de iminentes

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conservadores não tradicionalistas, mas

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por essa razão também muito mais

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perdurantes, muito mais premos,

14:30

>> contemporâneos. Não, eu quis radicar, eu

14:32

quis radicar eh esse conservadorismo.

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Também há uma, também pus lá uns quantos

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eh eh do nosso tempo, digamos assim.

14:40

>> Sim, sim. Orte H7 em Espanha, eh, Senin

14:43

na Rússia, pessoas assim no século XX,

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havia lá umas quantas, mas na verdade eu

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queria era radicar isto eh não origem da

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reflexão política para precisamente eh

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transmitir que o a filosofia política

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conservadora é uma filosofia política de

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todos os tempos e desde o início dos

15:00

tempos, portanto, ela não nasce com a

15:01

rolução francesa, ao contrário de dessa

15:03

mitologia que depois foi construída por

15:05

professores universitários, pelas

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universidades anglossaxónicas no século

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XX. que então olhavam para a história

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como se ela tivesse começado na

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revolução francesa e a tal reação

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tradicionalismo que há pouco. Então eu

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achava que isso era um disparado.

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>> Sim.

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>> Então eu ponho eu ponho como o primeiro

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conservador, portanto o homem que faz

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nascer toda essa eh toda essa relação

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com a política que nós podemos designar

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como conservadora. um romano, portanto,

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há muito, muito tempo, há 2000 anos, um

15:31

bocadinho mais, eh, chamado Marco Túlio

15:34

Cícero. Eh, e o Cícero, no fundo, é ali

15:37

o homem que depois consegue articular os

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grandes ensinamentos da filosofia

15:41

política clássica. E, de facto, ele

15:43

depois vai ser até ao século XIX, no

15:44

século XX já não, mas até ao século XIX

15:46

ele será ali eh o modelo a ser imitado

15:50

por todos aqueles que aparecem eh a

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fundar o tal conservadorismo moderno lá

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mais para a frente.

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>> OK? HH E portanto é o é o Cícero mais do

15:58

que qualquer outra pessoa que consegue

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articular as grandes questões

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fundamentais que eu reúo

16:05

para formar a base desse conservadorismo

16:07

do futuro.

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>> Muito interessante. Eu eu considerava-me

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progressista hh até começar a estudar

16:15

mais filosofia e história do pensamento

16:17

e desenvolvimento.

16:19

Hum. E apercebi-me, no fundo, a tua

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visão é mais política e a minha, se

16:24

calhar, mais antropológica ou ou

16:27

espiritual, que é todos nós, o nosso

16:29

dia- a dia, temos e em nós, não é, este

16:34

instinto, esta coisa que nos é muito

16:35

natural de criar e querer tornar as

16:38

coisas melhor, que é o nosso ímpete

16:39

progressista, mas também temos o de

16:42

querer preservar aquilo que funciona bem

16:44

e e conservar aquilo que que já provou

16:48

funcionar e que isto sempre existiu.

16:50

Aliás, no hinduísmo, há quem interpreto

16:52

o Trimurti, que é o Brama, o Shiva e o

16:55

Vichno, como sendo esse equilíbrio de

16:57

criação, eh, conservação e destruição.

17:02

E no fundo perercebi-me que comecei,

17:04

comecei, tive assim mesmo um, um clique

17:07

e comecei a olhar, por exemplo, para o

17:08

pastel de nata.

17:10

As pessoas já experimentaram de certeza

17:12

pôr nós moscada no pastel de nata e já

17:14

experimentaram pôr todas asias no pastel

17:17

de nata. Razão pela qual tu quando vais

17:19

comprar um pastel de mata, aquilo vem

17:20

com canela, não é porque ninguém teve

17:23

essa ideia antes de ti. É porque houve

17:26

milhares de pessoas muito mais

17:27

inteligentes e mais criativas que tu nos

17:29

últimos 500 anos que fizeram todas essas

17:31

experiências e a ideia vencedora já

17:34

existia quando tu nasceste. Isto

17:36

aplica-se a comida, aplica-se a

17:38

instituições, aplica-se a muitas coisas

17:41

na vida.

17:42

É isso, comecei-me a perceber que,

17:45

calma, já também ler filosofia nesse

17:47

sentido, tipo, pá, ler coisas com

17:49

milhares de anos absolutamente

17:52

brilhantes e e contemporâneas, ou seja,

17:55

acho que foi o processo de humildade.

17:57

Foi um processo de humildade de

17:58

perceber, espera aí, afinal o as pessoas

18:00

do presente só são iguais às do futuro,

18:03

as do passado, mas com um bocadinho mais

18:04

tecnologia. Não acho que seja sejamos

18:07

mais inteligentes, nem mais sábias, nem

18:09

mais criativas. Acho que em algumas

18:10

dimensões até estamos a ficar menos

18:12

sábios por causa de de várias razões,

18:15

mas é isso e apercebi-me que sou um um

18:17

progressista conservador e acho que toda

18:19

a gente é um progressista conservador,

18:21

mas alguns acho que têm um bocadinho

18:23

mais medo de mexer em

18:26

coisas que estão provadas que funcionam

18:28

e outros têm mais vontade de fazer

18:30

experiências mesmo arriscando a que essa

18:33

essa pirâmide de cartas e possa cair. Ou

18:36

seja, eu vejo as coisas um bocadinho

18:37

assim. Eu no livro sobre o

18:40

conservadorismo, eu tento o livro está

18:41

construído à volta de coisas que se

18:44

dizem sobre o conservadorismo, que eu

18:45

fui buscar, pessoas eminentes,

18:46

evidentemente, normalmente críticos de

18:48

conservadorismo, coisas que se dizem

18:50

sobre o conservadorismo que não têm

18:51

fundamento. Bem, uma delas é essa que,

18:55

pura a palavra conservadora parecer

18:58

designar uma atitude de passiva, de

19:02

apego àquilo que é familiar e e e

19:05

portanto esse esse amor às coisas

19:08

familiares acaba por não se poder

19:11

expandir para aquilo que é desconhecido,

19:12

para aquilo que é inexistente. Eh, é uma

19:15

falsidade. Quer dizer, isso descreve um

19:18

pouco apenas e de uma maneira, a meu

19:20

ver, caricatural o tal conservismo

19:22

tradicionalista.

19:24

Portanto, um ponto de vista do

19:26

conservadorismo que eu procurei

19:27

reelaborar, rearticular, eh não existe

19:31

nenhuma contradição. Pelo contrário, é

19:32

um conservadorismo perfeitamente

19:33

ajustado a um mundo que se tornou, na

19:37

sua essência, mudança permanente. Eh,

19:40

agora também os termos progressistas, o

19:43

termo que se encontrou em termos do

19:45

século XX para designar e a esquerda

19:48

política como progressista também está a

19:49

cair em desuso. Porquê? Porque as novas

19:52

formas da esquerda que foram aparecendo

19:53

depois da crise terrível em que o

19:56

marxismo mergulhou no século X, no na

19:58

década de 70 do século XX e nunca mais

20:01

recuperou, evidentemente, nem vai

20:02

recuperar,

20:04

a esquerda procurou reconstruir o seu

20:06

horizonte político fora de um horizonte

20:08

de progresso. Portanto, as as formas até

20:10

mais tremadas e mais criativas da

20:12

esquerda dos últimos 30 ou 40 anos já

20:15

negam até o pressuposto do progresso.

20:17

Portanto, também isso está tudo muito a

20:18

mudar. Eh, a questão de nós sermos

20:22

criadores do nosso mundo ou cocriadores

20:24

do nosso mundo com os outros ou quem com

20:26

Deus, quem é crente e, portanto, agimos

20:30

para tornar, pelo menos aquilo que faz

20:32

parte do nosso mundo melhor do que

20:33

aquilo que recebemos. Eh, é uma atitude

20:36

tão conservadora como como outra

20:38

qualquer. Eh, eu procurei alinhar

20:40

precisamente o conservadorismo à volta

20:42

de outros temas.

20:44

Por exemplo, para dar o exemplo de dois

20:46

que eu exploro no no livro e que dão

20:49

conta de muitas das inclinações

20:51

conservadoras na política hoje e no

20:53

passado. H a ideia de que aquilo que nós

20:57

devemos procurar na nossa vida é

20:59

excelência humana, as excelências que

21:01

nós podemos realizar do ponto de vista

21:03

moral, do ponto de vista intelectual, do

21:05

ponto de vista da nossa atividade

21:06

social. Eh, e isso coloca algumas

21:09

pessoas acima das outras, algumas

21:11

pessoas que têm uma vida mais excelente

21:12

do que outras. Mas para os conservadores

21:14

de Cor indian foi sempre um problema

21:17

muito importante, central e que chamava

21:21

à conversa muitos outros temas. Por

21:22

exemplo, o tema da educação que para os

21:24

conservadores sempre foi muito

21:25

importante, garantir que as instituições

21:27

que educam as crianças, adolescentes e

21:29

os adultos eh reúnam demasiadas

21:31

características que protegem a alumina

21:33

de determinadas tentações, de

21:34

determinadas cicatrizes. Eh, e depois

21:37

uma outra ideia que também acho que é

21:39

muito importante para caracterizar a

21:41

política do século XX e do século XX.

21:43

eh e que eu identifico logo com esse

21:45

contravadorismo radicado em Cícero, eh

21:50

é um diálogo, um debate que foi muito

21:53

importante para fundar até a forma de

21:55

pensar da nova da nossa civilização

21:58

entre um grande filósofo chamado

22:01

Sócrates em Atas e um também da enfim da

22:05

um reetor, pelo menos ele era um reor,

22:07

se não lhe querem chamar filósofo, era

22:09

um sofista chamado Protágoras, não é? um

22:11

protógra é que tem um dito famoso de que

22:15

o homem é medida de todas as coisas. Ah,

22:18

e Sócrates é que faz a crítica dessa

22:20

proposição de que o homem é medida de

22:21

todas as coisas. E o conservadorismo,

22:23

portanto, que eu do século eh o

22:25

conservismo do futuro persona, ficado

22:28

ali no Cícero, eh também aceita a lição

22:31

de Sócrates contra Protágoras que ah que

22:36

o homem que o homem não é de todas as

22:38

coisas. E isso dá muitas lições

22:40

importantes. Por exemplo, eh limita as

22:43

expectativas que se alimentam acerca das

22:46

possibilidades da ação política. Hum.

22:49

Hum. E foi por isso que os

22:51

conservadores, aqueles que mantiveram o

22:53

seu juízo,

22:54

perante as ameaças totalitárias à

22:56

esquerda e à direita, só eram perceber

22:58

rapidamente os perigos de uma abordagem

23:00

totalitária do poder. Hoje, para nós,

23:03

depois dos horrores do comunismo e do

23:05

nacional socialismo, eh pode parecer

23:08

perplexizante porque é que como é que

23:10

alguém seria apaixonado pelo projeto

23:12

totalitário, eh, como o comunismo da

23:14

União Soviética, como o Nacional

23:16

Socialismo da Alemanha. Bem, mas na

23:17

verdade e perante a crise que as

23:20

democracias liberais viviam na altura,

23:22

aqueles dois regimes pareciam ser os

23:23

regimes do futuro.

23:24

>> Sim. Se calhar nós teríamos apoiado se

23:26

tivéssemos e

23:29

espero ter, eu espero não, eu espero que

23:30

não, mas por causa das minhas

23:32

inclinações conservadores, mas o que eu

23:34

ia dizer era que a inclinação

23:35

conservadora proporcionava imediatamente

23:37

uma objeção de fundo a um projeto viesse

23:39

da esquerda ou à direita que colocasse

23:41

na política a tarefa de refazer o mundo

23:44

e o homem. Porquê? supõe uma política

23:47

ilimitada. Ah, supõe que o homem é medid

23:49

todas as coisas. Mas isso sou mais a

23:51

fascismo do que a comunismo. Essa ideia

23:53

do homem como imagem ex por até é mais

23:55

comunismo. Até é mais comunismo. A ideia

23:57

de reconstruir um homem novo, eh, que

24:00

pudesse estar liberto dos preconceitos,

24:01

dos defeitos, das hh das limitações do

24:04

passado. Até uma ideia até mais

24:06

comunista do que a do nacional

24:08

socialismo, que o nacional socialismo

24:09

postulava que essa perfeição já estaria

24:13

radicada na própria raça. Portanto, até

24:15

o comun até tem uma uma atitude de

24:17

engenharia eh social, os engenheiros de

24:20

almas, é uma expressão que é ativizada

24:22

precisamente para os comunistas h até

24:24

mais

24:26

mais e vincada do caso do nacional

24:29

socialismo, mas anos tem essa essa

24:31

enorme expectativa de que o mundo tem de

24:32

ser refeito a partir da ação política e

24:34

o conservadorismo imediatamente vê aí

24:36

perigos, perigos existenciais, perigos

24:38

mortais. Uma coisa des tem que ser cab

24:41

mal para um conservador,

24:42

>> porque acredita que há outras vias

24:45

melhores, como a via da família ou a via

24:48

da espiritualidade ou seja, que a

24:49

política não é a única maneira de de

24:52

tornar o mundo melhor. É isso.

24:53

>> Bem, em primeiro lugar, é isso. dizer

24:55

que que a política é apenas uma das

24:56

dimensões do humano, eh, que está

24:59

sujeito a limites, precisamente nas suas

25:01

características, nas suas

25:03

possibilidades,

25:04

eh, e que de certa maneira é como se a

25:07

lição fosse esta, a ação política

25:09

torna-se benigna

25:11

se e só se for sempre levada a cabo,

25:16

tendo em vista um horizonte que

25:19

transcende a política.

25:21

Portanto, a partir do momento em que nós

25:22

temos filosofias políticas que dizem

25:23

assim: "Não, não, a política é o todo."

25:26

Nós temos uma política total, uma

25:27

política totalitária.

25:29

Quando o horizonte da política fecha

25:31

todos os outros horizontes, tens uma

25:33

política totalitária. Isso sim era o

25:34

nacional socialismo de Hitler e o

25:37

comunismo das vários dos vários doidos

25:39

que nós tivemos, como comunistas, Volen,

25:41

Stalin, o Maltetung, Walpot, esses tipos

25:44

de todos. H, isso é um ponto muito

25:46

importante, quer dizer, é fazer política

25:48

como se a política fosse um horizonte

25:51

temporário, transitório, tendo em visto

25:54

uma um outro horizonte que eu

25:55

transcendo.

25:57

Para muitas pessoas pode ser a arte e o

25:58

belo, para outros pode ser o moral e o

26:00

bom, para outros pode ser Deus e a

26:03

redenção da alma.

26:06

Mas a política tem de gozar deste

26:08

estatuto de instrumentalidade para essas

26:10

coisas, momento em que ela quer esgotar

26:12

e subsumir essas coisas nela. Então

26:15

vamos ter um grande seria.

