#108 MIGUEL MORGADO - Conservadorismo, Política, TROIKA, Pedro Passos Coelho, Religião, Austeridade
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Naqueles anos, houve uma pessoa que
percebeu exatamente qual era o caminho
que o país tinha que percorrer, que se
chamava Pedro Passos Coelho. Ele viu
esse caminho com mais clareza de
qualquer outra pessoa, inclusivamente
membros do seu próprio governo. E houve
um um interesse hegemónico da esquerda
em demonizar, em diabolizar tudo o que
não fosse a esquerda. E, portanto, ser
conservador era criminoso, mas ser
liberal também era criminoso.
>> Causa desconforto quando dizem que tudo
é política e tá bem,
>> são disparado. É assim que depois se
justifica os campos de concentração.
Como é que alguém que patrocinou o
regime
extremista do nazismo alemão se torna a
partir dos anos 30, 80 e 90 a referência
central da reinterpretação do movimento
da esquerda no ocidente. Eu vou
continuar a deixar refletir no meu
rosto, nos meus olhos, nos meus gestos,
que não estou a gostar do que estou a
ouvir. Quem não gosta de me ver assim,
pode mudar o canal.
Muito boa tarde, se Deus quiser. Sejam
bem-vindos a mais um episódio de
Despolariza. O meu nome é Tomás
Magalhões e antes de vos apresentar ao
convidado do dia, quero agradecer aos
novos mecenas Francisco Moreira, Damião
Franco, Alexandra Carvalho, Joana Bel,
Filipa Castro, Gabriel Silva, Ana da
Silva e Cristiana Rocha. Muito obrigado.
Estas pessoas contribuem para que o
despedoriza possa continuar e crescer.
ganham também a poderem vir ao estúdio e
ver episódios, um grupo de WhatsApp, um
grupo de desporto, eventos, jantares,
uma data de coisas. Se estiverem
interessados em apoiar, há um link à
minha volta e outro na descrição.
Hoje tenho comigo Miguel Morgado, que
nasceu pouco depois da revolução de
1974.
é licenciada em economia e doutorada em
ciência política pela Universidade
Católica Portuguesa, onde leciona no
Instituto de Estudos Políticos como
professor associado. Foi professor
convidado na Universidade de Toronto e
noutras universidades norte-americanas e
brasileiras. Entre 2011 e 2015, foi
assessor político do primeiro-ministro
Pedro Passos Coelho. Entre 2015 e 2019,
deputado à Assembleia da República pelo
PSD e autor de vários livros de ensaio
político, como o Introdução ao
Conservadorismo, Introdução ao
Liberalismo e tem intervenção pública
regular como comentador político em
meios de comunicação social. Bem-vindo,
Miguel. Bem-vindo, obrigado. Ai,
obrigado. Não és a primeira pessoa a
responder. Bem-vindo ao bem-vindo.
>> Fras ti fi. Desculpa.
>> Eh, olha, muito feliz por estares aqui.
Já já estava a tentar apanhar-te algum
tempo.
>> Ainda bem.
>> Também hoje em dia venho menos a Lisboa,
então quando venho disparo assim algumas
direções.
>> Nota-se pelo teuque. Vem aquel Lisboa.
>> Maravilha.
E vamos arrancar da maneira de costume,
que é lutaria genética e social. Porque
eu quando comecei a escrever o blog do
Despolariza, escrevi um artigo sobre
isto que tem a ver com eh ninguém
escolheu os genes que lhe calhou, não é?
Quantos cromossomas tinha e as
características que tinha, nem escolheu
o tempo, nem o país, nem a família, o
contexto social onde nasceu. E isso
define uma boa parte de quem nós somos.
E acho que ajuda eh quando as pessoas
estão a discordar, falar disto ajuda a
humanizar e empatizar, porque todos
temos histórias diferentes. E então o
que é que te saiu a ti na lotaria
genética e social?
>> Bem, na lotaria genética não sei bem.
Eh, para além da minha aparência física,
ter olhos verdes e quando era miúdo era
louro, agora já não sou. Hah,
o resto não sei, não sei como é que
havia de caracterizar a minha lotaria
genética, a minha herança genética. Eh,
quanto ao que diz respeito ao acaso
social, bem, eu nasci em Stúball, eh,
a minha família nunca teve problemas de
esquecer materiais. Os meus pais vinham
de meios muito humildes, mas eles foram
um produto como muitos centenas de
milhares de portugueses foram o produto,
o bom produto daquele grande crescimento
económico que Portugal tinha tido entre
os anos 60 e os anos 70.
Portanto, foram as primeiras pessoas das
suas famílias a licenciar-se, por
exemplo. Eh,
portanto, tinham me muitos humildes e
proporcionaram a mim e à minha irmã,
tenho uma irmã mais velha, eh, uma vida
bem melhor do que aquelas que eles
tinham tido quando quando eram miros.
Isso foi bom para mim.
>> E eram politizados ou envolvidos
politicamente?
>> Eh, a minha família e havia muitas
pessoas politizadas da minha família. Fa
alargada
no lado da minha mãe, do lado do meu
pai, havia muitas pessoas envolvidas,
muitas proveniências diferentes. Ah, eu
tinha um tio que pertenceu ao Loá,
movimento extrema esquerda. Eh, enfim,
para as pessoas que não não estão a par
dessas chiclas daquela época, eram que
tinham as ações subversivas contra o
Estado Novo na altura, os assaltos ao
banco da Figueira da Foz, essas coisas
todas.
Ah,
onde
militaram
pessoas que depois transitaram seguir ao
25 de abril pelo partidos de extrema
esquerda, algumas também para para o PS.
Esse meu tio depois também eh acabou por
se vincular até mais ao PS já nos anos
80, mas era eu tinha emigrado para
França, portanto uma grande parte da
minha família tinha igrado do lado do
meu pai, do lado da minha mãe. E por
isso além da politização de esquerda
direita que havia, bem à direita não
havia muita politização, mas acho,
sobretudo à esquerda havia outra
experiência que foi importante para mim
na minha família, que foi por na na
sequência de tanta gente ter emigrado
quando nós os víamos. ou vinham a
Portugal ou alguns depois quando
conseguiram regressar, nem todos, eh,
traziam a consciência de problemas
políticos e sociais que que eram
estranhos para mim como português, como
de português, nunca tinha saído daqui.
Ah, os problemas que havia
na África do Sul, em França, no Brasil,
na Austrália, eh, no Canadá, eram muito
diferentes dos problemas políticos de
Portugal dos anos 80. E isso também me
deu uma consciência mais alargada,
imediata.
eh de que havia outras fraturas sociais,
de que havia outras preocupações, as
políticas. Percebeste que estávamos
atrasados em alguns assuntos ou nalguns
casos havia sempre a comparação. Os meus
familiares tinham muito o síndrome do
imigrante português, que como deixaram
Portugal país muito pobre, eles próprios
eram muito pobres, não é? Todas essas
pessoas que iam em migrar da minha
família eh deixaram para trás um país
muito pobre
>> e voltavam com no Algarve e no Alentej.
Lantej queriam-nos convencer que a opção
que tinham tomado de vida, porque
emigrar naquela altura não é como migrar
hoje, as pessoas emigravam e ficavam
anos sem saber da família, do país, não
é?
>> Não é como hoje com telemóveis e e-mails
e
fazer chamadas de vídeo muito diferente
emigrar naquela altura, anos 50, anos 60
ou emigrar agora. Mas gostavam de nos
mostrar a todos, aos que tínhamos
ficado, não porque era miúdo, claro, mas
aos meus pais, aos meus tios, às outras
pessoas, que eles é que tinham tomado a
opção certa e Portugal continuava uma
pasmaceira, mesmo quando isso não era
verdade relativamente às experiências
que alguns deles tinham tido.
Eh, alguns foram muito bem sucedidos, os
que foram para o Canadá, por exemplo.
outros nem tanto, os que foram para o
Brasil, mas eles trou eles traziam, não
era só essa comparação da superioridade
dos seus países de acolhimento
relativamente a nós, que nós tínhamos
ficado aqui um bocadinho na parvoeira.
Hum, era o facto de haver coisas
diferentes. Por exemplo, no Brasil, uma
preocupação do dia- a dia ser a
criminalidade e insegurança a um grau
inimaginável em Setúbal dos anos 70 e
80. Isso tudo balatera para padrões
portugueses uma uma cidade considerada
até relativamente violenta e insegura,
todos comparados com os outros pontos do
país. Mas para mim ficar a saber que uma
sociedade podia viver num permanente
clima de violência, de tensão, de
homicídios na rua, eh tiroteios.
Ah, foi uma coisa que foi-me trazida por
aí.
>> Hum.
>> Ah, e outros casos também. O problema do
apart na África do Sul, minha família
tinha ido para a África do Sul, depois
tinha
saído da África do Sul para a Austrália,
um movimento que muitos portugueses
fizeram, que para a África do Sul também
familiares, mas fizeram isso.
França,
os famiros que tinham ido para França
também tinham sido politizados lá e,
portanto, trazia um conjunto de
referências que para mim eram
completamente estranhas, os partidos
franceses, h a guerra na Argélia e as
cicatrizes que tinha criado eh na
sociedade francesa. Muitas dessas
coisas, eu como não lia livros, como não
lia livros, também não via telejornais.
Uhum.
>> Às vezes esse tipo de conversas que eu
apanhava aqui ali eram mais eh foram
mais importantes para eu perceber que
havia mais coisas do que aquelas coisas
que se passavam na rua de Stúal.
>> Muito interessante. Eu cresci em
Inglaterra, como estava a dizer há
bocado, e só estou a contar isto por
causa do que do do tema seguinte, que é
eu cresci ouvir a expressão Conservative
Party, não é? aqui ali na televisão,
embora não percebesse muito bem o que
era, mas depois cheguei a Portugal e aos
poucos fui-me apercebendo que a palavra
conservador cá em Portugal é mais ou
menos um insulto para muitas pessoas.
>> Uhum.
>> E então eu queria-te perguntar, sei que
já escreveste um livro inteiro sobre
isto mais ou menos, mas o que é que é o
conservadorismo e porque é que em
Portugal aconteceu isto de conservador
se ter tornado mais ou menos um insulto?
Ah,
>> quando somos todos conservadores aqui e
ali.
>> Claro, nós somos todos, nós somos todos
conservadores. Evidentemente que somos
todos conservadores. A segunda parte da
pergunta é mais fácil de responder do
que a primeira. Porque é que em Portugal
é é um termo pejorativo? Porque a
cultura política portuguesa e a
linguagem mediática que se utiliza, que
depois as pessoas papagaiam, foi formada
nos anos 60 e nos anos 80. E houve um um
interesse hegemónico da esquerda em
demonizar, em diabolizar tudo o que não
fosse a esquerda. E, portanto, ser
conservador era criminoso, mas ser
liberal também era criminoso. O que
significava que a cultura política
portuguesa estava o arrepioo da cultura
política de qualquer democracia liberal
constitucional saudável no Ocidente.
Enfim, foi um foi uma hegemonia da
esquerda que o país pagou muito caro com
atraso, com muitos problemas de
desenvolvimento durante muitos anos.
Portanto, essas coisas estão a mudar
lentamente, mas é verdade, nos anos 80,
nos anos 90, bem, cí mais tarde até a
ser liberal era um crime, eh, ser
conservador era outro crime, quando na
verdade são ingredientes indispensáveis
de uma cultura polí qualquer. Não é que
as pessoas tenham que ser liberais ou
conservadoras, mas são indispensáveis
num movimento pendular que qualquer
sociedade democrata tem que ter, umas
vezes mais para a esquerda, vezes mais
para a direita. Portanto, setor faz
parte das patologias que a esquerda
política em Portugal e esquerda
intelectual em Portugal introduziram,
das quais nos vamos livrando aos poucos.
Eh, devagarinho, mas vamosos livrando.
Quanto à primeira parte da pergunta
conversa,
>> lev o Exato. O conservadorismo é muito
mais heterrogéneo do que se pensa.
Portanto, há vários tipos de
conservadorismo muito diferentes.
E eu que quando me pedem para me
classificar politicamente,
intelectualmente, até acho que a palavra
que tá ali mais à mão para mim é ser
conservador, eu na verdade
mais ou menos desprepresso quase todos
os tipos de conservadorismo.
A, portanto, existe um conservadorismo
de tipo tradicionalista com o qual eu
nunca me identifiquei,
que em grande medida nasce e por crítica
a duas experiências revolucionárias
e na Europa. uma em Inglaterra, nome
meados século X7, que gera um tipo de
literatura descrita a pessoas que pronto
ninguém conhece, mas o conte de Claron
ainda no século X7, David Jun depois no
século XVI e que vão ser críticos da
experiência revolucionária que
terminaria numa espécie de república ali
na meados do século X7 a Inglaterra e
depois sobretudo a Revolução Francesa,
não é? que é o grande a grande o grande
acontecimento eh da política moderna,
que vai suscitar uma grande crítica da
da revolução. Há um grande entusiasmo à
volta da revolução, porque também há
imediatamente um movimento crítico eh
que é na sua essência tradicionalista e
é na decorrência desse conservadorismo
tradicionalista que emerge imediatamente
com o ausão da revolução que depois uns
anos mais tarde ali em 1819
em França, em França, a palavra
conservador
vai ser utilizada para descrever este
tipo de pessoas e que é o título de um
jornal fundado, enfim, por vários
intelectuais franceses, da altura da
restauração da monarquia, depois da
experiência do Napoleão.
O mais famoso de todos talvez seja o
Chatom Ran, um grande escritor, para
além de um teório política, era um
grande escritor do romantismo francês e
ele é que inventa a palavra conservador
para se aplicar aí. E nem sequer são
tanto os ingleses que depois vão-se
ajustar uns 10 anos depois, quando
começam a designar o partido Tory como
partido conservador, que é uma coisa ali
também do final
>> da década de 20 do século XIX,
>> dá um tipo de conservadorismo
tradicionalista. Eh, e esse eu nunca me
identifiquei. Portanto, o que eu
procurei sempre fazer foi
eh lançar as bases que permitisse
identificar um conservadorismo que não
estava tão dependente desse contexto
histórico da Revolução Francesa e das
suas repercussões, a crítica do terror,
jacobino,
e o as constituições e escritas por cima
da tábula rasa, como se dizia na altura.
Eh, portanto, consismo que se afastasse
desses problemas conjunturais e fosse
uma filosofia política muito mais ampla
do problema humano. E eu
designei à falta de melhor expressão,
esse conservadorismo, conservadorismo do
futuro. Em vez de ser um conservadorismo
do passado, olhar para o passado, não é?
Como se nós tivéssemos sempre a olhar
para trás.
>> Sim, sim.
>> A tradição, o que é que as revoluções
comprometem, etc. Esse tipo de problemas
que não me interessavam tanto, mas não
me interessavam nada. eh um
conservadorismo que olhasse para o
futuro. Eh, e aí escolhi como, enfim,
quando tentei construir esse
conservadorismo, eh, filme também em
torno de um canânono diferente.
Portanto, o conservadorismo
tradicionalista tem os seus heróis e eu
propus uma lista de eh de iminentes
conservadores não tradicionalistas, mas
por essa razão também muito mais
perdurantes, muito mais premos,
>> contemporâneos. Não, eu quis radicar, eu
quis radicar eh esse conservadorismo.
Também há uma, também pus lá uns quantos
eh eh do nosso tempo, digamos assim.
>> Sim, sim. Orte H7 em Espanha, eh, Senin
na Rússia, pessoas assim no século XX,
havia lá umas quantas, mas na verdade eu
queria era radicar isto eh não origem da
reflexão política para precisamente eh
transmitir que o a filosofia política
conservadora é uma filosofia política de
todos os tempos e desde o início dos
tempos, portanto, ela não nasce com a
rolução francesa, ao contrário de dessa
mitologia que depois foi construída por
professores universitários, pelas
universidades anglossaxónicas no século
XX. que então olhavam para a história
como se ela tivesse começado na
revolução francesa e a tal reação
tradicionalismo que há pouco. Então eu
achava que isso era um disparado.
>> Sim.
>> Então eu ponho eu ponho como o primeiro
conservador, portanto o homem que faz
nascer toda essa eh toda essa relação
com a política que nós podemos designar
como conservadora. um romano, portanto,
há muito, muito tempo, há 2000 anos, um
bocadinho mais, eh, chamado Marco Túlio
Cícero. Eh, e o Cícero, no fundo, é ali
o homem que depois consegue articular os
grandes ensinamentos da filosofia
política clássica. E, de facto, ele
depois vai ser até ao século XIX, no
século XX já não, mas até ao século XIX
ele será ali eh o modelo a ser imitado
por todos aqueles que aparecem eh a
fundar o tal conservadorismo moderno lá
mais para a frente.
>> OK? HH E portanto é o é o Cícero mais do
que qualquer outra pessoa que consegue
articular as grandes questões
fundamentais que eu reúo
para formar a base desse conservadorismo
do futuro.
>> Muito interessante. Eu eu considerava-me
progressista hh até começar a estudar
mais filosofia e história do pensamento
e desenvolvimento.
Hum. E apercebi-me, no fundo, a tua
visão é mais política e a minha, se
calhar, mais antropológica ou ou
espiritual, que é todos nós, o nosso
dia- a dia, temos e em nós, não é, este
instinto, esta coisa que nos é muito
natural de criar e querer tornar as
coisas melhor, que é o nosso ímpete
progressista, mas também temos o de
querer preservar aquilo que funciona bem
e e conservar aquilo que que já provou
funcionar e que isto sempre existiu.
Aliás, no hinduísmo, há quem interpreto
o Trimurti, que é o Brama, o Shiva e o
Vichno, como sendo esse equilíbrio de
criação, eh, conservação e destruição.
E no fundo perercebi-me que comecei,
comecei, tive assim mesmo um, um clique
e comecei a olhar, por exemplo, para o
pastel de nata.
As pessoas já experimentaram de certeza
pôr nós moscada no pastel de nata e já
experimentaram pôr todas asias no pastel
de nata. Razão pela qual tu quando vais
comprar um pastel de mata, aquilo vem
com canela, não é porque ninguém teve
essa ideia antes de ti. É porque houve
milhares de pessoas muito mais
inteligentes e mais criativas que tu nos
últimos 500 anos que fizeram todas essas
experiências e a ideia vencedora já
existia quando tu nasceste. Isto
aplica-se a comida, aplica-se a
instituições, aplica-se a muitas coisas
na vida.
É isso, comecei-me a perceber que,
calma, já também ler filosofia nesse
sentido, tipo, pá, ler coisas com
milhares de anos absolutamente
brilhantes e e contemporâneas, ou seja,
acho que foi o processo de humildade.
Foi um processo de humildade de
perceber, espera aí, afinal o as pessoas
do presente só são iguais às do futuro,
as do passado, mas com um bocadinho mais
tecnologia. Não acho que seja sejamos
mais inteligentes, nem mais sábias, nem
mais criativas. Acho que em algumas
dimensões até estamos a ficar menos
sábios por causa de de várias razões,
mas é isso e apercebi-me que sou um um
progressista conservador e acho que toda
a gente é um progressista conservador,
mas alguns acho que têm um bocadinho
mais medo de mexer em
coisas que estão provadas que funcionam
e outros têm mais vontade de fazer
experiências mesmo arriscando a que essa
essa pirâmide de cartas e possa cair. Ou
seja, eu vejo as coisas um bocadinho
assim. Eu no livro sobre o
conservadorismo, eu tento o livro está
construído à volta de coisas que se
dizem sobre o conservadorismo, que eu
fui buscar, pessoas eminentes,
evidentemente, normalmente críticos de
conservadorismo, coisas que se dizem
sobre o conservadorismo que não têm
fundamento. Bem, uma delas é essa que,
pura a palavra conservadora parecer
designar uma atitude de passiva, de
apego àquilo que é familiar e e e
portanto esse esse amor às coisas
familiares acaba por não se poder
expandir para aquilo que é desconhecido,
para aquilo que é inexistente. Eh, é uma
falsidade. Quer dizer, isso descreve um
pouco apenas e de uma maneira, a meu
ver, caricatural o tal conservismo
tradicionalista.
Portanto, um ponto de vista do
conservadorismo que eu procurei
reelaborar, rearticular, eh não existe
nenhuma contradição. Pelo contrário, é
um conservadorismo perfeitamente
ajustado a um mundo que se tornou, na
sua essência, mudança permanente. Eh,
agora também os termos progressistas, o
termo que se encontrou em termos do
século XX para designar e a esquerda
política como progressista também está a
cair em desuso. Porquê? Porque as novas
formas da esquerda que foram aparecendo
depois da crise terrível em que o
marxismo mergulhou no século X, no na
década de 70 do século XX e nunca mais
recuperou, evidentemente, nem vai
recuperar,
a esquerda procurou reconstruir o seu
horizonte político fora de um horizonte
de progresso. Portanto, as as formas até
mais tremadas e mais criativas da
esquerda dos últimos 30 ou 40 anos já
negam até o pressuposto do progresso.
Portanto, também isso está tudo muito a
mudar. Eh, a questão de nós sermos
criadores do nosso mundo ou cocriadores
do nosso mundo com os outros ou quem com
Deus, quem é crente e, portanto, agimos
para tornar, pelo menos aquilo que faz
parte do nosso mundo melhor do que
aquilo que recebemos. Eh, é uma atitude
tão conservadora como como outra
qualquer. Eh, eu procurei alinhar
precisamente o conservadorismo à volta
de outros temas.
Por exemplo, para dar o exemplo de dois
que eu exploro no no livro e que dão
conta de muitas das inclinações
conservadoras na política hoje e no
passado. H a ideia de que aquilo que nós
devemos procurar na nossa vida é
excelência humana, as excelências que
nós podemos realizar do ponto de vista
moral, do ponto de vista intelectual, do
ponto de vista da nossa atividade
social. Eh, e isso coloca algumas
pessoas acima das outras, algumas
pessoas que têm uma vida mais excelente
do que outras. Mas para os conservadores
de Cor indian foi sempre um problema
muito importante, central e que chamava
à conversa muitos outros temas. Por
exemplo, o tema da educação que para os
conservadores sempre foi muito
importante, garantir que as instituições
que educam as crianças, adolescentes e
os adultos eh reúnam demasiadas
características que protegem a alumina
de determinadas tentações, de
determinadas cicatrizes. Eh, e depois
uma outra ideia que também acho que é
muito importante para caracterizar a
política do século XX e do século XX.
eh e que eu identifico logo com esse
contravadorismo radicado em Cícero, eh
é um diálogo, um debate que foi muito
importante para fundar até a forma de
pensar da nova da nossa civilização
entre um grande filósofo chamado
Sócrates em Atas e um também da enfim da
um reetor, pelo menos ele era um reor,
se não lhe querem chamar filósofo, era
um sofista chamado Protágoras, não é? um
protógra é que tem um dito famoso de que
o homem é medida de todas as coisas. Ah,
e Sócrates é que faz a crítica dessa
proposição de que o homem é medida de
todas as coisas. E o conservadorismo,
portanto, que eu do século eh o
conservismo do futuro persona, ficado
ali no Cícero, eh também aceita a lição
de Sócrates contra Protágoras que ah que
o homem que o homem não é de todas as
coisas. E isso dá muitas lições
importantes. Por exemplo, eh limita as
expectativas que se alimentam acerca das
possibilidades da ação política. Hum.