26:17

>> Sim, revejo-me muito nisso e acho que é

26:19

por isso que me causa desconforto quando

26:22

dizem que tudo é política e tudo o que

26:24

tu fazes é política e qualquer coisa. A

26:26

mim, eu eu percebo, as pessoas explicam

26:29

e explicam, pá, tu decidires ir de

26:32

férias para o Brasil em vez de ir

26:34

Argentina, é política porque estás a

26:36

contribuir para o PIB do Brasil. Ó pá,

26:38

tá bem.

26:39

>> São disparados,

26:39

>> mas é eu acho uma maneira

26:41

>> são disparados.

26:42

>> Acho uma maneira feia de se ver o mundo,

26:43

sabes?

26:44

>> Isso não tem justificação nenhuma. Isso

26:45

é uma tentativa de de politização

26:48

radical que terminou sempre mal, muito

26:51

mal. As pessoas não percebem que ao

26:53

tentarem dizer essas coisas que parece

26:54

ser parecem estar a ser muito

26:56

espirituosas, inteligentes, elas estão a

26:59

servir como mensageiros de uma agenda de

27:03

extremista, seja de esquerda, seja

27:05

direita, como não há outra, como não há

27:08

outra. pouco importa se estão ali

27:10

armados em espertos a dizer coisas que

27:11

parecem ser muito inteligentes. H, a

27:14

partir do momento em que nós queremos

27:15

levar a política a todos os cantos, a

27:18

todos os gestos e da nossa da nossa

27:22

vida, interpretar a nossa vida nesses

27:24

termos, o que nós estamos a fazer é

27:25

politizá-la de facto.

27:27

>> Sim, senhor.

27:28

>> Portanto, aquilo que parece ser uma

27:30

simples constatação

27:32

super inteligente e e esperta, não é

27:34

nada. é um é um é uma espécie de agenda

27:36

de mobilização, hã, que empobrece a

27:38

nossa vida, empobrece radicalmente a

27:40

vida humana. E a partir desse momento,

27:42

todos os nossos gestos, todos os nossos

27:44

instantes, todos os nossos amores não

27:46

passam eh de um elenco supérflo nos

27:51

grandes conflitos ideológicos. É assim

27:53

que depois se justifica os campos de

27:54

concentração.

27:55

>> Sim. eh torna-nos apenas eh números e

27:57

engrenagens e e pequenas pressões

28:00

políticas e tira um bocadinho a magia e

28:02

e o e o político eh o que é político hh

28:07

infesta o que é sagrado de certa forma,

28:09

não é? Claro. E um gesto diferente do

28:12

meu, um gesto alternativo ao meu, um

28:15

amor diferente do meu, um tornam-se não

28:19

só diferenças sobre as quais nós podemos

28:22

debater de uma maneira até mais ou

28:23

menos, enfim, enfática e entusiástica,

28:26

sem sem ter ilusão que podamos chegar a

28:27

um compromisso, às vezes não existe, mas

28:30

torna-se muito mais do que isso.

28:31

Torna-se uma ameaça para mim. E a partir

28:33

do momento em que o outro é vez com uma

28:34

ameaça nos seus gestos, nas suas

28:35

preferências, nos seus amores, é um

28:37

passo muito simples. É só uma mudança

28:39

ligeira nas circunstâncias para que

28:41

aquela fonte da ameaça passa a ser um

28:43

inimigo que eu tenho diserminado.

28:45

>> Sim. Isso aconteceu na Europa, a própria

28:46

existência passa a ser ameaça em vez do

28:48

comportamento.

28:49

>> E isso acontece no mundo hoje. Acontece

28:51

no mundo hoje. No Irão, o que está a

28:53

fazer é exterminar as pessoas

28:55

deliberadamente por serem inimigas de um

28:57

de uma sociedade, neste caso, eh,

29:01

religiosa, eh, obscurantista, como é do

29:04

xismo e do Islão. Mas aconteceu na

29:08

Europa, aqui na Europa, em Auschwitz, no

29:10

Golag, nos fuzilamentos em massa, na

29:13

fome provocada.

29:16

H,

29:18

cada pessoa

29:20

é interpretada de acordo com essa agenda

29:24

de politização extrema e ela deixa de

29:26

ser uma pessoa, ela passa a ser um

29:28

agente superérfluo, pouco importa se ela

29:31

esteja no mundo ou não. E a partir do

29:32

momento em que ela adquire uma cor de

29:34

inimizade, então é como se eu adquirisse

29:37

um dever

29:39

de exterminada. E, portanto, eu nem

29:42

sequer culpa pelo ato horroroso e moral

29:46

que eu cometi me pode passar pela cabeça

29:49

a mim ou a sociedade onde eu vivo. Pelo

29:50

contrário, a expiação é automática e se

29:53

calhar, como acontece no Médio Oriente

29:55

com o Amaz, com o regime do Irão ou

29:58

outros regimes, os assassinos são

30:01

aclamados como heróis,

30:03

>> vão cumprir o seu dever. Não basta, acho

30:05

que não basta eh convencer as pessoas

30:07

que tudo é político. Também tens de as

30:09

convencer que existe uma utopia tão

30:11

perfeita que os meios justificam os

30:13

fins.

30:14

>> Mas vê, eh, isso foi verdade até, isso

30:16

foi verdade até um certo ponto. A

30:17

política ocidental é a nossa hoje é

30:20

produto de muitas desilusões.

30:23

Eh, e uma das desilusões à esquerda e à

30:25

direita foi de que não existem utopias.

30:28

Não existem. Portanto, o que é que nós

30:31

temos no mundo pós-utópico? as utopias

30:34

conduziram muito o lado aqui para os

30:36

conservadores, não, que tiveram sempre

30:37

uma grande suspeita relativamente a

30:38

esses projetos utópicos,

30:41

embora eu também no meu livro defenda

30:43

que eh o conservadorismo cicoroniano

30:47

nasce da edificação do utopiasmo. Isso é

30:49

uma longa conversa e enfim temos deixar

30:51

para outra para outro para outro

30:52

momento, mas eu estava a dizer que a

30:53

política que nós temos hoje no ocidente

30:56

é a política da desilusão.

30:58

Eh, a esquerda, por exemplo, abedicou

31:00

totalmente de caminhar para uma

31:02

sociedade etóica. Então, o que é que o

31:03

que é que conduz à ação da esquerda? É

31:06

sobretudo a a politização extrema e a

31:09

reinterpretação

31:11

de todas as relações sociais na ótica do

31:14

conflito. É isso que a esquerda quer

31:16

cristalizar. Isso é óbvio,

31:18

>> não sei se concorda, acho que a

31:19

igualdade continua a ser muito

31:20

importante.

31:20

>> Não, não, mas isto é uma questão de

31:21

concordar. Isto não é isto não sou eu

31:22

que estou a dizer o que é que eu acho.

31:24

Isto é o que a esquerda diz de si

31:25

própria, não nos comícios,

31:26

evidentemente, que estão a falar que

31:28

somos todos iguais. Estou a falar da

31:29

literatura que refundou a esquerda dos

31:32

últimos 30 ou 40 anos depois da tal

31:34

crise do marxismo que tem que ser

31:36

reinventar. Eh,

31:37

>> focou e e essa escola pos

31:40

>> focou, ajudou, focou, ajudou. Mas

31:41

repara, é ver uma coisa muito simples

31:42

quanto isto. Um dos meninos queridos,

31:45

dos teóricos da esquerda, ah, dos

31:48

últimos 30, 40 anos pós-marxistas

31:51

foi um homem que foi jurista, militante

31:54

do Partido Nacional Socialista Alemão e

31:57

que teve a ambição de ser o grande

31:58

constitucionalista do regime alemão. Não

31:59

conseguiu por causa das lutas internas

32:01

que lá houve e ele perdeu. Que é um

32:02

homem chamado Carlos Schmith que

32:04

interpreta política precisamente

32:05

conflito. É a relação entre amigo e

32:07

inimiga, distinção, amigo e inimiga, e a

32:08

distinção especificamente política. Como

32:10

é que alguém que patrocinou, pelo menos

32:13

na primeira fase da sua carreira, o

32:15

regime eh extremista do nazismo alemão

32:20

se torna, a partir dos anos 30, 80 e 90

32:23

a referência central,

32:26

ou pelo menos uma das referências

32:27

centrais da reinterpretação do movimento

32:29

da esquerda no ocidente eh por homens

32:31

como Lacla, Chantal Muf, etc., que

32:35

fundam o o chamado populismo da

32:37

esquerda. O populismo também não sou eu

32:38

que estou a dizer. Eram eles que diziam.

32:40

>> Sim, sim.

32:40

>> Agora que entretanto a notismo é só da

32:42

direito. Enfim, disparado.

32:44

>> Falei disso que o Daniel Oliveira.

32:46

>> Pronto, mas são disparados quem não

32:47

conhece as coisas ou quer esconder as

32:49

coisas como elas são. A única maneira de

32:51

ter fundado esse populismo que coloca o

32:54

conflito no centro de todas as questões

32:56

políticas e foi trazer os Carlos Schmith

32:59

para a discussão, que é uma coisa de

33:02

doidos. Eh, já agora, para não pensarmos

33:05

que isto é uma questão puramente

33:06

intelectual, eh, o Malanchon, o grande

33:09

líder da esquerda radical, da esquerda

33:11

extremista na Europa neste momento,

33:12

portanto, o líder da França, da França

33:14

insubmissa, ele tem aquela frase famosa

33:17

que é preciso levar o conflito a todos

33:19

os os cantos da vida francesa. Isso é

33:21

que é fazer política. Portanto, o

33:23

objetivo já não é, como era para os

33:24

marxistas, caminhar com todos os custos,

33:26

campos de concentração, fuzilamentos,

33:28

miséria, mas caminharíamos para uma

33:30

utopia da emancipação da humanidade

33:32

enquanto tal.

33:33

>> Essa aspiração caiu, morreu.

33:35

>> Portanto, a esquerda também teve

33:36

reinventar.

33:38

Isso foi propício para certos

33:40

adversários da esquerda, como os

33:41

conservadores e os liberais diseram:

33:43

"Ah, estão a ver?" Andaram atrás do

33:44

outro piso, isso agora todo se

33:45

desmornou. H, mas ao mesmo tempo os

33:49

liberais, sobretudo os liberais, também

33:50

tinham uma aspiração eh de emancipação

33:54

da humanidade, dos indivíduos que tinham

33:57

um carijo utópico também. Essa aspiração

33:59

liberal também se está a desmoronar,

34:01

>> a utopia globalista de mercados livres e

34:04

abertos para todos e que isso

34:06

corresponderia ao a uma exercção máxima

34:11

e perfeita da liberdade individual

34:13

>> e estamos a viver esse desmornamento

34:15

agora. São esses os nossos dias. É essa,

34:17

essa desilusão

34:18

>> dizer, é exatamente por isso que eu

34:19

estou a dizer, a política do nosso tempo

34:20

é muito marcada por uma política da

34:22

desilusão.

34:23

>> Sim, sim.

34:23

>> Porque as antigas expectativas que

34:25

nasceram todas no século XIX, são tudo

34:27

produtos do século XIX, as coisas que

34:28

acabamos de escrever. HH, e foram

34:31

coisas, também é preciso dizer isto,

34:33

foram coisas que motivaram os nossos

34:35

antepassados para coisas verdadeiramente

34:36

belas e heróicas. Ah, estou a falar para

34:39

para os cardistas e para os liberais,

34:40

não foi só assassinos e e monstros. Isso

34:43

houve muitos, porque essa ideia também

34:45

cativa à mente monstruosa, à mente

34:47

totalitária, mas também houve muita

34:48

gente e à esquerda e nos liberais

34:52

generosa, criativa, que mudou o descendo

34:55

da humanidade de uma forma benigna em

34:57

nome desta ilusão, desta ilusão. Só

35:00

estou a constatar é que no nosso tempo a

35:03

política que nós temos, descardistas,

35:05

liberais e até porque ainda não falamos

35:07

nisso, porque ninguém pense que eu acho

35:09

que os conservadores não caíram numa

35:10

grande crise, eu acho que estão numa

35:11

grande crise,

35:13

quase tão grande como a crise dos

35:15

liberais, que por sua vez é quase tão

35:17

grande como a crise da esquerda.Então

35:19

>> eu acho que as três grandes famílias

35:20

estão numa crise muito profunda, por

35:22

isso é que eu acho que nós estamos a

35:23

atravessar um um processo de grande

35:25

confusão, dissolução das referências

35:27

antigas. Eu acho que vem daí.

35:29

>> Mas desculpa, deixa-me só interromper-te

35:30

rapidamente, porque tu a falar do

35:32

nacional socialismo, não é, do nazismo,

35:34

eh, se separaste muito os conservadores

35:37

do movimento. Eu acho que houve uma

35:39

grande parte de pessoas que se

35:41

consideravam conservadoras que aderiram

35:43

ao movimento.

35:43

>> Ah, isso houve, não isso houve, houve.

35:44

Mas essa foi a primeira desilusão do

35:47

conservadorismo.

35:48

>> Depende o que é que faz a entender por

35:49

conservadores. Quer dizer, os tipos que

35:50

se juntaram na altura, por exemplo, os

35:51

militares,

35:52

>> evidentemente que os militares na altura

35:55

e quando o Hitler chegou ao poder, não,

35:57

muitos, a maior parte deles não tinham

35:58

nenhuma aspiração revolucionária.

36:01

Queriam que a sociedade mais ou menos

36:02

regressasse a que tinha sido em 1914

36:04

antes do do desastre da guerra, da

36:06

derrota, da hiperinflação,

36:08

>> de tudo o que aconteceu naqueles anos

36:09

>> e juntaram-se ao Hitler. Claro. Agora

36:12

fizeram-no muitos por ambição pessoal,

36:15

outros por desorientação.

36:17

Não fiz, o que eu estou a dizer é que

36:18

não houve uma articulação

36:21

conservadora de justificação do

36:22

nacionalismo. Isso não houve. Eh, como

36:25

houve, por exemplo, escardistas que

36:27

apoiaram a revolução soviética, não

36:29

sendo soviéticos, que acharam que aquilo

36:32

era uma parceria que se podia fazer para

36:34

a construção depois de uma de uma grande

36:36

sociedade global eh comunista. É óbvio

36:39

que isto também não foi assim para toda

36:40

a esquerda, porque imediatamente quando

36:42

a revolução soviética ocorre, eh, os

36:46

grandes dos ilustres do movimento

36:48

escrití internacional, quase todos eles

36:49

alemães, eh, a maior parte deles até vai

36:52

ser contra a revolução.

36:53

>> Sim, sim, sim. na Áustria, nos

36:55

marquistos austros e nos marquis

36:56

alemães, a maior parte vai ser contra

36:58

revolução, mas há uma ideia de que se

36:59

calhar existe esta colaboração que pode

37:02

ser feita se ao menos comunistas lá na

37:05

União Soviética tivessem outros métodos

37:08

não tão violentos

37:10

>> e não tão repressivos. Mas se

37:12

descontarmos isso, no caso da

37:14

articulação da mentalidade conservadora

37:16

com os objetos do Nacional Socialismo,

37:18

as coisas não são tão assim. Agora,

37:20

claro, muitas pessoas que pertenciam,

37:22

que votavam nos partidos mais

37:23

conservadores, ah, isso juntaram-se ao

37:25

Nacional Socialista em Barda, em Barda,

37:28

traíram as suas consciências, traíam os

37:30

seus princípios e nalguns casos

37:33

tornaram-se cúmplice os seus crimes.

37:35

Isto não vai voltar.

37:36

>> Fazemos aqui uma brevíssima pausa para

37:37

falar um bocadinho sobre saúde mental.

37:40

Felizmente, nos últimos anos, as pessoas

37:42

cuidarem da sua saúde mental têm vindo a

37:44

ter um estigma cada vez menor, mas

37:47

continuava a ser uma espécie de

37:48

privilégio económico. Mas a Highwell

37:50

veio resolver isso. A Highwell é uma

37:53

plataforma de psicologia 100% online,

37:56

onde todos os psicólogos estão inscritos

37:58

na ordem dos psicólogos e onde vocês

38:00

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38:01

aquilo que procuram eh são emparilhados

38:04

com um psicólogo. podem experimentar até

38:06

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38:09

pagar nada. E neste momento criaram uma

38:12

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38:15

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38:18

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38:21

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38:24

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38:26

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38:29

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38:31

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38:33

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38:37

e esta primeira consulta por apenas 16

38:39

€. Obrigado Highwell pelo apoio e vamos

38:42

voltar para o episódio.

38:43

>> Mas estavas a dizer, estamos a ver um

38:44

uma nova desilusão do conservadorismo

38:47

porque por causa destes movimentos tipo

38:49

maga, não é?

38:49

>> Sim, sim. É, não, eu acho que o

38:52

movimento maga é um sintoma da crise, já

38:55

não é não não provocou a crise. Eu acho

38:57

que o Maga vem ocupar,

38:59

no fundo, é como se tivéssemos chegado a

39:01

uma casa em ruínas e há uns tipos que

39:03

começam a construir uma casa toda cheia

39:04

de curvas e com os tijolos todos em

39:06

baixo, todos uma coisa,

39:07

>> uma aberração,

39:09

>> mas porque a casa já estava em ruínas. A

39:11

casa já estava em ruínas e eu acho que é

39:13

preciso levar isso a sério.

39:14

>> Então o que é que tinha acontecido? O

39:15

que é que aconteceu ao conservadorismo

39:17

para para a casa ficar assim nesses

39:19

estado? Boa pergunta. Eu também tento

39:21

tratar isso no livro, enfim, mas não

39:23

posso dier a todas agora, não é? Todas

39:24

as causas são são longínquas. Em

39:26

primeiro lugar, porque parece-me que o

39:29

conservadorismo, só queria dar três

39:31

causas. Eh, o conservismo

39:33

tradicionalista tornou-se totalmente

39:36

obsoleto.

39:37

Ah, portanto, as grandes raízes

39:39

intelectuais que tenham sido consagradas

39:40

pelas universidades, pelo canone e de um

39:43

conservadorismo tradicionalista no mundo

39:45

marcado pela pela pela mudança

39:48

incessante,

39:50

tornou-se obsoleto, tornou-se uma coisa

39:53

ridícula até. Portanto, isso cai

39:55

imediatamente a partir do momento em que

39:56

o mundo deixa de caminhar uma velocidade

39:58

glacial como até o ensino do século XIX.

40:00

>> OK? a velocidade da mudança, então

40:02

tecnológica, globalização, cultural,

40:04

>> toda, tod todas as transformações que

40:06

foram muito rápidas e em aceleração.

40:07

>> Sim. Sim.

40:09

>> Depois, como é que o conservadorismo

40:11

tentou corrigir isso logo no século XX,

40:14

fazendo uma aliança com o liberalismo,

40:16

uma aliança que foi intelectual no mundo

40:19

das ideias, mas também política e muito

40:22

bem sucedida. Grandes vitórias

40:24

eleitorais no mundo inteiro fizeram-se à

40:26

conta desta formulação de partidos como

40:27

o Partido Conservador em Inglaterra, por

40:29

exemplo, ou o partido republicano na

40:31

América a partir de bem primeiro do

40:34

Berry Gold Water, mas ele depois vão

40:35

ganhar as eleições, mas do Reagan mais à

40:37

frente, não é?

40:38

>> Conservadorismo com o liberalismo

40:39

económico, certo?

40:40

>> Isso, não é? Essa essa fórmula que

40:42

parece ser mágica.

40:44

>> Sim. em que no fundo há ali um um

40:46

programa que é simultaneamente

40:47

conservador e liberal ao mesmo tempo.

40:49

Eh, portanto, aquilo parecia

40:51

incompatível no século XIX, depois

40:54

parece forma uma grande aliança natural.

40:56

>> Funciona

40:56

>> natural não mais do que funcionar. As

40:58

pessoas parece eh julgaram como uma

41:01

solução óbvia em política. Não é nada, é

41:03

óbvio. Nada é óbvio. Tudo tem que ser

41:05

construído e remediado e negociado e

41:07

pensado. Mas é tão forte o movimento que

41:10

nasce com Vergan, depois contagia toda a

41:13

gente, com toda a gente até ao final dos

41:15

anos 90 em grande medida

41:17

>> ou até 2008, não é? De certa forma. Eu

41:20

acho que nessa altura as coisas já

41:21

estavam já estavam. Acho que o choque de

41:24

2001

41:26

e das Torres Gémeas, Torres Gémeas, Sor

41:29

Gémeas, acho que começa a abanar essa

41:31

essas essas convicções todas. Eh, as

41:34

reações sociais à globalização

41:36

anteriores até à crise financeira.

41:37

Portanto, eu acho que essas coisas já

41:38

estavam a desmoronar-se. Mas a partir do

41:40

momento em que isso desmorona, o

41:41

conservadorismo fica para saber, fica-se

41:43

saber para onde é que há, para onde é

41:44

que há de ir. Os liberais também,

41:45

coitados, ficam nas lonas. Mas os

41:47

conservadores perdem muito. Porquê?

41:49

Porque eles estavam habituados a

41:50

governar e ganhar eleições. Eles eles

41:52

eram do liberalismo económico

41:54

>> dessa aliança, não é? Dessa aliança em

41:56

que não eram puramente liberais, eram no

41:58

mercado, nas privatizações, nas reformas

42:00

do mercado liberal, mas depois havia uma

42:02

agenda conservadora nos valores, uns

42:04

mais, outros menos, não importa, mas era

42:05

essa grande aliança que parecia ser uma

42:08

sínice perfeita e ela estava cheia de

42:09

contradições, ela estava cheio de

42:11

tensões como estão sempre em política.

42:13

inevitável essas tensões e essas

42:15

contradições.

42:15

>> São já agora, são um bocado as tensões

42:17

do CDS aqui desta reta final antes de

42:20

desaparecer. Sentia,

42:21

>> mas uma escala muito pequenina, não é? É

42:22

numa escala muito pequenina quando

42:23

falamos em países muito importantes

42:25

nestas coisas como a França do galismo,

42:28

eh, a América do partido republicano, a

42:31

Inglaterra do Partido Conservador, eh, e

42:35

outros na Alemanha, na Holanda, eh, na

42:38

Suécia, a Itália, até nós começamos a

42:42

perceber que o abalar da certeza desta

42:46

aliança deixou os conservadores numa

42:49

terra de ninguém politicamente, à

42:51

procura de outra coisa, porque eles

42:53

tinham que ir à procura da coisa, não

42:54

eram partidos marginais. Alguns deles

42:57

sofrem esta crise intelectual quando

42:58

ainda estão no governo, ainda nem sequer

43:00

perderam eleições, mas já não tem as

43:02

mesmas âncoras, já não tem as mesmas

43:04

raízes. E depois só mais uma causa,

43:05

enfim, há várias, mas só mais uma causa

43:07

que foi muito importante. A dada altura

43:09

aparece por causa do do 11 de setembro

43:12

aparece uma reconceptualização do

43:14

conservadorismo,

43:15

eh,

43:17

que, enfim, americana na sua origem, mas

43:19

que também contagiu muito o debate, os

43:21

chamados neoconservadores,

43:23

não é? que é uma tentativa também de

43:24

refundação do conservadorismo, eh, mas

43:28

no contexto geopolítico do do pós- 11 de

43:30

setembro

43:31

>> são mais nacionalistas do con

43:33

>> naquele caso nem eram nacionalistas

43:35

porque aquilo era um globalismo

43:36

tremendo, era a afirmação da democracia

43:38

pelo mundo, que os Estados Unidos tinham

43:40

essa missão de levar a democracia pelo

43:41

mundo. Famoso discurso de George W.

43:43

Bush, que ele diz que estas invações vão

43:46

ser levadas a cabo para os muçulmanos,

43:48

porque a liberdade é um dom de Deus para

43:50

todos os homens, independentemente das

43:51

suas crenças e tudo mais. Hum.

43:55

E e isto termina tudo num grande

43:57

desastre, neoconservadorismo. E,

43:59

portanto, até essa tentativa de

44:01

refundação, mas desculpa lá, isso parece

44:03

muito pouco conservador, um conservador,

44:06

pelo menos uma forma,

44:06

>> foi muitos conservadores disseram.

44:08

>> Pois, a forma como eu entendo é,

44:10

imagina, eu sou conservador em relação a

44:12

todas as culturas do mundo. Imagina, não

44:14

quero que o mirandês morra como não

44:16

quero que o bengalês na Índia morra,

44:18

percebes? Eu acho que um conservador do

44:21

meu tipo quer conservar eh o que cada

44:25

lugar tem de especial e hesita muito

44:29

perante uma atitude ai não, nós sabemos

44:32

melhor do que vocês, por isso vamos aí à

44:33

vossa cultura e vocês vão passar a fazer

44:35

tudo à nossa maneira.

44:36

>> Isso para mim não é conservador. Isso é

44:38

progressista. É nós, nós estamos à vossa

44:41

frente, estamos temos um nível de

44:42

progresso superior e queremos que vocês

44:44

vão para esse lugar.

44:46

>> E eu, isso foi uma discussão que houve

44:47

na altura. Eh, bem, depois do depois de

44:49

um desastre que aquilo tudo foi, ainda

44:51

mais essa discussão regressou. Eh, e foi

44:55

um movimento muito americano e a América

44:58

nasce na sua fundação de uma promessa

45:02

que os conservadores na América

45:03

ritualisticamente

45:05

recapitulam de que a América é um farol

45:08

de liberdade. Isso tem uma raiz e

45:11

teológica até no protestantismo. Enfim,

45:13

há várias figuras de dos dos dos

45:16

primeiros colonos ainda no século X7 que

45:18

vão fugir da das guerras religiosas e da

45:21

perseguição religiosa.

45:23

Mas o que eles querem não é apenas a

45:24

liberdade e a segurança de poderem

45:26

adorar Deus como querem. É que eles

45:28

estão, eles foram investidos por Deus de

45:29

uma missão divina de serem no famoso

45:33

sermão do Intrope, a a cidade no topo da

45:36

colina, que é uma famosa passagem do do

45:39

Evangelho, a a cidade no topo da colina,

45:41

uma cidade exemplar. A América iria ser

45:45

colonizada longe da corrupção europeia

45:48

para ser uma sociedade exemplar. E isso

45:51

muito rapidamente se converte no momento

45:53

da fundação política dos Estados Unidos,

45:54

no final do século XVI, como uma

45:56

promessa de que há uma missão que já não

45:59

é só religiosa, mas republicana,

46:02

eh, na imagem do farol, o farol das

46:04

liberdades. Portanto, há a humanidade

46:06

vive toda no obscurantismo, nas trevas

46:08

da opressão. Não há repúblicas, não há

46:11

liberdade dos individuais. E olham para

46:13

aquela luz que desponta na América. E

46:15

América está lá para cima.

46:16

>> Iluminismo, no fundo, não é? uma é uma

46:18

manifestação um bocado iluminista.

46:20

>> É isso, é verdade, mas neste caso com

46:22

uma espécie de evangelismo republicano

46:24

que nunca tinha tido tradução política

46:27

concreta, porque nunca tinha havido uma

46:28

república com aquela projeção.

46:30

>> Sim, o aleminismo não era era um bocado

46:33

antirreligião, era a ideia era um bocado

46:34

fugir dos mitos e ir para a razão. Por

46:36

isso, nesse sentido, realmente não é não

46:38

é puramente iluminista.

46:39

>> Isto é a construção de um outro mito. É

46:40

a construção de um mito político e que

46:42

conduziu a política americana

46:44

>> e em diversas fases da sua vida.

46:47

Eh, e portanto quando estes

46:48

neoconservadores aparecem, eles

46:50

constatam aqui dois problemas. Eh,

46:54

primeiro, qual é o estado geopolítico

46:57

das coisas mais concentâneo com a

46:59

segurança e prosperidade americana? E a

47:02

conclusão que eles chegam é melhor

47:03

sermos todos democracias, porque se

47:04

houver regimes deste tipo, como há no

47:07

Iraque ou no Afeganistão ou no Irão,

47:09

então o América terá sempre inimigos e

47:11

haverá sempre guerras, nós nunca

47:12

sairemos daí. Portanto, o melhor, a

47:14

melhor política de segurança é nós

47:17

democratizarmos aquilo, nem que seja à

47:20

força, nem que seja a mocada. Foi uma o

47:22

bonito serviço que fizeram, que

47:24

prestaram. Eh,

47:25

>> mas e o petróleo? Não, isso não eram só

47:27

desculpas para ir para poder explorar

47:29

estruturais.

47:29

>> Não, eram, não, não eram. Havia uma

47:31

parte que era verdade,

47:32

>> havia uma parte da política americana

47:34

que não era neoconserador

47:35

especificamente, era uma política

47:36

americana de sempre que era ter acesso

47:38

às vias de fornecimento de petróleo.

47:40

Isso falia para qualquer um, para a

47:42

esquerda, para a direita, na América,

47:43

não é? Qualquer presidente. Eles

47:44

acrescentaram este ponto.