Hum. E foi por isso que os
conservadores, aqueles que mantiveram o
seu juízo,
perante as ameaças totalitárias à
esquerda e à direita, só eram perceber
rapidamente os perigos de uma abordagem
totalitária do poder. Hoje, para nós,
depois dos horrores do comunismo e do
nacional socialismo, eh pode parecer
perplexizante porque é que como é que
alguém seria apaixonado pelo projeto
totalitário, eh, como o comunismo da
União Soviética, como o Nacional
Socialismo da Alemanha. Bem, mas na
verdade e perante a crise que as
democracias liberais viviam na altura,
aqueles dois regimes pareciam ser os
regimes do futuro.
>> Sim. Se calhar nós teríamos apoiado se
tivéssemos e
espero ter, eu espero não, eu espero que
não, mas por causa das minhas
inclinações conservadores, mas o que eu
ia dizer era que a inclinação
conservadora proporcionava imediatamente
uma objeção de fundo a um projeto viesse
da esquerda ou à direita que colocasse
na política a tarefa de refazer o mundo
e o homem. Porquê? supõe uma política
ilimitada. Ah, supõe que o homem é medid
todas as coisas. Mas isso sou mais a
fascismo do que a comunismo. Essa ideia
do homem como imagem ex por até é mais
comunismo. Até é mais comunismo. A ideia
de reconstruir um homem novo, eh, que
pudesse estar liberto dos preconceitos,
dos defeitos, das hh das limitações do
passado. Até uma ideia até mais
comunista do que a do nacional
socialismo, que o nacional socialismo
postulava que essa perfeição já estaria
radicada na própria raça. Portanto, até
o comun até tem uma uma atitude de
engenharia eh social, os engenheiros de
almas, é uma expressão que é ativizada
precisamente para os comunistas h até
mais
mais e vincada do caso do nacional
socialismo, mas anos tem essa essa
enorme expectativa de que o mundo tem de
ser refeito a partir da ação política e
o conservadorismo imediatamente vê aí
perigos, perigos existenciais, perigos
mortais. Uma coisa des tem que ser cab
mal para um conservador,
>> porque acredita que há outras vias
melhores, como a via da família ou a via
da espiritualidade ou seja, que a
política não é a única maneira de de
tornar o mundo melhor. É isso.
>> Bem, em primeiro lugar, é isso. dizer
que que a política é apenas uma das
dimensões do humano, eh, que está
sujeito a limites, precisamente nas suas
características, nas suas
possibilidades,
eh, e que de certa maneira é como se a
lição fosse esta, a ação política
torna-se benigna
se e só se for sempre levada a cabo,
tendo em vista um horizonte que
transcende a política.
Portanto, a partir do momento em que nós
temos filosofias políticas que dizem
assim: "Não, não, a política é o todo."
Nós temos uma política total, uma
política totalitária.
Quando o horizonte da política fecha
todos os outros horizontes, tens uma
política totalitária. Isso sim era o
nacional socialismo de Hitler e o
comunismo das vários dos vários doidos
que nós tivemos, como comunistas, Volen,
Stalin, o Maltetung, Walpot, esses tipos
de todos. H, isso é um ponto muito
importante, quer dizer, é fazer política
como se a política fosse um horizonte
temporário, transitório, tendo em visto
uma um outro horizonte que eu
transcendo.
Para muitas pessoas pode ser a arte e o
belo, para outros pode ser o moral e o
bom, para outros pode ser Deus e a
redenção da alma.
Mas a política tem de gozar deste
estatuto de instrumentalidade para essas
coisas, momento em que ela quer esgotar
e subsumir essas coisas nela. Então
vamos ter um grande seria.
>> Sim, revejo-me muito nisso e acho que é
por isso que me causa desconforto quando
dizem que tudo é política e tudo o que
tu fazes é política e qualquer coisa. A
mim, eu eu percebo, as pessoas explicam
e explicam, pá, tu decidires ir de
férias para o Brasil em vez de ir
Argentina, é política porque estás a
contribuir para o PIB do Brasil. Ó pá,
tá bem.
>> São disparados,
>> mas é eu acho uma maneira
>> são disparados.
>> Acho uma maneira feia de se ver o mundo,
sabes?
>> Isso não tem justificação nenhuma. Isso
é uma tentativa de de politização
radical que terminou sempre mal, muito
mal. As pessoas não percebem que ao
tentarem dizer essas coisas que parece
ser parecem estar a ser muito
espirituosas, inteligentes, elas estão a
servir como mensageiros de uma agenda de
extremista, seja de esquerda, seja
direita, como não há outra, como não há
outra. pouco importa se estão ali
armados em espertos a dizer coisas que
parecem ser muito inteligentes. H, a
partir do momento em que nós queremos
levar a política a todos os cantos, a
todos os gestos e da nossa da nossa
vida, interpretar a nossa vida nesses
termos, o que nós estamos a fazer é
politizá-la de facto.
>> Sim, senhor.
>> Portanto, aquilo que parece ser uma
simples constatação
super inteligente e e esperta, não é
nada. é um é um é uma espécie de agenda
de mobilização, hã, que empobrece a
nossa vida, empobrece radicalmente a
vida humana. E a partir desse momento,
todos os nossos gestos, todos os nossos
instantes, todos os nossos amores não
passam eh de um elenco supérflo nos
grandes conflitos ideológicos. É assim
que depois se justifica os campos de
concentração.
>> Sim. eh torna-nos apenas eh números e
engrenagens e e pequenas pressões
políticas e tira um bocadinho a magia e
e o e o político eh o que é político hh
infesta o que é sagrado de certa forma,
não é? Claro. E um gesto diferente do
meu, um gesto alternativo ao meu, um
amor diferente do meu, um tornam-se não
só diferenças sobre as quais nós podemos
debater de uma maneira até mais ou
menos, enfim, enfática e entusiástica,
sem sem ter ilusão que podamos chegar a
um compromisso, às vezes não existe, mas
torna-se muito mais do que isso.
Torna-se uma ameaça para mim. E a partir
do momento em que o outro é vez com uma
ameaça nos seus gestos, nas suas
preferências, nos seus amores, é um
passo muito simples. É só uma mudança
ligeira nas circunstâncias para que
aquela fonte da ameaça passa a ser um
inimigo que eu tenho diserminado.
>> Sim. Isso aconteceu na Europa, a própria
existência passa a ser ameaça em vez do
comportamento.
>> E isso acontece no mundo hoje. Acontece
no mundo hoje. No Irão, o que está a
fazer é exterminar as pessoas
deliberadamente por serem inimigas de um
de uma sociedade, neste caso, eh,
religiosa, eh, obscurantista, como é do
xismo e do Islão. Mas aconteceu na
Europa, aqui na Europa, em Auschwitz, no
Golag, nos fuzilamentos em massa, na
fome provocada.
H,
cada pessoa
é interpretada de acordo com essa agenda
de politização extrema e ela deixa de
ser uma pessoa, ela passa a ser um
agente superérfluo, pouco importa se ela
esteja no mundo ou não. E a partir do
momento em que ela adquire uma cor de
inimizade, então é como se eu adquirisse
um dever
de exterminada. E, portanto, eu nem
sequer culpa pelo ato horroroso e moral
que eu cometi me pode passar pela cabeça
a mim ou a sociedade onde eu vivo. Pelo
contrário, a expiação é automática e se
calhar, como acontece no Médio Oriente
com o Amaz, com o regime do Irão ou
outros regimes, os assassinos são
aclamados como heróis,
>> vão cumprir o seu dever. Não basta, acho
que não basta eh convencer as pessoas
que tudo é político. Também tens de as
convencer que existe uma utopia tão
perfeita que os meios justificam os
fins.
>> Mas vê, eh, isso foi verdade até, isso
foi verdade até um certo ponto. A
política ocidental é a nossa hoje é
produto de muitas desilusões.
Eh, e uma das desilusões à esquerda e à
direita foi de que não existem utopias.
Não existem. Portanto, o que é que nós
temos no mundo pós-utópico? as utopias
conduziram muito o lado aqui para os
conservadores, não, que tiveram sempre
uma grande suspeita relativamente a
esses projetos utópicos,
embora eu também no meu livro defenda
que eh o conservadorismo cicoroniano
nasce da edificação do utopiasmo. Isso é
uma longa conversa e enfim temos deixar
para outra para outro para outro
momento, mas eu estava a dizer que a
política que nós temos hoje no ocidente
é a política da desilusão.
Eh, a esquerda, por exemplo, abedicou
totalmente de caminhar para uma
sociedade etóica. Então, o que é que o
que é que conduz à ação da esquerda? É
sobretudo a a politização extrema e a
reinterpretação
de todas as relações sociais na ótica do
conflito. É isso que a esquerda quer
cristalizar. Isso é óbvio,
>> não sei se concorda, acho que a
igualdade continua a ser muito
importante.
>> Não, não, mas isto é uma questão de
concordar. Isto não é isto não sou eu
que estou a dizer o que é que eu acho.
Isto é o que a esquerda diz de si
própria, não nos comícios,
evidentemente, que estão a falar que
somos todos iguais. Estou a falar da
literatura que refundou a esquerda dos
últimos 30 ou 40 anos depois da tal
crise do marxismo que tem que ser
reinventar. Eh,
>> focou e e essa escola pos
>> focou, ajudou, focou, ajudou. Mas
repara, é ver uma coisa muito simples
quanto isto. Um dos meninos queridos,
dos teóricos da esquerda, ah, dos
últimos 30, 40 anos pós-marxistas
foi um homem que foi jurista, militante
do Partido Nacional Socialista Alemão e
que teve a ambição de ser o grande
constitucionalista do regime alemão. Não
conseguiu por causa das lutas internas
que lá houve e ele perdeu. Que é um
homem chamado Carlos Schmith que
interpreta política precisamente
conflito. É a relação entre amigo e
inimiga, distinção, amigo e inimiga, e a
distinção especificamente política. Como
é que alguém que patrocinou, pelo menos
na primeira fase da sua carreira, o
regime eh extremista do nazismo alemão
se torna, a partir dos anos 30, 80 e 90
a referência central,
ou pelo menos uma das referências
centrais da reinterpretação do movimento
da esquerda no ocidente eh por homens
como Lacla, Chantal Muf, etc., que
fundam o o chamado populismo da
esquerda. O populismo também não sou eu
que estou a dizer. Eram eles que diziam.
>> Sim, sim.
>> Agora que entretanto a notismo é só da
direito. Enfim, disparado.
>> Falei disso que o Daniel Oliveira.
>> Pronto, mas são disparados quem não
conhece as coisas ou quer esconder as
coisas como elas são. A única maneira de
ter fundado esse populismo que coloca o
conflito no centro de todas as questões
políticas e foi trazer os Carlos Schmith
para a discussão, que é uma coisa de
doidos. Eh, já agora, para não pensarmos
que isto é uma questão puramente
intelectual, eh, o Malanchon, o grande
líder da esquerda radical, da esquerda
extremista na Europa neste momento,
portanto, o líder da França, da França
insubmissa, ele tem aquela frase famosa
que é preciso levar o conflito a todos
os os cantos da vida francesa. Isso é
que é fazer política. Portanto, o
objetivo já não é, como era para os
marxistas, caminhar com todos os custos,
campos de concentração, fuzilamentos,
miséria, mas caminharíamos para uma
utopia da emancipação da humanidade
enquanto tal.
>> Essa aspiração caiu, morreu.
>> Portanto, a esquerda também teve
reinventar.
Isso foi propício para certos
adversários da esquerda, como os
conservadores e os liberais diseram:
"Ah, estão a ver?" Andaram atrás do
outro piso, isso agora todo se
desmornou. H, mas ao mesmo tempo os
liberais, sobretudo os liberais, também
tinham uma aspiração eh de emancipação
da humanidade, dos indivíduos que tinham
um carijo utópico também. Essa aspiração
liberal também se está a desmoronar,
>> a utopia globalista de mercados livres e
abertos para todos e que isso
corresponderia ao a uma exercção máxima
e perfeita da liberdade individual
>> e estamos a viver esse desmornamento
agora. São esses os nossos dias. É essa,
essa desilusão
>> dizer, é exatamente por isso que eu
estou a dizer, a política do nosso tempo
é muito marcada por uma política da
desilusão.
>> Sim, sim.
>> Porque as antigas expectativas que
nasceram todas no século XIX, são tudo
produtos do século XIX, as coisas que
acabamos de escrever. HH, e foram
coisas, também é preciso dizer isto,
foram coisas que motivaram os nossos
antepassados para coisas verdadeiramente
belas e heróicas. Ah, estou a falar para
para os cardistas e para os liberais,
não foi só assassinos e e monstros. Isso
houve muitos, porque essa ideia também
cativa à mente monstruosa, à mente
totalitária, mas também houve muita
gente e à esquerda e nos liberais
generosa, criativa, que mudou o descendo
da humanidade de uma forma benigna em
nome desta ilusão, desta ilusão. Só
estou a constatar é que no nosso tempo a
política que nós temos, descardistas,
liberais e até porque ainda não falamos
nisso, porque ninguém pense que eu acho
que os conservadores não caíram numa
grande crise, eu acho que estão numa
grande crise,
quase tão grande como a crise dos
liberais, que por sua vez é quase tão
grande como a crise da esquerda.Então
>> eu acho que as três grandes famílias
estão numa crise muito profunda, por
isso é que eu acho que nós estamos a
atravessar um um processo de grande
confusão, dissolução das referências
antigas. Eu acho que vem daí.
>> Mas desculpa, deixa-me só interromper-te
rapidamente, porque tu a falar do
nacional socialismo, não é, do nazismo,
eh, se separaste muito os conservadores
do movimento. Eu acho que houve uma
grande parte de pessoas que se
consideravam conservadoras que aderiram
ao movimento.
>> Ah, isso houve, não isso houve, houve.
Mas essa foi a primeira desilusão do
conservadorismo.
>> Depende o que é que faz a entender por
conservadores. Quer dizer, os tipos que
se juntaram na altura, por exemplo, os
militares,
>> evidentemente que os militares na altura
e quando o Hitler chegou ao poder, não,
muitos, a maior parte deles não tinham
nenhuma aspiração revolucionária.
Queriam que a sociedade mais ou menos
regressasse a que tinha sido em 1914
antes do do desastre da guerra, da
derrota, da hiperinflação,
>> de tudo o que aconteceu naqueles anos
>> e juntaram-se ao Hitler. Claro. Agora
fizeram-no muitos por ambição pessoal,
outros por desorientação.
Não fiz, o que eu estou a dizer é que
não houve uma articulação
conservadora de justificação do
nacionalismo. Isso não houve. Eh, como
houve, por exemplo, escardistas que
apoiaram a revolução soviética, não
sendo soviéticos, que acharam que aquilo
era uma parceria que se podia fazer para
a construção depois de uma de uma grande
sociedade global eh comunista. É óbvio
que isto também não foi assim para toda
a esquerda, porque imediatamente quando
a revolução soviética ocorre, eh, os
grandes dos ilustres do movimento
escrití internacional, quase todos eles
alemães, eh, a maior parte deles até vai
ser contra a revolução.
>> Sim, sim, sim. na Áustria, nos
marquistos austros e nos marquis
alemães, a maior parte vai ser contra
revolução, mas há uma ideia de que se
calhar existe esta colaboração que pode
ser feita se ao menos comunistas lá na
União Soviética tivessem outros métodos
não tão violentos
>> e não tão repressivos. Mas se
descontarmos isso, no caso da
articulação da mentalidade conservadora
com os objetos do Nacional Socialismo,
as coisas não são tão assim. Agora,
claro, muitas pessoas que pertenciam,
que votavam nos partidos mais
conservadores, ah, isso juntaram-se ao
Nacional Socialista em Barda, em Barda,
traíram as suas consciências, traíam os
seus princípios e nalguns casos
tornaram-se cúmplice os seus crimes.
Isto não vai voltar.
>> Fazemos aqui uma brevíssima pausa para
falar um bocadinho sobre saúde mental.
Felizmente, nos últimos anos, as pessoas
cuidarem da sua saúde mental têm vindo a
ter um estigma cada vez menor, mas
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voltar para o episódio.
>> Mas estavas a dizer, estamos a ver um
uma nova desilusão do conservadorismo
porque por causa destes movimentos tipo
maga, não é?
>> Sim, sim. É, não, eu acho que o
movimento maga é um sintoma da crise, já
não é não não provocou a crise. Eu acho
que o Maga vem ocupar,
no fundo, é como se tivéssemos chegado a
uma casa em ruínas e há uns tipos que
começam a construir uma casa toda cheia
de curvas e com os tijolos todos em
baixo, todos uma coisa,
>> uma aberração,
>> mas porque a casa já estava em ruínas. A
casa já estava em ruínas e eu acho que é
preciso levar isso a sério.
>> Então o que é que tinha acontecido? O
que é que aconteceu ao conservadorismo
para para a casa ficar assim nesses
estado? Boa pergunta. Eu também tento
tratar isso no livro, enfim, mas não
posso dier a todas agora, não é? Todas
as causas são são longínquas. Em
primeiro lugar, porque parece-me que o
conservadorismo, só queria dar três
causas. Eh, o conservismo
tradicionalista tornou-se totalmente
obsoleto.
Ah, portanto, as grandes raízes
intelectuais que tenham sido consagradas
pelas universidades, pelo canone e de um
conservadorismo tradicionalista no mundo
marcado pela pela pela mudança
incessante,
tornou-se obsoleto, tornou-se uma coisa
ridícula até. Portanto, isso cai
imediatamente a partir do momento em que
o mundo deixa de caminhar uma velocidade
glacial como até o ensino do século XIX.
>> OK? a velocidade da mudança, então
tecnológica, globalização, cultural,
>> toda, tod todas as transformações que
foram muito rápidas e em aceleração.
>> Sim. Sim.
>> Depois, como é que o conservadorismo
tentou corrigir isso logo no século XX,
fazendo uma aliança com o liberalismo,
uma aliança que foi intelectual no mundo
das ideias, mas também política e muito
bem sucedida. Grandes vitórias
eleitorais no mundo inteiro fizeram-se à
conta desta formulação de partidos como
o Partido Conservador em Inglaterra, por
exemplo, ou o partido republicano na
América a partir de bem primeiro do
Berry Gold Water, mas ele depois vão
ganhar as eleições, mas do Reagan mais à
frente, não é?
>> Conservadorismo com o liberalismo
económico, certo?
>> Isso, não é? Essa essa fórmula que
parece ser mágica.
>> Sim. em que no fundo há ali um um
programa que é simultaneamente
conservador e liberal ao mesmo tempo.
Eh, portanto, aquilo parecia
incompatível no século XIX, depois
parece forma uma grande aliança natural.
>> Funciona
>> natural não mais do que funcionar. As
pessoas parece eh julgaram como uma
solução óbvia em política. Não é nada, é
óbvio. Nada é óbvio. Tudo tem que ser
construído e remediado e negociado e
pensado. Mas é tão forte o movimento que
nasce com Vergan, depois contagia toda a
gente, com toda a gente até ao final dos
anos 90 em grande medida
>> ou até 2008, não é? De certa forma. Eu
acho que nessa altura as coisas já
estavam já estavam. Acho que o choque de
2001
e das Torres Gémeas, Torres Gémeas, Sor
Gémeas, acho que começa a abanar essa
essas essas convicções todas. Eh, as
reações sociais à globalização
anteriores até à crise financeira.
Portanto, eu acho que essas coisas já
estavam a desmoronar-se. Mas a partir do
momento em que isso desmorona, o
conservadorismo fica para saber, fica-se
saber para onde é que há, para onde é
que há de ir. Os liberais também,
coitados, ficam nas lonas. Mas os
conservadores perdem muito. Porquê?
Porque eles estavam habituados a
governar e ganhar eleições. Eles eles
eram do liberalismo económico
>> dessa aliança, não é? Dessa aliança em
que não eram puramente liberais, eram no
mercado, nas privatizações, nas reformas
do mercado liberal, mas depois havia uma
agenda conservadora nos valores, uns
mais, outros menos, não importa, mas era
essa grande aliança que parecia ser uma
sínice perfeita e ela estava cheia de
contradições, ela estava cheio de
tensões como estão sempre em política.
inevitável essas tensões e essas
contradições.
>> São já agora, são um bocado as tensões
do CDS aqui desta reta final antes de
desaparecer. Sentia,
>> mas uma escala muito pequenina, não é? É
numa escala muito pequenina quando
falamos em países muito importantes
nestas coisas como a França do galismo,
eh, a América do partido republicano, a
Inglaterra do Partido Conservador, eh, e
outros na Alemanha, na Holanda, eh, na
Suécia, a Itália, até nós começamos a
perceber que o abalar da certeza desta
aliança deixou os conservadores numa
terra de ninguém politicamente, à
procura de outra coisa, porque eles
tinham que ir à procura da coisa, não
eram partidos marginais. Alguns deles
sofrem esta crise intelectual quando
ainda estão no governo, ainda nem sequer
perderam eleições, mas já não tem as
mesmas âncoras, já não tem as mesmas
raízes. E depois só mais uma causa,
enfim, há várias, mas só mais uma causa
que foi muito importante. A dada altura
aparece por causa do do 11 de setembro
aparece uma reconceptualização do
conservadorismo,
eh,
que, enfim, americana na sua origem, mas
que também contagiu muito o debate, os
chamados neoconservadores,
não é? que é uma tentativa também de
refundação do conservadorismo, eh, mas
no contexto geopolítico do do pós- 11 de
setembro
>> são mais nacionalistas do con
>> naquele caso nem eram nacionalistas
porque aquilo era um globalismo
tremendo, era a afirmação da democracia
pelo mundo, que os Estados Unidos tinham
essa missão de levar a democracia pelo
mundo. Famoso discurso de George W.