47:47

>> Eh, por exemplo, essa política de ter

47:49

acesso às às ao abastecimento de

47:52

matérias primas que as americanas agora

47:53

já não precisam, já têm produzem tant

47:54

pessoal, já não precisam. Porto também é

47:55

uma coisa do passado, mas até aquela

47:57

época podia ser protegido dizendo assim:

47:59

"Olha, nós temos aqui uns fascínas,

48:01

desde que estes fascínas nos deem

48:02

petróleo, eu não quero lá saber se eles

48:03

são fascinos ou não, isso só primiu o

48:04

próprio povo". Aqui os nossos, os

48:06

neoconservadores vão mais longe,

48:07

trazendo esta dimensão moralista à

48:10

política externa americana, dizendo que

48:12

isso é que correspondia

48:14

a à verdadeira missão inscrita na

48:17

fundação americana. Por isso é que é uma

48:18

ideia conservadora para eles, é recordar

48:21

as raízes da fundação.

48:22

>> OK? mesmo que depois tenha esta esta

48:25

consequência

48:26

>> que é profundamente revolucionária,

48:28

>> chegar a um país e h a bomba dizer agora

48:31

vais ter leis democráticas, vais ter um

48:32

parlamento e vais ter eleições, mesmo

48:33

que esteja tudo em guerra civil, eh,

48:35

seitas e religiões e tribos que se

48:37

odeiam e que não há mínimas condições

48:39

para para formar uma democracia como se

48:42

vivéssemos na Suíça ou na Dinamarque,

48:43

não é?

48:45

Portanto, eles eles aquilo não era só

48:47

uma uma espécie de retórica

48:50

e mentirosa para justificar ficar lá com

48:52

o petróleo que os americanos queriam o

48:54

petróleo de do Kuwait e do Iraque. Ah,

48:56

isso quiser mas isso se quiseram sempre

48:58

com qualquer tipo de orientação política

49:00

externa. Sim, já percebi.

49:01

>> Ali eles quiseram acrescentar esta

49:02

dimensão que justificavam

49:05

ideologicamente desta maneira, porque

49:07

este neo conservadorismo tinha esta

49:09

componente radicalmente evangélica, que

49:12

era de levar a liberdade ao mundo

49:14

inteiro.

49:15

>> Deixa-me só fazer-te uma pergunta. Eu

49:17

tenho

49:17

>> issoentando isso como só são só para

49:20

dizer só para dizer, só para fazer esta

49:22

esta conclusão e para não ficar tudo no

49:25

ar. Isto é um desastre total, não é?

49:28

externa americana no Médio Oriente, as

49:30

invasões no Iraque, enfim, a todos os

49:32

títulos, um desastre.

49:34

>> E deixa o partido republicano num estado

49:37

de desorientação total, porque é incapaz

49:40

de se desamarrar

49:43

do vínculo que tinha este tipo de

49:44

política.

49:45

>> Irá, e Afeganistão,

49:46

>> Iráqu Afeganistão e est sempre a fazer

49:48

guerras e invadir e não sei que mais.

49:51

>> Em 2015, Obama é presidente, não é?

49:54

Portanto, os democratas estão no poder e

49:56

os republicanos querem-se reorganizar.

49:59

Os os republicanos tinham perdido as

50:01

eleições com John Mcinan, que era um

50:03

neoconservador. Há tu curre que não há

50:06

grandes diferenças, não é?

50:08

Eh, e quem perde as primárias

50:11

republicanas em 2008

50:13

é um homem chamado Mit Romney, que vai

50:16

ser depois concorrer contra Obama e

50:18

perde para Obama quando a Obama tá a

50:20

disputar o segundo mandato. E Romney em

50:22

2008 é o primeiro a dizer: "Não, não,

50:23

nós temos que nos libertar desta coisa

50:25

de ser de ir democratizar o mundo

50:27

islâmico e o mundo do meio oriente,

50:28

porque nós temos aqui uma concorrência,

50:31

ele utiliza a palavra competition, uma

50:33

competição com uma superportência

50:35

emergente que é a Chena. Portanto, nós

50:37

estamos aqui distraídos e o que vai

50:38

haver é uma divisão do mundo entre a

50:39

China e os Estados Unidos e nós não

50:40

estamos preparados para isso. Ele é o

50:41

primeiro a levantar esse tema em 2008,

50:42

só que perde. Ele perde. Portanto, o

50:45

neoc ainda era forte no partido

50:46

republicano. Mcin vai a votos. Quando

50:49

Romney vai finalmente a votos, passado 4

50:51

anos, leva uma tareia do Obão e,

50:53

portanto, aquilo fica sem efeito nenhum.

50:55

E o que acontece? O partido republicano

50:56

fica ali numa terra de ninguém. E quem é

50:58

que aparece a primeira vez a dizer

51:00

assim: "Este foi o maior erro do partido

51:02

republicano, guerras infindáveis. para

51:06

ir democratizar, isso é um disparado,

51:07

temos que acabar com isso. Trump só que

51:10

em 2015 já vi tantas mudanças da

51:12

sociedade americana e no próprio partido

51:14

republicano amargurado com todas as

51:16

derrotas que finalmente o partido

51:18

republicano diz assim: "Ah, pois é, é

51:19

isso, já tem que se livrar disto, temos

51:21

que nos livrar desta

51:22

>> tiveram muito tempo fora do poder

51:24

>> ao ponto de depois con Trump

51:27

>> em 2015 e depois ele ganha em 2016, é o

51:30

partido democrata que se torna um

51:31

partido intervencionista das ingerências

51:33

e da ajuda democrática. O partido

51:35

republicano começa a deixar até instalar

51:38

muitas correntes internas, como temos

51:40

hoje no mágoa, de isolacionismo radical,

51:42

que até suspeita das atuais ações de

51:44

Trump, sua base elitróicão, mas afinal

51:46

de contas, como é que é? Venezuela

51:48

suposto em todo lado, eles atacaram o

51:50

Irão há

51:52

>> agora já perdi um pouco a noção dos do

51:53

tema há uns três meses atacar o Irão,

51:55

não é? Ao lado de Israel

51:56

>> e há muita gente que sair para lá.

51:58

Então, mas isto não era suposto nós

52:00

saírmos destas embrulhadas?

52:03

Há uma parte do do movimento Mag que

52:06

olham com suspeita para este tipo de

52:08

intervenções que o Trump, apesar de

52:10

tudo, e a equipa dele, o Rubio

52:12

sobretudo, fazem um tipo de intervenções

52:15

diferentes como nós estamos a ver na

52:16

Venezuela. Não é chegar lá e mudar o

52:17

regime, é fazer ameaças aos tipos que

52:19

mandam, tirar de lá um, neste caso duro

52:21

e dizer assim: "E agora vocês fazem o

52:22

que a gente quer, pode ser? deixas ficar

52:24

aí.

52:24

>> Pode ser assim, não invadimos o

52:26

território,

52:27

>> ou seja, aprendendo com as lições

52:29

amargas da republicana, mas não deixando

52:31

de fazer intervenção. Isto para muita

52:33

gente no movimento Maga não é aceitável

52:36

porque é uma tensão

52:39

e make America Great again é um é um é

52:41

um slogan muito mais sobre investir na

52:43

indústria americana, investir nos

52:45

americanos. Sabes onde é que o slogan

52:47

America great again?

52:48

>> Não

52:49

>> foi inventado pelo Reagan? Reagan.

52:51

>> Ah, não fazia,

52:52

>> pá. É verdade. Do decadentismo americano

52:54

nos anos 70 na era pós-vietnam, pós

52:57

Nixon e da degradação das cidades

52:58

americanas com o Carter e com aquilo

53:00

tudo. Make America Great again é uma

53:03

coisa que a equipa do Trump vai roubar à

53:05

campanha do primeiro Reagan. E o Reagan

53:08

era um bocadinho diferente do Trump. na

53:11

abordagem à economia, à globalização,

53:14

eh, e à missão que a América tinha de

53:17

combater pela liberdade do mundo.

53:19

Portanto, há uma espécie de apropriação

53:21

com muita eficácia de um slogan que

53:24

servia aos republicanos num contexto

53:26

muito diferente e que agora é

53:28

reinterpretada à luz de

53:30

inclinações que existiram sempre no

53:32

partido republicano desde que o Lincoln

53:34

o formou.

53:36

sempre o partido republicano teve

53:37

períodos de grande isolacionismo.

53:40

Foi sempre assim historicamente depois

53:43

do de de Lincoln, os as exceções, mas

53:47

não são muitas, os grandes movimentos de

53:51

abertura da América para passar a

53:53

intervir nos assuntos políticos dos

53:56

outros países vem de presidentes

53:58

democratas com grande oposição dos dos

54:01

republicanos.

54:02

os grandes os grandes momentos. O Wilson

54:06

e com uma oposição republicana cerrada à

54:10

participação da América na Primeira

54:11

Guerra Mundial, a vetar a participação

54:13

da América na Sociedade das Nações e

54:16

depois o o segundo Roosevelt, não é?

54:19

Franklin Del Gosevelt que quer levar a

54:21

América a

54:24

intervir na guerra ao lado da Inglaterra

54:26

contra a Alemanha e nunca concebe para

54:28

oposição republicana. Só consegue depois

54:30

quando eh

54:32

>> ataca. Não, a história é me

54:34

interessante. O Japão ataca aos Estados

54:35

Unidos e a partir daí o Livel tem toda a

54:37

licença, atorização, não é? Toda a gente

54:39

é pá sim atacar o território americano,

54:41

vai território americano, vamos lá ato

54:42

deles. Mas depois é o Hitler que 15 dias

54:46

depois do ataque a Pearl Harbor ainda

54:48

nesse mês de dezembro de 41, declara

54:50

guerra aos Estados Unidos.

54:52

>> Foi o Hitler que declarou antes foi um

54:54

grande favor que o Hitler fez ao

54:56

Roosevelt, porque o Roosevelt não

54:57

conseguia ter uma maioria política

54:59

>> hum

55:00

>> que mesmo com o ataque ao Japão permiti

55:03

a mobilização do do país ao lado da

55:05

Inglaterra contra a Alemanha nazi. O

55:07

Hitler faz-lhe esse favor. Então, se

55:08

calhar seríamos todos alemães se o

55:10

Hitler não tivesse declarado guerra aos

55:11

Estados Unidos. Eu acho que era uma

55:13

questão de tempo até depois os

55:15

americanos eh aparecerem no teatro de

55:17

operações na Europa, até porque a guerra

55:20

no Pacífico estava muito ligada à guerra

55:21

na Europa e e pronto, as as coisas

55:23

acabariam por se contagiar uma outra e

55:25

depois não nos podemos esquecer, enfim,

55:26

também o naquela altura, dezembro de 41

55:29

é o momento em que o exército vermelho

55:31

consegue travar finalmente a Vermart às

55:34

portas de Moscovo. Portanto, há ali um

55:36

grande ponto de inflexão na Segunda

55:37

Guerra Mundial, que é o dezembro de

55:39

1941. Por todas estas razões, os russos

55:41

travam finalmente os alemães no inverno,

55:45

os japoneses atacam os Estados Unidos e

55:48

Hitler declar guerra à Alemanha.

55:49

Portanto, ali um grande ponto de

55:50

inflexão que se não tivesse chegado em

55:51

dezembro

55:53

chegaria mais tarde ou mais cedo. Os

55:54

americanos também já estavam a abastecer

55:56

a União Soviética não conseguia resistir

55:58

aos alemães não fosse os abastecimentos

55:59

americanos. A Inglaterra muito mais. era

56:01

uma questão de tempo.

56:03

>> Então, resumindo, o houve uma o

56:06

conservadorismo teve que largar o

56:08

liberalismo por causa do que aconteceu

56:10

em por causa do 11 de setembro e e do

56:13

livar a funcionar interior porque porque

56:15

o porque o conservador estava estava a

56:16

resumir três razões que deste para o

56:18

estado de conservadorismo.

56:20

>> Então, o colapso intelectual de

56:22

obsolescência do conservadorismo

56:24

tradicional

56:25

>> que se torna uma coisa estética, não é?

56:27

>> Sim, sim.

56:28

>> Tipo, ah, aquele veste-se como um

56:29

conservador.

56:30

>> Sim, sim, sim. mais do que isso. Depois

56:32

o conservadorismo na sua aliança com o

56:34

liberalismo que foi tremendamente bem

56:35

sucedido, mas depois vem os problemas

56:38

associados à crítica conservadora das

56:40

consequências do liberalismo. Eh, não é

56:42

só a questão da globalização, é toda a

56:45

agenda liberal de emancipação do

56:47

indivíduo nas suas múltiplas declinações

56:50

que começam a gerar grandes resistências

56:52

para os conservadores, como nós estamos

56:53

a ver agora.

56:54

>> Sim. e até ou até nenhum ninguém que

56:57

defenda, por exemplo, a doutrina social

56:59

da igreja

57:01

é a favor de um tratar trabalhadores

57:04

como se fossem inúmeros ou de explorar

57:06

crianças no Bangladés para fazer

57:08

sapatilhas. Ou seja, há aqui

57:10

>> existe existe uma ganância no no

57:13

neoliberalismo, se quiseres, para usar

57:14

aqui um chavão, que muitas pessoas têm

57:17

definições diferentes sobre elas, mas

57:18

existe uma ganância que é incompatível,

57:20

por exemplo, com a doutrina social da

57:21

igreja.

57:22

>> E não só não é só a ganância. ganância

57:23

existe em tudo, não é, no nos

57:25

socialismos

57:25

>> tratar mal, não tratar bem as pessoas.

57:28

>> O problema, a objeção de fundo da

57:29

doutrina social da igreja é eh primeiro

57:33

que haja mecanismos económicos e

57:35

sociais, instituições que tratem as

57:38

pessoas como instrumentos,

57:39

desrespeitando a sua dignidade

57:40

intrínseca. Exato.

57:41

>> E depois, eh, na doutrina social da

57:44

igreja também há uma grande consideração

57:48

pelos efeitos deletérios do liberalismo

57:51

na emancipação do indivíduo enquanto

57:52

indivíduo. Para a doutrina social da

57:54

igreja, nós não somos indivíduos, somos

57:56

pessoas,

57:58

seres sociais por natureza que cuja

58:02

existência no mundo significa

58:04

imediatamente relação com o outro.

58:06

>> Exatamente.

58:06

>> E o liberalismo tende a analisar-nos

58:08

como indivíduos atomizados. Portanto,

58:11

>> homoeconómicos, lembras-te aquele

58:13

conceito que eu uso?

58:14

>> A doutrina nacional da igreja sempre

58:16

teve uma reserva de fundo quanto ao

58:17

liberalismo. A doutrina social da igreja

58:19

foi muito importante na fundação de um

58:21

tipo de conservadorismo que nós ainda

58:22

não falamos agora eh muito importante na

58:25

Europa, sobretudo no pós- Segunda Guerra

58:27

Mundial. Antes da Primeira Guerra, antes

58:28

da Segunda Guerra Mundial também já era

58:29

importante, mas enfim, naquele volta não

58:30

foi tudo tão controbado. Mas a seguir a

58:32

Segunda Guerra Mundial foi a democracia

58:33

cristã.