Bush, que ele diz que estas invações vão
ser levadas a cabo para os muçulmanos,
porque a liberdade é um dom de Deus para
todos os homens, independentemente das
suas crenças e tudo mais. Hum.
E e isto termina tudo num grande
desastre, neoconservadorismo. E,
portanto, até essa tentativa de
refundação, mas desculpa lá, isso parece
muito pouco conservador, um conservador,
pelo menos uma forma,
>> foi muitos conservadores disseram.
>> Pois, a forma como eu entendo é,
imagina, eu sou conservador em relação a
todas as culturas do mundo. Imagina, não
quero que o mirandês morra como não
quero que o bengalês na Índia morra,
percebes? Eu acho que um conservador do
meu tipo quer conservar eh o que cada
lugar tem de especial e hesita muito
perante uma atitude ai não, nós sabemos
melhor do que vocês, por isso vamos aí à
vossa cultura e vocês vão passar a fazer
tudo à nossa maneira.
>> Isso para mim não é conservador. Isso é
progressista. É nós, nós estamos à vossa
frente, estamos temos um nível de
progresso superior e queremos que vocês
vão para esse lugar.
>> E eu, isso foi uma discussão que houve
na altura. Eh, bem, depois do depois de
um desastre que aquilo tudo foi, ainda
mais essa discussão regressou. Eh, e foi
um movimento muito americano e a América
nasce na sua fundação de uma promessa
que os conservadores na América
ritualisticamente
recapitulam de que a América é um farol
de liberdade. Isso tem uma raiz e
teológica até no protestantismo. Enfim,
há várias figuras de dos dos dos
primeiros colonos ainda no século X7 que
vão fugir da das guerras religiosas e da
perseguição religiosa.
Mas o que eles querem não é apenas a
liberdade e a segurança de poderem
adorar Deus como querem. É que eles
estão, eles foram investidos por Deus de
uma missão divina de serem no famoso
sermão do Intrope, a a cidade no topo da
colina, que é uma famosa passagem do do
Evangelho, a a cidade no topo da colina,
uma cidade exemplar. A América iria ser
colonizada longe da corrupção europeia
para ser uma sociedade exemplar. E isso
muito rapidamente se converte no momento
da fundação política dos Estados Unidos,
no final do século XVI, como uma
promessa de que há uma missão que já não
é só religiosa, mas republicana,
eh, na imagem do farol, o farol das
liberdades. Portanto, há a humanidade
vive toda no obscurantismo, nas trevas
da opressão. Não há repúblicas, não há
liberdade dos individuais. E olham para
aquela luz que desponta na América. E
América está lá para cima.
>> Iluminismo, no fundo, não é? uma é uma
manifestação um bocado iluminista.
>> É isso, é verdade, mas neste caso com
uma espécie de evangelismo republicano
que nunca tinha tido tradução política
concreta, porque nunca tinha havido uma
república com aquela projeção.
>> Sim, o aleminismo não era era um bocado
antirreligião, era a ideia era um bocado
fugir dos mitos e ir para a razão. Por
isso, nesse sentido, realmente não é não
é puramente iluminista.
>> Isto é a construção de um outro mito. É
a construção de um mito político e que
conduziu a política americana
>> e em diversas fases da sua vida.
Eh, e portanto quando estes
neoconservadores aparecem, eles
constatam aqui dois problemas. Eh,
primeiro, qual é o estado geopolítico
das coisas mais concentâneo com a
segurança e prosperidade americana? E a
conclusão que eles chegam é melhor
sermos todos democracias, porque se
houver regimes deste tipo, como há no
Iraque ou no Afeganistão ou no Irão,
então o América terá sempre inimigos e
haverá sempre guerras, nós nunca
sairemos daí. Portanto, o melhor, a
melhor política de segurança é nós
democratizarmos aquilo, nem que seja à
força, nem que seja a mocada. Foi uma o
bonito serviço que fizeram, que
prestaram. Eh,
>> mas e o petróleo? Não, isso não eram só
desculpas para ir para poder explorar
estruturais.
>> Não, eram, não, não eram. Havia uma
parte que era verdade,
>> havia uma parte da política americana
que não era neoconserador
especificamente, era uma política
americana de sempre que era ter acesso
às vias de fornecimento de petróleo.
Isso falia para qualquer um, para a
esquerda, para a direita, na América,
não é? Qualquer presidente. Eles
acrescentaram este ponto.
>> Eh, por exemplo, essa política de ter
acesso às às ao abastecimento de
matérias primas que as americanas agora
já não precisam, já têm produzem tant
pessoal, já não precisam. Porto também é
uma coisa do passado, mas até aquela
época podia ser protegido dizendo assim:
"Olha, nós temos aqui uns fascínas,
desde que estes fascínas nos deem
petróleo, eu não quero lá saber se eles
são fascinos ou não, isso só primiu o
próprio povo". Aqui os nossos, os
neoconservadores vão mais longe,
trazendo esta dimensão moralista à
política externa americana, dizendo que
isso é que correspondia
a à verdadeira missão inscrita na
fundação americana. Por isso é que é uma
ideia conservadora para eles, é recordar
as raízes da fundação.
>> OK? mesmo que depois tenha esta esta
consequência
>> que é profundamente revolucionária,
>> chegar a um país e h a bomba dizer agora
vais ter leis democráticas, vais ter um
parlamento e vais ter eleições, mesmo
que esteja tudo em guerra civil, eh,
seitas e religiões e tribos que se
odeiam e que não há mínimas condições
para para formar uma democracia como se
vivéssemos na Suíça ou na Dinamarque,
não é?
Portanto, eles eles aquilo não era só
uma uma espécie de retórica
e mentirosa para justificar ficar lá com
o petróleo que os americanos queriam o
petróleo de do Kuwait e do Iraque. Ah,
isso quiser mas isso se quiseram sempre
com qualquer tipo de orientação política
externa. Sim, já percebi.
>> Ali eles quiseram acrescentar esta
dimensão que justificavam
ideologicamente desta maneira, porque
este neo conservadorismo tinha esta
componente radicalmente evangélica, que
era de levar a liberdade ao mundo
inteiro.
>> Deixa-me só fazer-te uma pergunta. Eu
tenho
>> issoentando isso como só são só para
dizer só para dizer, só para fazer esta
esta conclusão e para não ficar tudo no
ar. Isto é um desastre total, não é?
externa americana no Médio Oriente, as
invasões no Iraque, enfim, a todos os
títulos, um desastre.
>> E deixa o partido republicano num estado
de desorientação total, porque é incapaz
de se desamarrar
do vínculo que tinha este tipo de
política.
>> Irá, e Afeganistão,
>> Iráqu Afeganistão e est sempre a fazer
guerras e invadir e não sei que mais.
>> Em 2015, Obama é presidente, não é?
Portanto, os democratas estão no poder e
os republicanos querem-se reorganizar.
Os os republicanos tinham perdido as
eleições com John Mcinan, que era um
neoconservador. Há tu curre que não há
grandes diferenças, não é?
Eh, e quem perde as primárias
republicanas em 2008
é um homem chamado Mit Romney, que vai
ser depois concorrer contra Obama e
perde para Obama quando a Obama tá a
disputar o segundo mandato. E Romney em
2008 é o primeiro a dizer: "Não, não,
nós temos que nos libertar desta coisa
de ser de ir democratizar o mundo
islâmico e o mundo do meio oriente,
porque nós temos aqui uma concorrência,
ele utiliza a palavra competition, uma
competição com uma superportência
emergente que é a Chena. Portanto, nós
estamos aqui distraídos e o que vai
haver é uma divisão do mundo entre a
China e os Estados Unidos e nós não
estamos preparados para isso. Ele é o
primeiro a levantar esse tema em 2008,
só que perde. Ele perde. Portanto, o
neoc ainda era forte no partido
republicano. Mcin vai a votos. Quando
Romney vai finalmente a votos, passado 4
anos, leva uma tareia do Obão e,
portanto, aquilo fica sem efeito nenhum.
E o que acontece? O partido republicano
fica ali numa terra de ninguém. E quem é
que aparece a primeira vez a dizer
assim: "Este foi o maior erro do partido
republicano, guerras infindáveis. para
ir democratizar, isso é um disparado,
temos que acabar com isso. Trump só que
em 2015 já vi tantas mudanças da
sociedade americana e no próprio partido
republicano amargurado com todas as
derrotas que finalmente o partido
republicano diz assim: "Ah, pois é, é
isso, já tem que se livrar disto, temos
que nos livrar desta
>> tiveram muito tempo fora do poder
>> ao ponto de depois con Trump
>> em 2015 e depois ele ganha em 2016, é o
partido democrata que se torna um
partido intervencionista das ingerências
e da ajuda democrática. O partido
republicano começa a deixar até instalar
muitas correntes internas, como temos
hoje no mágoa, de isolacionismo radical,
que até suspeita das atuais ações de
Trump, sua base elitróicão, mas afinal
de contas, como é que é? Venezuela
suposto em todo lado, eles atacaram o
Irão há
>> agora já perdi um pouco a noção dos do
tema há uns três meses atacar o Irão,
não é? Ao lado de Israel
>> e há muita gente que sair para lá.
Então, mas isto não era suposto nós
saírmos destas embrulhadas?
Há uma parte do do movimento Mag que
olham com suspeita para este tipo de
intervenções que o Trump, apesar de
tudo, e a equipa dele, o Rubio
sobretudo, fazem um tipo de intervenções
diferentes como nós estamos a ver na
Venezuela. Não é chegar lá e mudar o
regime, é fazer ameaças aos tipos que
mandam, tirar de lá um, neste caso duro
e dizer assim: "E agora vocês fazem o
que a gente quer, pode ser? deixas ficar
aí.
>> Pode ser assim, não invadimos o
território,
>> ou seja, aprendendo com as lições
amargas da republicana, mas não deixando
de fazer intervenção. Isto para muita
gente no movimento Maga não é aceitável
porque é uma tensão
e make America Great again é um é um é
um slogan muito mais sobre investir na
indústria americana, investir nos
americanos. Sabes onde é que o slogan
America great again?
>> Não
>> foi inventado pelo Reagan? Reagan.
>> Ah, não fazia,
>> pá. É verdade. Do decadentismo americano
nos anos 70 na era pós-vietnam, pós
Nixon e da degradação das cidades
americanas com o Carter e com aquilo
tudo. Make America Great again é uma
coisa que a equipa do Trump vai roubar à
campanha do primeiro Reagan. E o Reagan
era um bocadinho diferente do Trump. na
abordagem à economia, à globalização,
eh, e à missão que a América tinha de
combater pela liberdade do mundo.
Portanto, há uma espécie de apropriação
com muita eficácia de um slogan que
servia aos republicanos num contexto
muito diferente e que agora é
reinterpretada à luz de
inclinações que existiram sempre no
partido republicano desde que o Lincoln
o formou.
sempre o partido republicano teve
períodos de grande isolacionismo.
Foi sempre assim historicamente depois
do de de Lincoln, os as exceções, mas
não são muitas, os grandes movimentos de
abertura da América para passar a
intervir nos assuntos políticos dos
outros países vem de presidentes
democratas com grande oposição dos dos
republicanos.
os grandes os grandes momentos. O Wilson
e com uma oposição republicana cerrada à
participação da América na Primeira
Guerra Mundial, a vetar a participação
da América na Sociedade das Nações e
depois o o segundo Roosevelt, não é?