58:35

Em grande a democracia cristã criou a

58:37

Europa do pós Segunda Guerra Mundial,

58:38

mais do qualquer outra corrente

58:40

política, a ideia da comunidade

58:42

económica europeia, União Europeia, isso

58:44

é tudo são coisas que vêm da democracia

58:46

cristã mais do que qualquer outro

58:47

partido, muito mais do que a corrente

58:48

liberal e muito mais do que a corrente

58:49

socialistas que tinham sempre uma grande

58:50

suspeita estas coisas.

58:52

>> Mas desculpa, o o medo do comunismo e a

58:55

pressão feita pelos sindicatos e todo

58:57

esse movimento também contribuiu para

58:59

que as para que os estados sociais

59:01

aparecessem, não é? Ah, não, isso sem

59:02

dúvida todo esse tipo de conflito

59:04

político, dessas reivindicações, tudo

59:05

mais. Agora, a doutrina social da igreja

59:07

desde o início que tinha uma vocação

59:10

sindical, eu sei que isto agora pode

59:12

parecer bizarro, mas muitos dos

59:14

sindicatos que havia eh

59:17

entre o final do século XIX, depois do

59:20

do Papa Leão XI até 1970, eram

59:25

sindicados católicos, cristãos, nem

59:27

todos católicos, mas são sindicados

59:28

cristãos. inspiração cristã

59:29

>> e faz todo sentido para quem olha para a

59:31

doutrina social da igreja na sua origem.

59:33

>> Todo o sentido. Eh,

59:35

>> a maior cooperativa da Península

59:37

Ibérica, a Mont Dragon, foi fundada por

59:38

um padre e é uma é um projeto incrível.

59:41

Se nós lmos, por exemplo, quando a

59:43

Itália, a democracia italiana é

59:46

construída ou fundada a seguir à Segunda

59:48

Guerra Mundial, depois do fascismo e vem

59:50

a constituição italiana, não é, à volta

59:51

dos partidos, aquela coisa da democracia

59:53

parlamentar e é a democracia cristã que

59:55

vai governar a Itália durante 50 anos,

59:57

40 anos.

59:59

Eh, uma das coisas que imediatamente se

60:01

faz é o código laboral.

60:03

Constituição e faz um código laboral e o

60:05

código laboral é feito por um homem, não

60:07

é ministro do trabalho, depois seria o

60:08

primeiro ministro também, uma grande

60:10

figura intelectual, um grande professor

60:12

eh de

60:14

do partido da democracia cristã chamado

60:16

Fafani. E esse código laboral é tão

60:20

crítico do socialismo como do

60:22

capitalismo. É como se o trcional da

60:25

igreja tivesse encontrado aquilo que

60:27

preguiçosamente podemos chamar uma

60:28

espécie de terceira via entre uma coisa

60:29

e outra e onde a proteção do trabalhador

60:32

era central. Agora era a proteção do

60:34

trabalhador e, por exemplo, os seus

60:35

interesses familiares, que o trabalhador

60:38

não é só trabalhador, é pai, é marido e,

60:40

portanto, tem que conciliar e coisas que

60:43

tornaram-se tornaram-se uma espécie de

60:46

eh chavões que esquerda e direita no

60:48

debate público diz agora até a propósito

60:50

da reforma do mercado liberal, tem a ver

60:51

a conciliência, a conciliação com a

60:53

família. Bem, essas preocupações eh

60:56

foram sobretudo da democracia cristão,

60:58

mais do que das outras orientações que

60:59

viam no trabalhador, um agente

61:01

revolucionário, eh o homem da formação

61:03

do valor económico. Era uma era

61:06

realmente uma perspectiva diferente. E

61:08

foi muito importante a democracia

61:09

cristã. Basta pensares que se tu olhares

61:11

para os grandes fundadores da da CEE na

61:14

altura, todos eles eram não eram só

61:16

cristãos, eram católicos devotos, o de

61:18

Gasper, o o Conrad Naurer, etc. eram

61:20

homens acreditavam nos milagres.

61:22

intervenção de Deus na terra. Sim,

61:23

acreditava em milagres. Portanto, não

61:24

eram não era só de Lucas chegam à missa,

61:28

eh, portanto, pessoas católicas.

61:32

O Espa, por exemplo, na Bélgica também

61:33

era também era um católico. Eh, e o de

61:38

Gol, que não era exatamente democracia

61:40

cristã, mas representava uma espécie de

61:42

conservadorismo, de inspiração cristã em

61:44

França à volta da figura dele, um homem

61:46

devoção católica impecável até morrer.

61:50

Portanto, há uma grande e influência

61:53

cristã da democracia cristã na formação

61:54

da Europa, tal como nós a conhecemos.

61:56

>> Sim. Era a cultura da Europa. Era essa,

61:58

não é? era a Europa, agora era era a

62:00

cultura europeia. Agora isso também

62:01

acabou. Acabou sobretudo porque, como

62:04

estavas a dizer há pouco, eh a

62:06

democracia cristã foi politicamente

62:08

eficaz e muita coisa, muitos dos seus

62:10

podres se foram perdoados eh por do

62:13

outro lado da barricada estar o

62:14

comunismo, sobretudo a Itália, mas não

62:16

só a Itália. Eh, a partir do momento que

62:17

o muro de Berlim caiu e nós vemos o

62:20

regime Itália cai logo a seguir com a

62:21

operação de mãos limpas do juíz e

62:23

partido democrática de existir. O

62:25

Partido Socialista Italiano, existe um

62:27

partido democrata hoje, mas já não é o

62:28

Partido Socialista Italiano de

62:29

Betinocrácia, a história da corrupção,

62:31

aquelas coisas todas. A democracia

62:33

cristã deixou de existir e faz sentido

62:36

até por esta razão. O continente europeu

62:39

descristianizou-se uma velocidade

62:40

alucinante a perder dos anos 80. E a

62:43

democracia cristã não é possível. Não é

62:45

possível sem eh crenças nos dogmas

62:49

cristãos, nem vou só dizer nos da Igreja

62:51

Católica, também tenho de a ver aí como

62:52

houve no passado. Na Alemanha, por

62:53

exemplo, a cooperação das igrejas

62:55

protestantes para a formação dessa

62:56

democracia cristã no partido da CDU, não

62:58

é?

63:00

Mas não é possível, não é possível

63:01

separar as convicções teológicas da

63:04

opção política da democracia cristã.

63:06

Como as primeiras caíram, a segunda

63:09

nunca mais vai voltar. Mas olha que eu

63:10

por acaso conheço uma pessoa, só não vou

63:12

dizer o nome porque não não se calhar

63:14

ela ela não essa pessoa não quer que eu

63:16

partilhe isto, mas que não é católico,

63:19

não é cristão, mas esteve muito

63:22

envolvido no CDS e até chegou a criar

63:24

uma lista dentro do CDS porque

63:27

identificava eh identificava algumas

63:30

destas coisas que estamos a falar,

63:31

identificava naqueles valores e naquela

63:33

forma de ver o mundo um equilíbrio que

63:36

ele acreditava que era a melhor solução

63:38

política para um país. Por isso se

63:39

calhar é possível mudando o nome mudando

63:42

o branding,

63:42

>> parece sempre pessoas, não? Tu podes

63:43

também encontrar pessoas que pensam

63:45

assim ou s que isto são partidos de

63:47

governação, nem sequer estou a pensar no

63:49

CDS. Partido da democracia cristou um

63:51

grande país como Ital durante 40 anos em

63:53

interrutamento a tomar grandes decisões,

63:55

política externa, política interna.

63:56

>> Portanto, isto não é uma questão de

63:57

haver uma pessoa ou duas que acham que

63:58

isso ainda é possível. Estou a falar de

64:01

uma filosofia política de governação e

64:04

ela estava alicerçada em valores

64:06

teológicos, não estava a ser alicerçada

64:08

apenas em proposições racionais, não

64:11

estava, é que não estava mesmo. A e

64:14

mesmo o CDS, vamos lá ver uma coisa, a

64:15

pessoa fundamental da fundação do CDS do

64:17

ponto de vista intelectual, nem sequer

64:18

fritas do Maral, mas Adelina Mar da

64:20

Costa. Adelina Costa era um católico

64:22

convicto, pio. Quer dizer, é Adelina Mar

64:25

da Costa, as suas convicções são

64:27

absolutamente inseparáveis das suas

64:29

crenças religiosas. Isso acabou, acabou.

64:32

Não existe no atual CDS.

64:34

>> Eh, e nem pode existir.

64:36

>> Sim,

64:36

>> muito menos para organizar uma sociedade

64:38

em torno desses princípios. Claro, sim,

64:40

já passou esse tempo, mas no fundo eu

64:42

acho que muitas pessoas e eu acho que a

64:45

maior parte das pessoas são assim,

64:46

porque lá está filhos de uma cultura

64:48

europeia h concordam com a ideia de de

64:53

cada ser humano ser digno, não é? os

64:55

direitos humanos vem um bocado aí, a

64:57

dignidade do ser humano, a importância

64:58

do contexto familiar, ou seja, os

65:01

valores da doutrina social da igreja são

65:04

praticamente os valores de uma pessoa

65:06

moderada contemporânea. Se tirares a os

65:09

pozinhos mágicos. Pronto, mas é que se

65:11

tu separares as ideias das suas raízes,

65:14

elas depois secam, como as plantas,

65:17

>> elas secam

65:18

>> e podem ser reapropriadas por outros,

65:20

mas com outras raízes. E então, a partir

65:23

dessa dessa altura, se tu fores examinar

65:24

bem, já não são exatamente as mesmas

65:25

ideias. A dignidade humana de que fala

65:28

do social da igreja não é a mesma que

65:30

fala um partido liberal ou um partido

65:32

social-democrata. Não é exatamente a

65:34

mesma coisa. Ser, ser criada à imagem

65:36

semença de Deus não é a mesma coisa que

65:37

dizer que todas as pessoas têm os mesmos

65:39

direitos.

65:40

Claro.

65:40

>> E que são merecedoras de respeito e

65:42

autoestima. Não é a mesma coisa.

65:44

Podes dizer: "Ah, não, mas do ponto de

65:46

vista dos tribunais e vai acabar por ser

65:48

Nunca é a mesma coisa. Tu cortas as

65:49

ideias da sua raiz, podes

65:52

transplantá-las para outro solo para

65:54

elas não secarem, morrerem." Sim. Sem a

65:56

mitologia morre. Sem a mitologia morre.

65:58

>> Não lhe chamos a mitologia porque muitas

65:59

pessoas disse é a verdade sobre as

66:00

coisas. A verdade sobre as coisas, não?

66:02

>> Sim. Há muitas mitologias no mundo.

66:05

>> Não esqueç mitos. Mitos é uma palavra

66:07

grega que vem de que significa uma

66:09

história, uma ficção. Não é totalmente

66:11

falsa, mas enfim, é uma ficção.

66:14

>> E apesar de tudo, para muita gente na

66:15

Europa, cada vez menos cristãos, mas por

66:17

exemplo cada vez mais muçulmanos, Deus e

66:20

a criação de Deus é a coisa mais

66:22

verdadeira que existe. Sim,

66:24

>> menos fictícia que existe. Eu uso

66:25

mitologia, como tu dizavas, o Joseph

66:27

Campbell, não sei se sabes quem,

66:29

escreveu o poder dos mitos, que é um

66:30

livro que eu costumo recomendar,

66:32

>> mas eh não é não é de forma é o oposto,

66:35

é os mitos são todos importantes. Ou

66:38

seja, não é não é dizer que

66:40

>> mas quando se diz que os mitos são

66:41

importantes, está-se a adotar uma uma

66:43

faz uma avaliação instrumental do mito

66:46

para um católico, para um muçulmano,

66:48

para um judeu. Estás a perceber?

66:50

>> Eh, Deus é o princípio e o fim das

66:53

coisas. Tudo o resto possas deir é menos

66:55

importante. É mesmo a prosperidade, os

66:59

sindicatos, a política, a liberdade é

67:01

menos importante do que Deus. Nós

67:03

perdemos esse horizonte porquê? Porque

67:04

nós nos descristianizamos. Mas era o que

67:06

eu estava a dizer, na população europeia

67:08

há uma parte cada vez maior para quem

67:10

isso é permanece a prioridade, que é a

67:13

população muçulmana, que pelo contrário,

67:15

ao contrário da da população cristã que

67:17

se vai abandonando as suas raízes,

67:18

população muçulmana por causa até revela

67:20

uma tendência contrária, que é

67:24

a segunda, terceira geração de

67:26

imigrantes de país de pessoas que vieram

67:28

nos anos 50, anos 60, a primeira

67:29

geração, chamemos assim, para França,

67:31

Bélgica, Inglaterra, dos países

67:33

muçulmanos, eram menos crentes

67:36

do que as segundas e terceiras gerações.

67:38

Há um fenómeno de re a segunda e

67:42

terceira de quem de país.

67:44

>> Vamos ver os paquistanes que foram para

67:46

a Inglaterra, os argelinos e marroquinos

67:48

que foram para França.

67:50

essa primeira geração era eram menos

67:51

religiosos,

67:52

>> até porque é uma transformação religiosa

67:54

que ocorre no mundo, enfim, no mundo não

67:56

é os paquistanos não são árabes, nem os

67:58

iranos são árabes, mas nem os turcos,

68:00

mas enfim, de todo o mundo muçulmano nas

68:02

na vizinhança da Europa, há uma grande

68:05

reenergização da religiosidade dessas

68:08

sociedades a partir dos anos 70, anos

68:09

80. Portanto, a primeira geração vem de

68:13

sociedades eh muçulmanas muito menos

68:15

religiosas e, portanto, chegam aos seus

68:17

países de acolhimento com crenças muito

68:20

menos inflexíveis. E depois o que

68:22

aconteceu dentro da Europa, em resultado

68:25

das circunstâncias das pessoas viverem

68:26

aqui dentro, mas também do que estava a

68:28

acontecer nos seus países de origem, dos

68:30

seus pais, dos seus avós, eh

68:33

o ressurgimento da devolução religiosa é

68:36

muito mais intenso nas segundas e nas

68:38

terceiras gerações, quartas. A primeira

68:40

vez, a primeira vez que disseste a

68:42

frase, acho que diseste menor. Por isso

68:43

é que

68:44

>> ah, então enganamos. Portanto, agora são

68:45

mais religiosos, filhos netos eetos.

68:48

>> Segunda e terceira. Sim. A, e também dos

68:50

novos imigrantes que vêm dessas

68:51

sociedades e, e, e contraste, as

68:54

populações que tinham sido

68:55

cristinizadas, os nossos avós, os nossos

68:57

bisavós, foram abandonando em

69:00

larguíssima escala e a uma velocidade

69:02

surpreendente.