Franklin Del Gosevelt que quer levar a
América a
intervir na guerra ao lado da Inglaterra
contra a Alemanha e nunca concebe para
oposição republicana. Só consegue depois
quando eh
>> ataca. Não, a história é me
interessante. O Japão ataca aos Estados
Unidos e a partir daí o Livel tem toda a
licença, atorização, não é? Toda a gente
é pá sim atacar o território americano,
vai território americano, vamos lá ato
deles. Mas depois é o Hitler que 15 dias
depois do ataque a Pearl Harbor ainda
nesse mês de dezembro de 41, declara
guerra aos Estados Unidos.
>> Foi o Hitler que declarou antes foi um
grande favor que o Hitler fez ao
Roosevelt, porque o Roosevelt não
conseguia ter uma maioria política
>> hum
>> que mesmo com o ataque ao Japão permiti
a mobilização do do país ao lado da
Inglaterra contra a Alemanha nazi. O
Hitler faz-lhe esse favor. Então, se
calhar seríamos todos alemães se o
Hitler não tivesse declarado guerra aos
Estados Unidos. Eu acho que era uma
questão de tempo até depois os
americanos eh aparecerem no teatro de
operações na Europa, até porque a guerra
no Pacífico estava muito ligada à guerra
na Europa e e pronto, as as coisas
acabariam por se contagiar uma outra e
depois não nos podemos esquecer, enfim,
também o naquela altura, dezembro de 41
é o momento em que o exército vermelho
consegue travar finalmente a Vermart às
portas de Moscovo. Portanto, há ali um
grande ponto de inflexão na Segunda
Guerra Mundial, que é o dezembro de
1941. Por todas estas razões, os russos
travam finalmente os alemães no inverno,
os japoneses atacam os Estados Unidos e
Hitler declar guerra à Alemanha.
Portanto, ali um grande ponto de
inflexão que se não tivesse chegado em
dezembro
chegaria mais tarde ou mais cedo. Os
americanos também já estavam a abastecer
a União Soviética não conseguia resistir
aos alemães não fosse os abastecimentos
americanos. A Inglaterra muito mais. era
uma questão de tempo.
>> Então, resumindo, o houve uma o
conservadorismo teve que largar o
liberalismo por causa do que aconteceu
em por causa do 11 de setembro e e do
livar a funcionar interior porque porque
o porque o conservador estava estava a
resumir três razões que deste para o
estado de conservadorismo.
>> Então, o colapso intelectual de
obsolescência do conservadorismo
tradicional
>> que se torna uma coisa estética, não é?
>> Sim, sim.
>> Tipo, ah, aquele veste-se como um
conservador.
>> Sim, sim, sim. mais do que isso. Depois
o conservadorismo na sua aliança com o
liberalismo que foi tremendamente bem
sucedido, mas depois vem os problemas
associados à crítica conservadora das
consequências do liberalismo. Eh, não é
só a questão da globalização, é toda a
agenda liberal de emancipação do
indivíduo nas suas múltiplas declinações
que começam a gerar grandes resistências
para os conservadores, como nós estamos
a ver agora.
>> Sim. e até ou até nenhum ninguém que
defenda, por exemplo, a doutrina social
da igreja
é a favor de um tratar trabalhadores
como se fossem inúmeros ou de explorar
crianças no Bangladés para fazer
sapatilhas. Ou seja, há aqui
>> existe existe uma ganância no no
neoliberalismo, se quiseres, para usar
aqui um chavão, que muitas pessoas têm
definições diferentes sobre elas, mas
existe uma ganância que é incompatível,
por exemplo, com a doutrina social da
igreja.
>> E não só não é só a ganância. ganância
existe em tudo, não é, no nos
socialismos
>> tratar mal, não tratar bem as pessoas.
>> O problema, a objeção de fundo da
doutrina social da igreja é eh primeiro
que haja mecanismos económicos e
sociais, instituições que tratem as
pessoas como instrumentos,
desrespeitando a sua dignidade
intrínseca. Exato.
>> E depois, eh, na doutrina social da
igreja também há uma grande consideração
pelos efeitos deletérios do liberalismo
na emancipação do indivíduo enquanto
indivíduo. Para a doutrina social da
igreja, nós não somos indivíduos, somos
pessoas,
seres sociais por natureza que cuja
existência no mundo significa
imediatamente relação com o outro.
>> Exatamente.
>> E o liberalismo tende a analisar-nos
como indivíduos atomizados. Portanto,
>> homoeconómicos, lembras-te aquele
conceito que eu uso?
>> A doutrina nacional da igreja sempre
teve uma reserva de fundo quanto ao
liberalismo. A doutrina social da igreja
foi muito importante na fundação de um
tipo de conservadorismo que nós ainda
não falamos agora eh muito importante na
Europa, sobretudo no pós- Segunda Guerra
Mundial. Antes da Primeira Guerra, antes
da Segunda Guerra Mundial também já era
importante, mas enfim, naquele volta não
foi tudo tão controbado. Mas a seguir a
Segunda Guerra Mundial foi a democracia
cristã.
Em grande a democracia cristã criou a
Europa do pós Segunda Guerra Mundial,
mais do qualquer outra corrente
política, a ideia da comunidade
económica europeia, União Europeia, isso
é tudo são coisas que vêm da democracia
cristã mais do que qualquer outro
partido, muito mais do que a corrente
liberal e muito mais do que a corrente
socialistas que tinham sempre uma grande
suspeita estas coisas.
>> Mas desculpa, o o medo do comunismo e a
pressão feita pelos sindicatos e todo
esse movimento também contribuiu para
que as para que os estados sociais
aparecessem, não é? Ah, não, isso sem
dúvida todo esse tipo de conflito
político, dessas reivindicações, tudo
mais. Agora, a doutrina social da igreja
desde o início que tinha uma vocação
sindical, eu sei que isto agora pode
parecer bizarro, mas muitos dos
sindicatos que havia eh
entre o final do século XIX, depois do
do Papa Leão XI até 1970, eram
sindicados católicos, cristãos, nem
todos católicos, mas são sindicados
cristãos. inspiração cristã
>> e faz todo sentido para quem olha para a
doutrina social da igreja na sua origem.
>> Todo o sentido. Eh,
>> a maior cooperativa da Península
Ibérica, a Mont Dragon, foi fundada por
um padre e é uma é um projeto incrível.
Se nós lmos, por exemplo, quando a
Itália, a democracia italiana é
construída ou fundada a seguir à Segunda
Guerra Mundial, depois do fascismo e vem
a constituição italiana, não é, à volta
dos partidos, aquela coisa da democracia
parlamentar e é a democracia cristã que
vai governar a Itália durante 50 anos,
40 anos.
Eh, uma das coisas que imediatamente se
faz é o código laboral.
Constituição e faz um código laboral e o
código laboral é feito por um homem, não
é ministro do trabalho, depois seria o
primeiro ministro também, uma grande
figura intelectual, um grande professor
eh de
do partido da democracia cristã chamado
Fafani. E esse código laboral é tão
crítico do socialismo como do
capitalismo. É como se o trcional da
igreja tivesse encontrado aquilo que
preguiçosamente podemos chamar uma
espécie de terceira via entre uma coisa
e outra e onde a proteção do trabalhador
era central. Agora era a proteção do
trabalhador e, por exemplo, os seus
interesses familiares, que o trabalhador
não é só trabalhador, é pai, é marido e,
portanto, tem que conciliar e coisas que
tornaram-se tornaram-se uma espécie de
eh chavões que esquerda e direita no
debate público diz agora até a propósito
da reforma do mercado liberal, tem a ver
a conciliência, a conciliação com a
família. Bem, essas preocupações eh
foram sobretudo da democracia cristão,
mais do que das outras orientações que
viam no trabalhador, um agente
revolucionário, eh o homem da formação
do valor económico. Era uma era
realmente uma perspectiva diferente. E
foi muito importante a democracia
cristã. Basta pensares que se tu olhares
para os grandes fundadores da da CEE na
altura, todos eles eram não eram só
cristãos, eram católicos devotos, o de
Gasper, o o Conrad Naurer, etc. eram
homens acreditavam nos milagres.
intervenção de Deus na terra. Sim,
acreditava em milagres. Portanto, não
eram não era só de Lucas chegam à missa,
eh, portanto, pessoas católicas.
O Espa, por exemplo, na Bélgica também
era também era um católico. Eh, e o de
Gol, que não era exatamente democracia
cristã, mas representava uma espécie de
conservadorismo, de inspiração cristã em
França à volta da figura dele, um homem
devoção católica impecável até morrer.
Portanto, há uma grande e influência
cristã da democracia cristã na formação
da Europa, tal como nós a conhecemos.
>> Sim. Era a cultura da Europa. Era essa,
não é? era a Europa, agora era era a
cultura europeia. Agora isso também
acabou. Acabou sobretudo porque, como
estavas a dizer há pouco, eh a
democracia cristã foi politicamente
eficaz e muita coisa, muitos dos seus
podres se foram perdoados eh por do
outro lado da barricada estar o
comunismo, sobretudo a Itália, mas não
só a Itália. Eh, a partir do momento que
o muro de Berlim caiu e nós vemos o
regime Itália cai logo a seguir com a
operação de mãos limpas do juíz e
partido democrática de existir. O
Partido Socialista Italiano, existe um
partido democrata hoje, mas já não é o
Partido Socialista Italiano de
Betinocrácia, a história da corrupção,
aquelas coisas todas. A democracia
cristã deixou de existir e faz sentido
até por esta razão. O continente europeu
descristianizou-se uma velocidade
alucinante a perder dos anos 80. E a
democracia cristã não é possível. Não é
possível sem eh crenças nos dogmas
cristãos, nem vou só dizer nos da Igreja
Católica, também tenho de a ver aí como
houve no passado. Na Alemanha, por
exemplo, a cooperação das igrejas
protestantes para a formação dessa
democracia cristã no partido da CDU, não
é?
Mas não é possível, não é possível
separar as convicções teológicas da
opção política da democracia cristã.
Como as primeiras caíram, a segunda
nunca mais vai voltar. Mas olha que eu
por acaso conheço uma pessoa, só não vou
dizer o nome porque não não se calhar
ela ela não essa pessoa não quer que eu
partilhe isto, mas que não é católico,
não é cristão, mas esteve muito
envolvido no CDS e até chegou a criar
uma lista dentro do CDS porque
identificava eh identificava algumas
destas coisas que estamos a falar,
identificava naqueles valores e naquela
forma de ver o mundo um equilíbrio que
ele acreditava que era a melhor solução
política para um país. Por isso se
calhar é possível mudando o nome mudando
o branding,
>> parece sempre pessoas, não? Tu podes
também encontrar pessoas que pensam
assim ou s que isto são partidos de
governação, nem sequer estou a pensar no
CDS. Partido da democracia cristou um
grande país como Ital durante 40 anos em
interrutamento a tomar grandes decisões,
política externa, política interna.