69:04

Eh, portanto, o fenómeno de

69:05

secularização que tinha sido

69:06

profetizado, que ia acontecer na Europa,

69:08

ele ocorreu de facto, mas muito mais

69:11

rapidamente do que se tinha suposto.

69:14

Isso é uma grande transformação para

69:15

nós.

69:15

>> Espetáculo. Famos uma hora de

69:17

conservadorismo

69:19

>> e dava falamos muitas mais.

69:21

>> Pois dava. hh mas quero falar um

69:23

bocadinho sobre o período de Passos

69:24

Coelho.

69:26

foste assessor do Pedro Passo Coelho

69:29

2011 a 2015 e queria-te perguntar se há

69:33

decisões que foram tomadas nesse período

69:36

que agora com não é com esta capacidade

69:39

milagrosa de olhar para trás e ver o que

69:40

aconteceu depois eh sintas que

69:45

sintas que se criou um sofrimento

69:47

desnecessário às pessoas ou um

69:49

sofrimento, uma dificuldade que depois

69:51

não compensou o os resultados

69:53

económicos. Não, não é uma questão de

69:54

sofrimento. Houve muitas decisões

69:55

tomadas que foram erradas

69:58

e não foi em retrospectiva passado 10 ou

69:59

15 anos. Algumas

70:03

estavam erradas e para mim eram claras

70:05

naquela altura, mas não vou dizer quais

70:08

eram.

70:09

>> Mas mas e consegues dar exemplo de

70:11

algumas medidas que que na altura

70:14

provávas, mas que agora vês que causam.

70:16

>> Não vou dar nenhum exemplo. Nunca dei

70:17

nas entrevistas.

70:19

>> Porquê?

70:21

>> Eh, chama-se isso, não é? nos na relação

70:23

entre o médico e o doente e o psiquiatra

70:27

e o doente, há uma espécie de advogado,

70:29

cliente, sigilo profissional. Isso é uma

70:32

coisa que fica entre mim e a pessoa para

70:34

quem eu trabalhei.

70:35

>> Por isso,

70:38

eh, eu sei o que é que ele pensou sobre

70:39

essas coisas, ele sabe o que é que eu

70:40

pensei sobre essas coisas e para mim

70:42

mais ninguém tem nada a ver com isso.

70:43

Não fui eu que tomei as decisões,

70:44

portanto eu não tenho deveres de

70:46

explicação. Ai, a medida X, não, eu não

70:49

vou dizer o que é que é. sei

70:50

perfeitamente o que é que foi. Disse na

70:52

altura o que tinha a dizer.

70:55

Algumas coisas era eu que estava

70:55

enganado, noutras acho que eu estava

70:57

certo, mas noutras também eu estava

70:59

enganado. Ah, mas não vou dizer o que é

71:02

que foram.

71:03

>> Qual?

71:03

>> Porque isso isso abria aqui eh pontos de

71:07

controvérsia para pessoas para quem eu

71:09

que eu não considero não dou essa sequer

71:11

essa dizer essa abébia. Não.

71:13

>> Tudo bem. Qual era a sensação de estar a

71:16

tomar decisões que potencialmente iam

71:18

iam criar mais dificuldades às pessoas,

71:22

como tirar o 13º mês, tirar o 14º mês?

71:24

>> É a experiência, a experiência de

71:26

governar e

71:29

um país em circunstâncias

71:31

extraordinariamente difíceis eh

71:36

carrega aos ombros do decisor uma

71:39

responsabilidade sombria, porque a

71:41

escolha não é entre o bem e o mal. Isso

71:43

é muito fácil. eram também o mal, mas

71:45

entre aquilo que é mau e aquilo que é

71:47

detestável.

71:48

Eh, portanto, tem que se haver uma

71:49

ponderação dos males. Isso tem que ser

71:52

feito, bem, desde logo, com uma grande

71:53

dose de coragem, com uma grande dose de

71:59

regramento do caminho que se quer

72:01

percorrer. Acho que foi muito importante

72:02

isso. Naqueles anos, houve uma pessoa

72:05

que percebeu exatamente qual era o

72:07

caminho que o país tinha que percorrer,

72:09

eh, que se chamava Pedro Passos Coelho.

72:11

Ele viu esse caminho com mais clareza do

72:12

qualquer outra pessoa, inclusivamente

72:13

membros do seu próprio governo. Isso eu

72:15

testemunhai. Já nem vou falar de

72:17

jornalistas, comentadores e oposição,

72:18

que eles estavam completamente às

72:19

aranhas e até o presidente da República

72:22

da altura. Eh, e ele sabia qual era o

72:25

caminho que tinha que se fazer, por

72:26

difícil que fosse o caminho, e que era

72:28

importante concluir esse caminho. E ele

72:30

foi a pessoa em 10 milhões de pessoas

72:33

que viu isso com clareza e assumiu essa

72:35

responsabilidade sombria pela qual ele

72:37

não ficou à espera de agradecimentos nem

72:38

de reconhecimento,

72:41

mas que define as pessoas que eh que os

72:46

políticos que ao assumir essa essa

72:49

responsabilidade

72:51

eh adquirem

72:54

uma espécie de grandeza interior que

72:56

este dos outros. Claro que eu não vou

72:59

falar sequer de comparar com

73:00

circunstâncias ainda mais difíceis que o

73:02

nosso país também já atravessou, mas de

73:05

outros países em situações de guerras

73:06

civis, coisas inacreditáveis, eu não

73:08

quero estar na pele de ninguém muito,

73:10

nem sequer de conselheiro de uma pessoa

73:11

que tem tomar decisões mais drásticas

73:14

que bem enfim, não faço a mínima ideia o

73:16

que é que o stresse, o nível de pressão,

73:19

de desgaste interior de todos eles, os

73:21

lens e as pessoas trabalham com ele.

73:23

Portanto, apesar de tudo, nós temos que

73:24

relativizar a nossa situação. Foi na

73:26

altura nos momentos mais duros para o

73:28

povo português, mas também para nós

73:30

estamos a tomar decisões e que também

73:31

fazíamos parte do povo português. Havia

73:33

uma espécie de comparação que eu fazia

73:35

sempre interiormente. Eh, eu acompanhava

73:38

a situação grega todos os dias, todos os

73:39

dias. E falava com malta na Grécia para

73:42

saber como é que as coisas estavam a

73:43

acontecer. Tivemos muitos contactos

73:45

sempre com os os governantes gregos da

73:46

altura. Hum.

73:48

>> Isto em que ano mais ou menos? 2012.

73:49

>> Entre 2011 e 2013 14. eh, fazia sempre

73:54

isso. Depois a partir de 2015 foi aquilo

73:56

a Grécia foi para o Criiza. Sim.

73:58

>> E aquilo já não era preciso acompanhar

73:59

nada. Nós já tínhamos tido o problema de

74:00

assistência, mas enfim, aquilo a Grécia

74:03

que depois era uma questão de tempo até

74:04

ter que haver um terceiro resgate como

74:05

aquele como aquele desastre todo que

74:06

aconteceu. Mas eu dizer,

74:08

>> o que é que aprendiam? Que informação

74:10

era partilhada nessas conversas com a

74:11

Grécia? Eh, até 2012 havia uma

74:15

particularidade

74:17

má para nós, entre 2010,

74:20

entre maio de 2010, portanto, ainda com

74:22

o governo de Sócrates e,

74:25

eh, início de 2013,

74:28

a Grécia mostrava a Portugal o que é que

74:30

acontecia a Portugal seis meses à

74:32

frente.

74:33

>> Que sorte para nós. Tínhamos essa, não

74:35

é?

74:36

>> É sorte quando a gente pode evitar o que

74:37

nos vai acontecer, não é?

74:39

>> Pois.

74:40

Portanto, aquilo servia de sinalização.

74:42

Aprendemos com alguns erros que eles

74:44

cometeram.

74:46

Eh, a Europa toda aprendeu com alguns

74:48

erros da Grécia ter sido a primeira a

74:49

fazer o programa de assistência.

74:50

Portanto, no tratamento que depois deu a

74:51

Portugal e a e outros países, como a

74:53

Chipre, como a Espanha, teve um programa

74:55

diferente, como a Irlanda.

74:56

H,

74:58

mas havia um acompanhamento do meu lado.

75:01

Eh, parte orçamental era óbvio, do

75:04

cumprimento do do

75:07

morando entendimento grego, mas havia

75:08

também para mim um interesse saber o que

75:10

é que estava a acontecer politicamente

75:11

na sociedade grega. E por isso eu

75:14

acompanhei ali e o aparecimento de novos

75:16

partidos, ao desaparecimento de partidos

75:18

clássicos, eh, e aos dilemas de de

75:21

governação que eles enfrentavam. H, e

75:24

foi uma grande aprendizagem, mas como o

75:26

que a Grécia sofreu foi

75:28

incomparavelmente mais duro do que

75:30

Portugal sofreu,

75:32

acabou por haver essa recompensa

75:34

interior também, claro. E que depois

75:35

também nós fizemos na campanha eleitoral

75:37

uma bandeira que o governo Pedro Pass

75:40

Escoo poupou a Portugal o que a Grécia

75:42

sofreu e o que a Grécia sofreu é

75:44

incomparável com o que Portugal sofreu a

75:46

todos os níveis. A todos os níveis. Até

75:48

naquele, até daquilo que se discuta

75:49

hoje, Grécia teve a aparecer logo a meio

75:52

da crise um partido que era nazi.

75:53

Atenção, não é como agora se diz

75:55

qualquer coisa que a gente não gosta de

75:55

extrema direita. Não, não, não, não,

75:56

não. A Aurora Dourada era um partido

75:58

nazi

76:00

sem podor. Eu não estou a dizer isto, eu

76:03

detesto utilizar-se essas designações

76:05

extrema direita para qualquer coisa que

76:06

a gente não gosta. Que eu estou fazer.

76:07

Aora dourada, Aurora Dourada era um

76:10

partido nazi e apareceu, tinha um grupo

76:11

parlamentar grande constituído. Alguns

76:15

tipos eram criminosos, pá. eram

76:16

criminosos. Eh, portanto, eu vi o

76:19

colapso da sociedade grega, do sistema

76:21

político grego e, enfim, tivemos que

76:23

aprender eleições para garantir que isso

76:25

não acontecia em Portugal. E os

76:26

portugueses foram todos poupados a isso.

76:28

Isso é uma coisa importante, não é? que

76:30

tínhamos conseguido fazer de Portugal um

76:32

país fabuloso, riquíssimo, não foi nada

76:34

disso, mas naquelas circunstâncias o que

76:36

estava em jogo era entre uma coisa má e

76:38

uma coisa ainda pior.

76:41

>> Eu acredito que teria havido crise

76:43

financeira sem Sócrates, teria havido eh

76:47

austeridade sem Pedro Passos Coelho.

76:49

>> É, já tinha havido austeridade começou

76:51

com Sócrates.

76:51

>> Sim, foi Sócrates que assinou, não é? O

76:53

foi memorando de de vários partidos.

76:55

Isso. Repara uma coisa, mora em Portugal

76:57

é muito curtinha. O orçamento para 2011

77:01

feito pelo governo de Sócrates.

77:03

>> Sim. Sim.

77:03

>> E que o governo Pedro Pescoelho executou

77:05

em 2011. Nós executamos isso quando

77:07

chegamos ao poder em junho, executamos o

77:08

orçamento do Sócrates. Foi feito pelo

77:10

Sócrates. Não havia troica, não havia

77:13

troica nenhuma, eram os PS. E aí há

77:15

corte de pensões e corte de salários.

77:17

>> Patro, não era?

77:18

>> Não, isso é depois. Isso é o que cai em

77:20

abril. Mas aquilo que está refletido no

77:22

orçamento para 2011, os cor os primeiros

77:24

cortes para austeridade,

77:26

eh, é muito antes da troica. Portanto,

77:30

austriado começou com com Sócrates e

77:32

depois, claro, a negociação do memorando

77:35

de entendimento e que daria depois lugar

77:38

ao programa de assistência com as metas

77:42

orçamentais,

77:44

eh, as privatizações,

77:46

os cortes, essas coisas todas foram

77:48

negociadas exclusivamente pelo governo

77:50

de Sócrates. Portanto, sobre isso não há

77:52

dúvida nenhuma.

77:53

Sim, mas no fundo o que eu estava a

77:54

dizer é um bocado em linha com o que

77:56

estavas a dizer de a Grécia permitia-nos

77:58

ver o que nos ia acontecer mais do que

78:01

às vezes evitar.

78:02

>> Mas a partir de 2003 isso descolou.

78:04

Porquê? Porque contra todas as

78:06

expectativas, basta tu ler a imprensa na

78:08

altura. Eh, e eu até podia contar a

78:10

história, mas era uma história um bocado

78:11

longa de como eh eu vi aquilos primeiros

78:15

números que me chegaram às mãos. o

78:17

crescimento económico em Portugal em

78:19

2013, nós tínhamos tido um segundo, um

78:22

último trimestre de 2012 muito mal em

78:24

termos de crescimento económico de

78:25

subida do emprego. Então as pessoas

78:27

estavam é pá, isto 2013 até o presidente

78:28

da república disse 2013 vai ser uma

78:30

desgraça, uma desgraça. Na verdade, o

78:32

crescimento económico chegou a Portugal

78:34

logo no início de 2013 e nós viramos a

78:36

coisa e a partir daí foi tudo mais

78:38

fácil, não é? Eh, a Grécia, felizmente

78:40

não. A Grécia tem um momento de inflexão

78:43

em 2014,

78:45

um ano e meio depois, no verão, mas o

78:48

governo eh de do Samaras, governo da

78:52

nova democracia, não tinha maioria

78:54

absoluta no parlamento.

78:56

E a o governo Samaras fez uma coisa, uma

79:00

aposta política que na Grécia há a o

79:04

presidente é eleito pelo parlamento, não

79:06

é como cá.

79:08

E, portanto, eh, se há um presidente que

79:11

falha do partido dominante, aquilo cai.

79:13

O o o parlamento tem que haver eleições

79:16

novas e haver eleição do presidente no

79:19

final de 2014. Toda a gente sabia, não

79:22

havia a maioria absoluta, enfim, mandar

79:23

aquilo abaixo.

79:25

E, portanto, sabia-se que se ia haver

79:27

eleições final de 2014 ou princípio de

79:29

2015. E o governo de Samaras na altura,

79:31

o Samaras era o nome do do

79:33

primeiro-ministro e da nova democracia,

79:36

ele diz eh eu vou negociar com os

79:39

alemães que acabo o morando o programa

79:43

de assistência um ano mais cedo do que

79:44

tá previsto. Essa ia ser a bandeira dele

79:46

da campanha eleitoral. Portanto, isto

79:48

vai abaixo, estamos nas lonas, mas isto

79:50

está a virar. Houve crescimento pela

79:52

primeira vez desde há 3 anos e nós não

79:54

vamos prolongar isto indefinidamente. A

79:56

gente vai encortar isto um ano.

79:57

>> Cortar o sofrimento.

79:59

>> Exato. Sair sair da troica, não é? Sair

80:00

da troica que era simbolicamente também

80:02

uma coisa muito em Portugal e na Grécia

80:04

ainda mais.

80:05

>> Certo?

80:06

E os alemães tiraram-lhe o tapete. E por

80:09

isso são coisas que eu não me esqueço do

80:11

que

80:13

decisões

80:16

que a Merkel tomou

80:18

estúpidas que deram o poder na Grécia ao

80:22

Criiza com o desastre que aconteceu logo

80:23

a seguir, agravou ainda mais a citação

80:25

grega com problema de assistência até

80:27

2017, eh com o sofrimento que isso tudo

80:30

acarretou, porque não houve a grandeza

80:33

política para perceber que era preciso

80:35

salvar aquela situação, permitindo ao

80:36

primeiro-ministro dizer assim: "Olha, eu

80:38

já tenho o assentimento dos nossos

80:39

aliados. Esta portaria um ano mais cedo

80:40

a gente acaba isto e não deixaram que

80:42

ele fosse para a campo eleitoral com

80:43

essa bandeira e perdeu. Houve muitas

80:46

coisas destas, muitos episódios destes.

80:47

Foi, foram anos muito intensos

80:51

>> aqui na Europa toda, em Portugal também,

80:53

mas na Europa toda. Eh, e eu tive, por

80:56

um lado, a sorte e o privilégio de poder

80:58

acompanhar isso tudo até a frente

81:00

externa, que foi muito interessante.

81:01

muitas coisas que aconteceram,

81:03

transformações sociais eh começaram a

81:06

ser postas em marcha na sociedade

81:07

americana também nos anos Obama, mas eh

81:10

na Europa também os problemas franceses,

81:12

ingleses começam todos nessa altura, os

81:15

problemas que estamos a viver agora.

81:16

>> Uhum.

81:16

>> Eh, portanto, isso começou tudo a

81:18

desenvolver-se uma velocidade muito

81:19

muito rápida.

81:21

>> Eh, nesse aspecto sem tirar sem tirar

81:23

mérito onde ele é devido, nem culpa onde

81:26

as coisas possam ter sido mal feitas. H,

81:29

e corrija-me se eu estiver errado.

81:31

>> O que eu sinto é que, lá está, estes

81:33

fenómenos, Portugal é um um aquáriozinho

81:35

com dois peixes e estes fenómenos

81:38

globais de crise são oceanos, não é?

81:40

>> Uhum.

81:41

>> E que então todas estas coisas, lá está,

81:43

a crise, a austeridade, a recuperação,

81:46

acontecem quase apesar do que está a

81:48

acontecer dentro do pequeno aquário.

81:50

Percebes? É umaão, são nós temos o mundo

81:54

tá tão globalizado e e estamos tão

81:57

expostos a coisas muito maiores do que

81:59

nós que

82:00

>> não, mas não, mas espera lá, mas espera

82:01

lá, mas há aqui uma grande diferença que

82:03

é com a crise financeira eh nós íamos

82:06

sempre sofrer um impacto, mas não

82:08

precisamos ter sofrido aquele impacto.

82:09

Isso é que é a grande diferença. A

82:11

questão não é saber se ah eh teríamos

82:14

estado aqui a crescer a galope, não.

82:16

Isso estava fora de causa. Só que tu não

82:18

te esqueces o que é que tinha acontecido

82:20

até 2010, 10 anos de estagnação,

82:24

alastramento da corrupção, a degradação

82:26

da administração pública pelos partidos

82:28

políticos, nomeadamente pelo Partido

82:29

Socialista e uma estratégia financeira

82:31

que foi absolutamente ruinosa para o

82:33

país. Eh, tu és muito novinho, mas olha

82:36

que eu lembro-me de Sócrates dizer em

82:38

2009, 2008, 2009, dizer que Portugal era

82:40

o país que ia melhor resistir à crise

82:41

financeira. Depois no mundo éramos os

82:44

maiores. E porquê? Podíamos gastar a ti

82:46

para forra.

82:47

Sim, eu sou mais velho do que pareça, eu

82:49

lembro-me.

82:50

>> Pronto, mas isso foi isso foi isso foi

82:51

um desastre e nós não precisamos estar

82:53

aqui. O endividamento da banca, eh, o

82:55

fechamento da economia portuguesa, que

82:57

parece hoje

82:59

arqueológica, o fechamento da economia

83:01

portuguesa ao exterior. Nós temos um

83:02

nível de exportações baixíssimo. Porquê?

83:05

Porque nós andamos a alimentar os

83:07

setores não travacionáveis da economia

83:09

de exploração de rendas, com a ajuda do

83:11

Estado, com a conivência de partidos

83:13

políticos e de grupos económicos. Isso

83:15

tornou a economia portuguesa ultra

83:16

vulnerável. O factos que nos ajustar a

83:20

isso. Nós e os gregos, atenção, os

83:21

gregos também tinham as suas patologias,

83:22

por isso é que também tiveram esta

83:23

queda. Por alguma razão fomos nós e os

83:25

gregos, não foram os outros. Mesmo a

83:27

Irlanda, a Irlanda recuperou muito

83:28

rapidamente da crise, muito rapidamente.

83:30

A economia não era a mesma do que a de

83:32

Portugal e da Grécia. E Portugal e a

83:34

Grécia fizeram grandes progressos. Ah,

83:35

sim. Um dos grandes progressos, qual

83:37

foi? Olha, foi ter gerado um consenso de

83:41

que acumular dívida pública não é bom.

83:44

Em 2008, 9, 10 e 11 não era essa

83:46

conversa.

83:49

Individamente era necessário e depois

83:51

não se paga já pr aumentava divid

83:54

nenhum. Os déficits são ótimos porque o

83:56

resto era obsessão com o défice como

83:58

disse o presidente Jorge Sampaio com o

84:00

défic

84:04

e PSD pelo menos o PS aí veio a jogo. Aí

84:06

foi o PS a ter que ir a jogo com o PSD.

84:07

PS tinha outras ideias. As pessoas que

84:10

foram ministros do de António Costa e o

84:11

próprio António Costa criam a

84:12

reestruturação da dívida. Tinha sido um

84:14

desastre para nós. Sendo um desastre.

84:16

Portanto, não é bem assim. Nós tivemos

84:17

que nos ajustar e agora felizmente

84:21

estamos não tão bem preparados como eu

84:23

gostaria, mas estamos mais bem

84:24

preparados do que o grau de

84:26

vulnerabilidade a que o país putos

84:29

lamento imenso, mas foram os o partido

84:30

socialista que tinha governado a maior

84:31

parte do tempo. Essa vulnerabilidade nas

84:34

instituições, na economia Portugal era

84:37

uma das economias mais endivid setor

84:38

privado, português era dos mais

84:40

endividados no mundo em percentagem do

84:41

PIB. O endividamento do setor privado

84:44

era maior do que na Grécia. A Grécia um

84:46

endevidamento público maior, mas o nosso

84:47

setor privado era maior aqui do que na

84:49

Grécia. E, portanto, não houve nenhum

84:52

cuidado com isso. O o então governador

84:54

do Banco de Portugal até 2010, um homem

84:57

do PS, Vítor Constâncio, disse que não

84:59

fazia mal nenhum os défices astronómicos

85:01

da balança corrente que nós estávamos a

85:02

acumular. Que todo, quer dizer, as

85:04

pessoas, os observadores empresários

85:05

diam isto, isto déficade de corrente ano

85:09

após ano, mais do que 10% do PIB, isto

85:11

vai ser um desastre. E ele diz assim,

85:13

não, não é única é uma entrevista

85:15

famosa. Ele diz assim, não é só não tem

85:18

relevância. Isto era um governador do

85:19

Banco de Portugal. Se não tem relevância

85:21

nenhuma. Agora com moeda única, isso já

85:23

não interessa. Veja bem, isto é palavras

85:25

dele, dizê-lo ao jornalista, eh, alguém

85:29

quer saber da do défice da balança

85:31

corrente do Mississippio, do estado do

85:33

Mississippi? Então aqui a Portugal

85:34

também não interessa. Portanto, a

85:36

inconsciência, obsessões ideológicas, a

85:39

corrupção e o abuso de poder que houve

85:40

naquela altura. tornaram as

85:43

instituições, a economia e a sociedade

85:46

portuguesa muito vulneráveis a qualquer

85:48

coisa que viesse de fora. Desculpa lá,

85:50

eu acho que eu tenho ideia que isso não

85:51

era só Portugal. Havia uma cultura

85:53

macroeconómica nessa altura

85:56

desse desse tipo, de que a dívida que a

86:00

dívida não era uma coisa tão

86:01

preocupante, que a dívida era uma coisa

86:02

para gerir e que e que ia aumentando.

86:04

>> Não, isso não é verdade. Isso era uma

86:05

coisa que havia por conveniência das

86:07

elites em Portugal e na Grécia. O resto

86:09

das o resto dos países tinham défices e

86:12

dívidas públicas muito mais controladas

86:13

do que a nossa. Não havia comparação. E

86:15

depois eu estava a falar agora não era

86:16

só da dívida pública. Estou-te a dizer

86:18

os privados.

86:19

>> Portugal tinha uma vulnerabilidade

86:20

especial, até mais grave do que a

86:22

Grécia,

86:23

>> que era a dívida externa. Estás a ver?

86:26

Não só a dívida pública, não divida, a

86:27

dívida externa.

86:28

>> É isso que a perguntar. Por ser externa,

86:30

tens menos capacidade de resgatar e de

86:32

resolver?

86:34

faz faz da maneira que aconteceu, que é

86:36

>> aquilo que a economia se chama um sudden

86:39

stop. Portanto, se tu tens a economia

86:41

ultra endividada como nós tínhamos mais

86:43

do que a Grécia, significa que ela só

86:45

consegue continuar a funcionar se

86:46

tiverem sempre a financiar a tua dívida.

86:48

O estrangeiro, porque tu não tens

86:49

capitais cá. Só se o estiro titivessem a

86:52

financiar. Quando o estrangeiro assim,

86:53

para lá, estes gajos já não conseguem

86:54

pagar isto. Isto são níveis de dívida

86:56

dívida loucos para

86:58

>> perdes acesso aos mercados. Certo,

87:00

certo. Foi por isso que Itália, foi por

87:03

isso que Itália conseguiu recuperar mais

87:05

rápido, porque a dívida era, tinha uma

87:07

percentagem maior dívida interna a

87:08

bancos italianos.

87:09

>> Não, a história de Itália, a história de

87:11

Itália é diferente. A história de

87:12

Itália, também é uma coisa que se

87:13

aprende, que aprendi naqueles anos, logo

87:15

no início. História de Itália é

87:16

diferente. Eh, ao contrário do que se

87:19

julga, nós recuperamos muito mais

87:21

depressa do que a Itália. Portugal teve

87:23

uma recuperação económica muito melhor

87:24

que a Itália, incomparavelmente melhor.

87:27

Eh, foi um dos grandes trunfos. Porque é

87:29

que a Itália não teve um programa de

87:30

ajustamento?

87:32

Eh, porque eh por duas razões. Em

87:36

primeiro lugar, não havia dinheiro para

87:38

para fazer um programa de ajustamento à

87:39

Itália. Portugal e a Grécia eram

87:40

pequeninos e a Irlanda, não é? A Itália

87:42

não havia. A Itália não havia. Depois o

87:45

choque em Itália ficar depende da da

87:49

Alemanha sem governo. A Itália não era

87:51

capaz de formar governos. Eram tudo

87:53

primeiros ministros que eram nomeados

87:55

sem apoio parlamentar.

87:57

O Mário Monte é logo o primeiro. Eh, se

88:00

ia ser o colapso, portanto, estava toda

88:01

a gente cheio de medo fazer uma proposta

88:03

como fizemos, como tinham feito a

88:04

Portugal e a Grécia e a Irlanda. E

88:06

depois, finalmente,

88:08

eh,

88:11

a Itália

88:14

quando em 2012, que é o ano fatídico, o

88:16

ano pior daquilo tudo, eh, quando a

88:19

Itália parece estar

88:22

a ir às cordas,

88:24

é aí que um italiano diz: "Bem, eu vou

88:26

fazer qualquer coisa em combinação aqui

88:28

com os agentes políticos para dizer que

88:30

isto, o euro vai ser salvo, custo que

88:32

custar".

88:34

Portanto, a ação do Banco Central

88:35

Europeu tinha teve em mente salvaguardar

88:39

um país da União Europeia que foi a

88:40

Itália. Itália foi sempre a grande dor

88:42

de cabeça. O que é que nós vamos fazer

88:44

cair a Itália? Mas agora nós temos um

88:46

problema italiano

88:49

reavivado, só que já não é Itália

88:50

protagonista, mas a França, como a

88:52

França está sem liderança política e com

88:55

o descontrole das suas finanças públicas

88:57

e numa situação de grande fratura

88:58

social, o que é que acontece se a França

89:01

tiver problemas sérios no seu mercado

89:03

obrigacionista?

89:04

A França não tem um problema de

89:05

endividamento externo como nós tínhamos

89:08

e como os gregos tinham, mas tem um

89:10

problema muito sério de finanças

89:10

públicas e de e de paralisia do sistema

89:13

político.

89:14

Não há dinheiro para socorrer a França.

89:16

Quer dizer, se acontecer alguma coisa à

89:17

França, nós estamos num grande seringo.

89:18

E lá está, se acontecer alguma coisa à

89:20

França, Portugal vai sofrer. Portugal

89:22

vai sofrer. Claro que vai sofrer. A

89:24

questão é saber se nós estamos hiper

89:27

vulneráveis como estávamos em 2010 para

89:29

irmos ao fundo ou sofrendo remediados

89:33

sobrevivermos sem ao seu externo. Essa

89:34

que é a grande diferença.

89:36

>> Teria o mesmo impacto que uma crise que

89:38

começa nos Estados Unidos? Uma crise

89:40

desse tipo em França.

89:42

>> Se houvesse uma rotura das finanças

89:44

públicas em França, isso comprometia o

89:46

próprio projeto europeu. Para nós seria

89:47

muito mais grave do que uma crise

89:49

financeira nos Estados Unidos.

89:50

>> Claro, claro. Sim. Porque uma grande

89:52

parte a âncora que mantém as nossas

89:55

instituições com uma conduta

90:00

minimamente aceitável com uma economia

90:02

respeitável como a nossa, essa âncora é

90:06

âncora europeia. Portugal deve ter tem

90:08

uma espécie de dívida de credibilidade

90:10

das suas instituições e do funcionamento

90:12

da sua sociedade por pertencer à União

90:14

Europeia. Se houvesse uma crise muito

90:16

grave em França que pusesse em causa o

90:18

projeto europeu, eh os países mais

90:21

dependentes dessa ancora europeia seriam

90:23

iam sofrer mais, como é evidente, e

90:26

Portugal sofreria bastante. Nós estamos

90:29

umbilicalmente ligados à União Europeia

90:31

e ao sucesso da União Europeia.