>> Portanto, isto não é uma questão de
haver uma pessoa ou duas que acham que
isso ainda é possível. Estou a falar de
uma filosofia política de governação e
ela estava alicerçada em valores
teológicos, não estava a ser alicerçada
apenas em proposições racionais, não
estava, é que não estava mesmo. A e
mesmo o CDS, vamos lá ver uma coisa, a
pessoa fundamental da fundação do CDS do
ponto de vista intelectual, nem sequer
fritas do Maral, mas Adelina Mar da
Costa. Adelina Costa era um católico
convicto, pio. Quer dizer, é Adelina Mar
da Costa, as suas convicções são
absolutamente inseparáveis das suas
crenças religiosas. Isso acabou, acabou.
Não existe no atual CDS.
>> Eh, e nem pode existir.
>> Sim,
>> muito menos para organizar uma sociedade
em torno desses princípios. Claro, sim,
já passou esse tempo, mas no fundo eu
acho que muitas pessoas e eu acho que a
maior parte das pessoas são assim,
porque lá está filhos de uma cultura
europeia h concordam com a ideia de de
cada ser humano ser digno, não é? os
direitos humanos vem um bocado aí, a
dignidade do ser humano, a importância
do contexto familiar, ou seja, os
valores da doutrina social da igreja são
praticamente os valores de uma pessoa
moderada contemporânea. Se tirares a os
pozinhos mágicos. Pronto, mas é que se
tu separares as ideias das suas raízes,
elas depois secam, como as plantas,
>> elas secam
>> e podem ser reapropriadas por outros,
mas com outras raízes. E então, a partir
dessa dessa altura, se tu fores examinar
bem, já não são exatamente as mesmas
ideias. A dignidade humana de que fala
do social da igreja não é a mesma que
fala um partido liberal ou um partido
social-democrata. Não é exatamente a
mesma coisa. Ser, ser criada à imagem
semença de Deus não é a mesma coisa que
dizer que todas as pessoas têm os mesmos
direitos.
Claro.
>> E que são merecedoras de respeito e
autoestima. Não é a mesma coisa.
Podes dizer: "Ah, não, mas do ponto de
vista dos tribunais e vai acabar por ser
Nunca é a mesma coisa. Tu cortas as
ideias da sua raiz, podes
transplantá-las para outro solo para
elas não secarem, morrerem." Sim. Sem a
mitologia morre. Sem a mitologia morre.
>> Não lhe chamos a mitologia porque muitas
pessoas disse é a verdade sobre as
coisas. A verdade sobre as coisas, não?
>> Sim. Há muitas mitologias no mundo.
>> Não esqueç mitos. Mitos é uma palavra
grega que vem de que significa uma
história, uma ficção. Não é totalmente
falsa, mas enfim, é uma ficção.
>> E apesar de tudo, para muita gente na
Europa, cada vez menos cristãos, mas por
exemplo cada vez mais muçulmanos, Deus e
a criação de Deus é a coisa mais
verdadeira que existe. Sim,
>> menos fictícia que existe. Eu uso
mitologia, como tu dizavas, o Joseph
Campbell, não sei se sabes quem,
escreveu o poder dos mitos, que é um
livro que eu costumo recomendar,
>> mas eh não é não é de forma é o oposto,
é os mitos são todos importantes. Ou
seja, não é não é dizer que
>> mas quando se diz que os mitos são
importantes, está-se a adotar uma uma
faz uma avaliação instrumental do mito
para um católico, para um muçulmano,
para um judeu. Estás a perceber?
>> Eh, Deus é o princípio e o fim das
coisas. Tudo o resto possas deir é menos
importante. É mesmo a prosperidade, os
sindicatos, a política, a liberdade é
menos importante do que Deus. Nós
perdemos esse horizonte porquê? Porque
nós nos descristianizamos. Mas era o que
eu estava a dizer, na população europeia
há uma parte cada vez maior para quem
isso é permanece a prioridade, que é a
população muçulmana, que pelo contrário,
ao contrário da da população cristã que
se vai abandonando as suas raízes,
população muçulmana por causa até revela
uma tendência contrária, que é
a segunda, terceira geração de
imigrantes de país de pessoas que vieram
nos anos 50, anos 60, a primeira
geração, chamemos assim, para França,
Bélgica, Inglaterra, dos países
muçulmanos, eram menos crentes
do que as segundas e terceiras gerações.
Há um fenómeno de re a segunda e
terceira de quem de país.
>> Vamos ver os paquistanes que foram para
a Inglaterra, os argelinos e marroquinos
que foram para França.
essa primeira geração era eram menos
religiosos,
>> até porque é uma transformação religiosa
que ocorre no mundo, enfim, no mundo não
é os paquistanos não são árabes, nem os
iranos são árabes, mas nem os turcos,
mas enfim, de todo o mundo muçulmano nas
na vizinhança da Europa, há uma grande
reenergização da religiosidade dessas
sociedades a partir dos anos 70, anos
80. Portanto, a primeira geração vem de
sociedades eh muçulmanas muito menos
religiosas e, portanto, chegam aos seus
países de acolhimento com crenças muito
menos inflexíveis. E depois o que
aconteceu dentro da Europa, em resultado
das circunstâncias das pessoas viverem
aqui dentro, mas também do que estava a
acontecer nos seus países de origem, dos
seus pais, dos seus avós, eh
o ressurgimento da devolução religiosa é
muito mais intenso nas segundas e nas
terceiras gerações, quartas. A primeira
vez, a primeira vez que disseste a
frase, acho que diseste menor. Por isso
é que
>> ah, então enganamos. Portanto, agora são
mais religiosos, filhos netos eetos.
>> Segunda e terceira. Sim. A, e também dos
novos imigrantes que vêm dessas
sociedades e, e, e contraste, as
populações que tinham sido
cristinizadas, os nossos avós, os nossos
bisavós, foram abandonando em
larguíssima escala e a uma velocidade
surpreendente.
Eh, portanto, o fenómeno de
secularização que tinha sido
profetizado, que ia acontecer na Europa,
ele ocorreu de facto, mas muito mais
rapidamente do que se tinha suposto.
Isso é uma grande transformação para
nós.
>> Espetáculo. Famos uma hora de
conservadorismo
>> e dava falamos muitas mais.
>> Pois dava. hh mas quero falar um
bocadinho sobre o período de Passos
Coelho.
foste assessor do Pedro Passo Coelho
2011 a 2015 e queria-te perguntar se há
decisões que foram tomadas nesse período
que agora com não é com esta capacidade
milagrosa de olhar para trás e ver o que
aconteceu depois eh sintas que
sintas que se criou um sofrimento
desnecessário às pessoas ou um
sofrimento, uma dificuldade que depois
não compensou o os resultados
económicos. Não, não é uma questão de
sofrimento. Houve muitas decisões
tomadas que foram erradas
e não foi em retrospectiva passado 10 ou
15 anos. Algumas
estavam erradas e para mim eram claras
naquela altura, mas não vou dizer quais
eram.
>> Mas mas e consegues dar exemplo de
algumas medidas que que na altura
provávas, mas que agora vês que causam.
>> Não vou dar nenhum exemplo. Nunca dei
nas entrevistas.
>> Porquê?
>> Eh, chama-se isso, não é? nos na relação
entre o médico e o doente e o psiquiatra
e o doente, há uma espécie de advogado,
cliente, sigilo profissional. Isso é uma
coisa que fica entre mim e a pessoa para
quem eu trabalhei.
>> Por isso,
eh, eu sei o que é que ele pensou sobre
essas coisas, ele sabe o que é que eu
pensei sobre essas coisas e para mim
mais ninguém tem nada a ver com isso.
Não fui eu que tomei as decisões,
portanto eu não tenho deveres de
explicação. Ai, a medida X, não, eu não
vou dizer o que é que é. sei
perfeitamente o que é que foi. Disse na
altura o que tinha a dizer.
Algumas coisas era eu que estava
enganado, noutras acho que eu estava
certo, mas noutras também eu estava
enganado. Ah, mas não vou dizer o que é
que foram.
>> Qual?
>> Porque isso isso abria aqui eh pontos de
controvérsia para pessoas para quem eu
que eu não considero não dou essa sequer
essa dizer essa abébia. Não.
>> Tudo bem. Qual era a sensação de estar a
tomar decisões que potencialmente iam
iam criar mais dificuldades às pessoas,
como tirar o 13º mês, tirar o 14º mês?
>> É a experiência, a experiência de
governar e
um país em circunstâncias
extraordinariamente difíceis eh
carrega aos ombros do decisor uma
responsabilidade sombria, porque a
escolha não é entre o bem e o mal. Isso
é muito fácil. eram também o mal, mas
entre aquilo que é mau e aquilo que é
detestável.
Eh, portanto, tem que se haver uma
ponderação dos males. Isso tem que ser
feito, bem, desde logo, com uma grande
dose de coragem, com uma grande dose de
regramento do caminho que se quer
percorrer. Acho que foi muito importante
isso. Naqueles anos, houve uma pessoa
que percebeu exatamente qual era o
caminho que o país tinha que percorrer,
eh, que se chamava Pedro Passos Coelho.
Ele viu esse caminho com mais clareza do
qualquer outra pessoa, inclusivamente
membros do seu próprio governo. Isso eu
testemunhai. Já nem vou falar de
jornalistas, comentadores e oposição,
que eles estavam completamente às
aranhas e até o presidente da República
da altura. Eh, e ele sabia qual era o
caminho que tinha que se fazer, por
difícil que fosse o caminho, e que era
importante concluir esse caminho. E ele
foi a pessoa em 10 milhões de pessoas
que viu isso com clareza e assumiu essa
responsabilidade sombria pela qual ele
não ficou à espera de agradecimentos nem
de reconhecimento,
mas que define as pessoas que eh que os
políticos que ao assumir essa essa
responsabilidade
eh adquirem
uma espécie de grandeza interior que
este dos outros. Claro que eu não vou
falar sequer de comparar com
circunstâncias ainda mais difíceis que o
nosso país também já atravessou, mas de
outros países em situações de guerras
civis, coisas inacreditáveis, eu não
quero estar na pele de ninguém muito,
nem sequer de conselheiro de uma pessoa
que tem tomar decisões mais drásticas
que bem enfim, não faço a mínima ideia o
que é que o stresse, o nível de pressão,
de desgaste interior de todos eles, os
lens e as pessoas trabalham com ele.
Portanto, apesar de tudo, nós temos que
relativizar a nossa situação. Foi na
altura nos momentos mais duros para o
povo português, mas também para nós
estamos a tomar decisões e que também
fazíamos parte do povo português. Havia
uma espécie de comparação que eu fazia
sempre interiormente. Eh, eu acompanhava
a situação grega todos os dias, todos os
dias. E falava com malta na Grécia para
saber como é que as coisas estavam a
acontecer. Tivemos muitos contactos
sempre com os os governantes gregos da
altura. Hum.
>> Isto em que ano mais ou menos? 2012.
>> Entre 2011 e 2013 14. eh, fazia sempre
isso. Depois a partir de 2015 foi aquilo
a Grécia foi para o Criiza. Sim.
>> E aquilo já não era preciso acompanhar
nada. Nós já tínhamos tido o problema de
assistência, mas enfim, aquilo a Grécia
que depois era uma questão de tempo até
ter que haver um terceiro resgate como
aquele como aquele desastre todo que
aconteceu. Mas eu dizer,
>> o que é que aprendiam? Que informação
era partilhada nessas conversas com a
Grécia? Eh, até 2012 havia uma
particularidade
má para nós, entre 2010,
entre maio de 2010, portanto, ainda com
o governo de Sócrates e,
eh, início de 2013,
a Grécia mostrava a Portugal o que é que
acontecia a Portugal seis meses à
frente.