90:33

>> Sim, sim. Somos muito dependentes.

90:35

>> Claro. Em 2011 e 2012, qual foi o a a

90:38

grande causa de nós termos rachado

90:40

tanto?

90:41

Porque se considerou que

90:46

talvez Portugal tivesse que sair do euro

90:49

como a Grécia, quando se falava para a

90:50

Grécia. Se se fala para a Grécia, será

90:52

que não se vai pôr o caso a Portugal? E

90:54

a partir do momento em que houve dúvidas

90:55

em 2011, 2012, acabou em 2011, 2012,

90:58

hum, será que eles vão continuar? Essa

91:02

dúvida era suficiente para o mundo

91:04

inteiro passar a ver o nosso país com

91:06

outros olhos.

91:08

Se acontecesse uma crise em França que

91:10

se tornasse existencial para a Europa,

91:12

claro que o mundo inteiro iria olhar

91:13

para Portugal com com outros olhos.

91:15

Afinal de contas, para lá.

91:16

>> Sim, sim.

91:17

>> O euro tá quase a acabar. O que é que

91:18

vai acontecer esta moedos? Sim, sim.

91:20

>> O estado de direito em Portugal, eh, a

91:23

viabilidade do sistema democrático em

91:25

Portugal,

91:27

a grande razão, a razão inicial para nós

91:29

querermos pertencer à CE era para

91:30

ancorar a nossa democracia quando isto

91:32

ainda estava termidar à revolução. Isso

91:34

era muito evidente para Mário Soares,

91:37

por exemplo, no Partido Socialista. A

91:38

razão de que Soares doismo de Soares era

91:42

porque só a Europa podia amarrar,

91:43

ancorar a democracia portuguesa. Sem

91:45

isso, nós íamos para as derivas

91:46

comunistas na altura, não é? diarias

91:49

comunistas e totalitários ou terceiro

91:50

mundistas, como também é o sonho de

91:52

fazer aqui uma espécie de regime

91:53

terceiro mundista.

91:55

Eh, precisamos da âncora europeia e nós

91:57

conseguimos e a partir desse momento

91:59

tivemos grandes benefícios. Nem tudo

92:00

correu bem, mas tivemos grandes

92:01

benefícios

92:03

e um dos benefícios são imateriais, não

92:05

é só o crescimento económico e se temos

92:06

subsídios como agora para socorrer as

92:09

populações ou para gastar no PRR, que é

92:11

dinheiro que nunca mais acaba. Não é só

92:13

isso, o funcionamento das nossas

92:15

instituições,

92:16

ou seja, nós não deterioramos mais as

92:18

nossas instituições porque contas e

92:20

estamos a vigilância, queremos ser

92:22

europeus como os outros, é diferente do

92:24

que estarmos sozinhos.

92:25

>> Sim, sim. Bem, estamos a chegar aqui à

92:27

hora. Eh, tu és religioso ou tens alguma

92:30

prática espiritual? Eu

92:33

vou dizer o seguinte,

92:36

eu fui religioso, mas já não sou

92:40

cristão, católico.

92:41

>> Católico, sim.

92:43

>> OK.

92:43

>> Já não sou há muito tempo.

92:46

>> E mas hoje em dia és um panteísta? És um

92:49

cristão, não praticante?

92:52

>> Não. Eh,

92:53

>> agnóstico.

92:54

>> Eh,

92:57

é uma

92:58

>> reveste na doutrina social da igreja.

92:59

Uma conversa. Não, por acaso eu até em

93:01

algumas coisas sou crítico inicial da

93:03

igreja, mas

93:05

>> eu acho que era outra conversa essa,

93:08

porque é um assunto de outro plano. H,

93:13

são interpelações e diferentes e que

93:17

tocam

93:19

noutros cantos da nossa alma, apesar de

93:21

todo. Por isso, a minha resposta é: fui

93:25

eh filho da Igreja Católica no famoso

93:28

conto do Chesterton. Há aquela imagem de

93:32

do peixe que morde o anzol, não é? E

93:34

portanto é o anzol com uma linha muito

93:36

longa. O peixe morde do anzol e anda

93:38

pelos oceanos todos por quatro coisas do

93:39

mundo, mas está ali amarrado ainda.

93:40

Portanto, a igreja vai sempre lá pescar

93:42

o peixe, por mais afastado que ele

93:43

esteja. Isso é o Chesterton, um grande

93:45

homem, um homem santo, um homem

93:48

verdadeiramente santo. Eh, o JK Gilbert

93:52

Keith Chesterton, um grande escritor do,

93:55

enfim, no início do século XX, eh, que

93:57

se converteu ao catolicismo e se tornou

93:59

um dos seus grandes,

94:01

eh, um dos seus grandes arutos. E eu não

94:05

sei se se a história do Anzó e da Linha

94:09

valem para mim,

94:12

mas

94:14

do ponto de vista

94:16

da da vivência religiosa, sim,

94:19

afastando.

94:20

>> Tens temos aqui só uma pergunta de

94:22

mecenas. hh vou tentar reformular isto

94:25

porque tá um bocado agressivo.

94:27

Eh, não quero ser rude, mas sentes há

94:31

muita gente que diz que eu sou rude, por

94:32

isso podes

94:33

>> não, mas é um bocado sobre isso. É, hh,

94:35

sentes que poderás estar a contribuir

94:37

para a polarização hh na forma como

94:40

intervens na televisão e na forma como

94:43

fazes reels para as redes sociais?

94:45

>> Porquê?

94:47

Porque é que eu estaria a contribuir com

94:48

ação? por estares a maneira como falas

94:50

da esquerda, h, e uma atitude estar

94:54

constantemente a querer desmascarar a

94:56

esquerda. Acho que o compromisso com a

94:58

verdade não tem nada a ver com com

94:59

polarização.

95:01

Eh, o compromisso com verdade é também

95:03

uma questão de conduta ética, não é

95:05

brincar. Ah, eu posso estar errado em

95:08

montes de observações que faço e há

95:10

muita gente de certeza que acham que eu

95:11

estou errado em observações que faço e

95:13

podem falar com liberdade, mas nunca

95:15

nunca aconteceu eu ameaçar ninguém de

95:17

morte. A mim já me administraram várias

95:19

vezes pelas minhas opiniões. Quem é que

95:20

pluraliza quem? Afinal acho que isso é

95:22

tudo uma conversa que não me interessa.

95:23

Eu tenho este estilo de falar, sempre

95:25

falei assim. Ainda há pouco estava há

95:27

uns dias fui a Stúbal à minha terra a

95:29

falar lá numa ocasião e disse isso. Eu

95:33

sou como vocês soubalense. A malta em

95:34

Balense é um bocado ruda a falar. Ah, e

95:37

eu não prcindo disso. Quem não gosta não

95:39

veja, enfim, não não ouça as minhas

95:42

opiniões.

95:45

Só é a minha maneira de falar. Acho que

95:47

eu eu respeito e considero

95:51

as pessoas com quem debato, mas não

95:53

necessariamente as suas ideias. Se suas

95:54

ideias forem uma forem mentiras, como eu

95:57

às vezes tenho que bater, pessoas estão

95:58

a dizer mentiras à minha frente, outras

96:00

vezes estão a ser de uma desonestidade

96:01

radical, eu tenho que estar a a ser

96:04

simpático com isso. Não, lamento. Se as

96:06

pessoas chamam de polarização, eu

96:07

chamo-lhe um compromisso inabalável com

96:09

a verdade, em que eu também estou aberto

96:11

a correção. Portanto, eu não estou numa

96:13

torre de marfim que eu digo umas bocas e

96:15

depois fecho os não. As pessoas

96:16

respondem-me. As pessoas respondem-me e

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há uns tipos que não gostam de mim e

96:19

chamam-me, insultam-me, mas outros que

96:21

dizem: "Não, eu também te respeito. Acho

96:23

que estás errado." naquilo que estás a

96:24

dizer e eu tenho que me aguentar e se

96:26

conseguir refutar, se conseguir

96:27

repostar, mas também faço fazem-me

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pensar. Agora,

96:31

eh, nunca insultei ninguém nesses

96:34

debates, estou um bocado mais

96:36

abrutalhado por dizer as coisas com

96:38

frases mais curtas.

96:40

Ó pá, se quiserem salamalecos, vejam

96:42

outra pessoa qualquer. Não estou a me

96:43

chatear com isso. E já tenho, já não

96:44

tenho uma certa idade, também já não vou

96:45

mudar.

96:47

Eh, há muitos comentadores na televisão

96:50

e imensos nas redes sociais que são

96:52

todos bonitinhos e que falam todos muito

96:53

certinho e estão cheios de sorrisos.

96:55

>> Obrigado.

96:56

>> As pessoas podem, já estava lá ti. As

96:59

pessoas podem ver esses, não tem que me

97:00

ver a mim, a liberdade para as pessoas

97:02

escolherem. Se quiserem escutar alguém

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para quem o compromisso com a verdade

97:10

neste neste plano de uma espécie de

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conduta ética de não aceitar

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prostituição intelectual, demagogia

97:17

política, sectarismo fanático, isso eu

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não aceito.

97:21

Então, acho que tenho um dever, daí a

97:24

questão da conduta ética, tenho um dever

97:26

de expor, de expor a mentira, expor

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desciidade intelectual e muitas vezes o

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sectarismo partidário. Se as pessoas que

97:34

estão tão insatisfeitas com a maneira

97:35

como eu falo, acompanhar os debates, eu

97:37

peço para fazer este exercício. Posso

97:39

fazer este exercício?

97:41

Quando estou com um debatente,

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eh, as pessoas vejam se eu não começo a

97:46

ser agressivo apenas quando há uma

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provocação do outro lado. Eu sou sempre

97:52

um cordeirinho, começo sempre a falar

97:54

como um cordeirinho,

97:56

mas depois eu, como nunca fiz fredes

97:59

partidários, não é o partido onde eu

98:00

milito, nunca fiz.

98:02

E pá, lamento se não gosto de debater

98:04

com pessoas que fazem do uso do ar

98:07

televisivo, do tempo televisivo ou do

98:08

tempo radiofónico, tempoístico, uma

98:10

permanente propaganda eleitoral. É, pá,

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não gosto disso e vou continuar para as

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pessoas que não gostam, mas eu vou

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continuar a deixar refletir no meu

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rosto, nos meus olhos, nos meus gestos,

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que não estou a gostar do que estou a

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ouvir. Quem não gosta de me ver assim

98:27

pode mudar o canal.

98:29

>> Muito bem. Defesa feita. Olha, foi muito

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bom mesmo. Obrigado. Tens aí, tens alta

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memória, tens boa memória, tens noção

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disso. Tens aí um memória trabalha-se.

98:39

Memória trabalha-se muito. Sabes?

98:40

>> Tu treinas, fazes treinos de memória?

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>> Não, mas estou sempre a reviver coisas

98:44

passadas, a fazer,

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>> voltar a estudar coisas, não é?

98:47

>> Lim, lê muitos livros que já li.

98:49

>> Falas muito também que é a melhor forma

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de de fic ensinar coisas, é a melhor

98:54

forma de coisas. Ao contrário do que as

98:55

pessoas pensam, eu nem gosto muito de

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falar,

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>> não, mas sou obrigado a falar porque dou

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aulas e porque estou nos mídia, não é?

99:02

Impossível,

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>> mas eu gosto muito de estar em silêncio

99:05

e estar sozinho.

99:07

Ah,

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gosto de estar a escrever na praia,

99:10

escrevo muito na praia.

99:13

As pessoas não acreditam, pensam que eu

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vou para a praia. Não, mas eu escrevo

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muito, trabalho muito na praia quando tá

99:17

b

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>> Pois é, estás sempre com alto bronze

99:18

também. Já reparei.

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>> É disso, é disso, é disso. As praias

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desertas que ainda há aqui não muito

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longe de Lisboa, fora da época. Eh,

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gosto do silêncio e quando estou sozinho

99:33

em silêncio,

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estou a recuperar muitas lições que

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estou a tentar aprender, ou de

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experiências que vivi ou de ideias que

99:41

estudei, estou sempre a revivê-las na

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minha cabeça. Ah, isso ajuda a manter a

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manter esse passado vivo. E olha que

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tenho muita pena, acredita, não estou a

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dizer isto, só por dizer, tenho muita

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pena de de tantas coisas que me esqueci

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que considerem importantes. Considero

100:00

importantes. Há muitas coisas que eu

100:01

tenho con Ah, esqueci-me deste ponto e

100:03

daquela ideia e daquele acontecimento e

100:06

tenho a certeza que eram importantes

100:07

para mim agora.

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>> Sim, sim, também tenho muito

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>> e não consigo e não as consigo reter.

100:12

Portanto, a minha memória não está mal,

100:15

mas olha que era bom ser muito melhor.

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>> É sempre bem. Obrigado mais uma vez.

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Foi, foi muito bom. E vocês em casa, não

100:22

fujam já. Eh, se tiverem a ouvir isto

100:24

numa plataforma qualquer em que poderem

100:26

deixar um um ranking, isso ajuda e é

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grátis. HH o Despolarias é um projeto

100:32

totalmente independente, não estamos em

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nenhuma rádio, nenhum grupo televisivo,

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depende do apoio de mecenas. Por isso,

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se já tiverem ouvido dois ou três

100:38

episódios e isto tiver a trazer algum

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valor para a vossa vida, contempl

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tornar-se mecenas. E por hoje é tudo.

100:44

Muito obrigado.

Interactive Summary

O vídeo é uma entrevista com Miguel Morgado, onde ele discute o conservadorismo, a política portuguesa e internacional, e a sua experiência como assessor político. Morgado explica que o conservadorismo em Portugal se tornou um termo pejorativo devido à hegemonia da esquerda em demonizar tudo o que não fosse de esquerda, incluindo o liberalismo. Ele diferencia o conservadorismo tradicionalista do conservadorismo do futuro, que ele procura defender, com raízes em figuras como Cícero. A conversa aborda também a crise do conservadorismo, a aliança com o liberalismo, o impacto do 11 de setembro e o surgimento dos neoconservadores. Morgado detalha a situação económica de Portugal e Grécia durante a crise financeira, criticando as decisões tomadas e a vulnerabilidade do país. Ele também discute a evolução da esquerda, a influência da doutrina social da igreja na formação da Europa e a importância da âncora europeia para a democracia portuguesa. Por fim, ele defende o seu estilo de comunicação como um compromisso com a verdade, mesmo que seja percebido como polarizador, e reflete sobre a sua relação com a religião e a importância da memória.

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