>> Que sorte para nós. Tínhamos essa, não
é?
>> É sorte quando a gente pode evitar o que
nos vai acontecer, não é?
>> Pois.
Portanto, aquilo servia de sinalização.
Aprendemos com alguns erros que eles
cometeram.
Eh, a Europa toda aprendeu com alguns
erros da Grécia ter sido a primeira a
fazer o programa de assistência.
Portanto, no tratamento que depois deu a
Portugal e a e outros países, como a
Chipre, como a Espanha, teve um programa
diferente, como a Irlanda.
H,
mas havia um acompanhamento do meu lado.
Eh, parte orçamental era óbvio, do
cumprimento do do
morando entendimento grego, mas havia
também para mim um interesse saber o que
é que estava a acontecer politicamente
na sociedade grega. E por isso eu
acompanhei ali e o aparecimento de novos
partidos, ao desaparecimento de partidos
clássicos, eh, e aos dilemas de de
governação que eles enfrentavam. H, e
foi uma grande aprendizagem, mas como o
que a Grécia sofreu foi
incomparavelmente mais duro do que
Portugal sofreu,
acabou por haver essa recompensa
interior também, claro. E que depois
também nós fizemos na campanha eleitoral
uma bandeira que o governo Pedro Pass
Escoo poupou a Portugal o que a Grécia
sofreu e o que a Grécia sofreu é
incomparável com o que Portugal sofreu a
todos os níveis. A todos os níveis. Até
naquele, até daquilo que se discuta
hoje, Grécia teve a aparecer logo a meio
da crise um partido que era nazi.
Atenção, não é como agora se diz
qualquer coisa que a gente não gosta de
extrema direita. Não, não, não, não,
não. A Aurora Dourada era um partido
nazi
sem podor. Eu não estou a dizer isto, eu
detesto utilizar-se essas designações
extrema direita para qualquer coisa que
a gente não gosta. Que eu estou fazer.
Aora dourada, Aurora Dourada era um
partido nazi e apareceu, tinha um grupo
parlamentar grande constituído. Alguns
tipos eram criminosos, pá. eram
criminosos. Eh, portanto, eu vi o
colapso da sociedade grega, do sistema
político grego e, enfim, tivemos que
aprender eleições para garantir que isso
não acontecia em Portugal. E os
portugueses foram todos poupados a isso.
Isso é uma coisa importante, não é? que
tínhamos conseguido fazer de Portugal um
país fabuloso, riquíssimo, não foi nada
disso, mas naquelas circunstâncias o que
estava em jogo era entre uma coisa má e
uma coisa ainda pior.
>> Eu acredito que teria havido crise
financeira sem Sócrates, teria havido eh
austeridade sem Pedro Passos Coelho.
>> É, já tinha havido austeridade começou
com Sócrates.
>> Sim, foi Sócrates que assinou, não é? O
foi memorando de de vários partidos.
Isso. Repara uma coisa, mora em Portugal
é muito curtinha. O orçamento para 2011
feito pelo governo de Sócrates.
>> Sim. Sim.
>> E que o governo Pedro Pescoelho executou
em 2011. Nós executamos isso quando
chegamos ao poder em junho, executamos o
orçamento do Sócrates. Foi feito pelo
Sócrates. Não havia troica, não havia
troica nenhuma, eram os PS. E aí há
corte de pensões e corte de salários.
>> Patro, não era?
>> Não, isso é depois. Isso é o que cai em
abril. Mas aquilo que está refletido no
orçamento para 2011, os cor os primeiros
cortes para austeridade,
eh, é muito antes da troica. Portanto,
austriado começou com com Sócrates e
depois, claro, a negociação do memorando
de entendimento e que daria depois lugar
ao programa de assistência com as metas
orçamentais,
eh, as privatizações,
os cortes, essas coisas todas foram
negociadas exclusivamente pelo governo
de Sócrates. Portanto, sobre isso não há
dúvida nenhuma.
Sim, mas no fundo o que eu estava a
dizer é um bocado em linha com o que
estavas a dizer de a Grécia permitia-nos
ver o que nos ia acontecer mais do que
às vezes evitar.
>> Mas a partir de 2003 isso descolou.
Porquê? Porque contra todas as
expectativas, basta tu ler a imprensa na
altura. Eh, e eu até podia contar a
história, mas era uma história um bocado
longa de como eh eu vi aquilos primeiros
números que me chegaram às mãos. o
crescimento económico em Portugal em
2013, nós tínhamos tido um segundo, um
último trimestre de 2012 muito mal em
termos de crescimento económico de
subida do emprego. Então as pessoas
estavam é pá, isto 2013 até o presidente
da república disse 2013 vai ser uma
desgraça, uma desgraça. Na verdade, o
crescimento económico chegou a Portugal
logo no início de 2013 e nós viramos a
coisa e a partir daí foi tudo mais
fácil, não é? Eh, a Grécia, felizmente
não. A Grécia tem um momento de inflexão
em 2014,
um ano e meio depois, no verão, mas o
governo eh de do Samaras, governo da
nova democracia, não tinha maioria
absoluta no parlamento.
E a o governo Samaras fez uma coisa, uma
aposta política que na Grécia há a o
presidente é eleito pelo parlamento, não
é como cá.
E, portanto, eh, se há um presidente que
falha do partido dominante, aquilo cai.
O o o parlamento tem que haver eleições
novas e haver eleição do presidente no
final de 2014. Toda a gente sabia, não
havia a maioria absoluta, enfim, mandar
aquilo abaixo.
E, portanto, sabia-se que se ia haver
eleições final de 2014 ou princípio de
2015. E o governo de Samaras na altura,
o Samaras era o nome do do
primeiro-ministro e da nova democracia,
ele diz eh eu vou negociar com os
alemães que acabo o morando o programa
de assistência um ano mais cedo do que
tá previsto. Essa ia ser a bandeira dele
da campanha eleitoral. Portanto, isto
vai abaixo, estamos nas lonas, mas isto
está a virar. Houve crescimento pela
primeira vez desde há 3 anos e nós não
vamos prolongar isto indefinidamente. A
gente vai encortar isto um ano.
>> Cortar o sofrimento.
>> Exato. Sair sair da troica, não é? Sair
da troica que era simbolicamente também
uma coisa muito em Portugal e na Grécia
ainda mais.
>> Certo?
E os alemães tiraram-lhe o tapete. E por
isso são coisas que eu não me esqueço do
que
decisões
que a Merkel tomou
estúpidas que deram o poder na Grécia ao
Criiza com o desastre que aconteceu logo
a seguir, agravou ainda mais a citação
grega com problema de assistência até
2017, eh com o sofrimento que isso tudo
acarretou, porque não houve a grandeza
política para perceber que era preciso
salvar aquela situação, permitindo ao
primeiro-ministro dizer assim: "Olha, eu
já tenho o assentimento dos nossos
aliados. Esta portaria um ano mais cedo
a gente acaba isto e não deixaram que
ele fosse para a campo eleitoral com
essa bandeira e perdeu. Houve muitas
coisas destas, muitos episódios destes.
Foi, foram anos muito intensos
>> aqui na Europa toda, em Portugal também,
mas na Europa toda. Eh, e eu tive, por
um lado, a sorte e o privilégio de poder
acompanhar isso tudo até a frente
externa, que foi muito interessante.
muitas coisas que aconteceram,
transformações sociais eh começaram a
ser postas em marcha na sociedade
americana também nos anos Obama, mas eh
na Europa também os problemas franceses,
ingleses começam todos nessa altura, os
problemas que estamos a viver agora.
>> Uhum.
>> Eh, portanto, isso começou tudo a
desenvolver-se uma velocidade muito
muito rápida.
>> Eh, nesse aspecto sem tirar sem tirar
mérito onde ele é devido, nem culpa onde
as coisas possam ter sido mal feitas. H,
e corrija-me se eu estiver errado.
>> O que eu sinto é que, lá está, estes
fenómenos, Portugal é um um aquáriozinho
com dois peixes e estes fenómenos
globais de crise são oceanos, não é?
>> Uhum.
>> E que então todas estas coisas, lá está,
a crise, a austeridade, a recuperação,
acontecem quase apesar do que está a
acontecer dentro do pequeno aquário.
Percebes? É umaão, são nós temos o mundo
tá tão globalizado e e estamos tão
expostos a coisas muito maiores do que
nós que
>> não, mas não, mas espera lá, mas espera
lá, mas há aqui uma grande diferença que
é com a crise financeira eh nós íamos
sempre sofrer um impacto, mas não
precisamos ter sofrido aquele impacto.
Isso é que é a grande diferença. A
questão não é saber se ah eh teríamos
estado aqui a crescer a galope, não.
Isso estava fora de causa. Só que tu não
te esqueces o que é que tinha acontecido
até 2010, 10 anos de estagnação,
alastramento da corrupção, a degradação
da administração pública pelos partidos
políticos, nomeadamente pelo Partido
Socialista e uma estratégia financeira
que foi absolutamente ruinosa para o
país. Eh, tu és muito novinho, mas olha
que eu lembro-me de Sócrates dizer em
2009, 2008, 2009, dizer que Portugal era
o país que ia melhor resistir à crise
financeira. Depois no mundo éramos os
maiores. E porquê? Podíamos gastar a ti
para forra.
Sim, eu sou mais velho do que pareça, eu
lembro-me.
>> Pronto, mas isso foi isso foi isso foi
um desastre e nós não precisamos estar
aqui. O endividamento da banca, eh, o
fechamento da economia portuguesa, que
parece hoje
arqueológica, o fechamento da economia
portuguesa ao exterior. Nós temos um
nível de exportações baixíssimo. Porquê?
Porque nós andamos a alimentar os
setores não travacionáveis da economia
de exploração de rendas, com a ajuda do
Estado, com a conivência de partidos
políticos e de grupos económicos. Isso
tornou a economia portuguesa ultra
vulnerável. O factos que nos ajustar a
isso. Nós e os gregos, atenção, os
gregos também tinham as suas patologias,
por isso é que também tiveram esta
queda. Por alguma razão fomos nós e os
gregos, não foram os outros. Mesmo a
Irlanda, a Irlanda recuperou muito
rapidamente da crise, muito rapidamente.
A economia não era a mesma do que a de
Portugal e da Grécia. E Portugal e a
Grécia fizeram grandes progressos. Ah,
sim. Um dos grandes progressos, qual
foi? Olha, foi ter gerado um consenso de
que acumular dívida pública não é bom.
Em 2008, 9, 10 e 11 não era essa
conversa.
Individamente era necessário e depois
não se paga já pr aumentava divid
nenhum. Os déficits são ótimos porque o
resto era obsessão com o défice como
disse o presidente Jorge Sampaio com o
défic
e PSD pelo menos o PS aí veio a jogo. Aí
foi o PS a ter que ir a jogo com o PSD.
PS tinha outras ideias. As pessoas que
foram ministros do de António Costa e o
próprio António Costa criam a
reestruturação da dívida. Tinha sido um
desastre para nós. Sendo um desastre.
Portanto, não é bem assim. Nós tivemos
que nos ajustar e agora felizmente
estamos não tão bem preparados como eu
gostaria, mas estamos mais bem
preparados do que o grau de
vulnerabilidade a que o país putos
lamento imenso, mas foram os o partido
socialista que tinha governado a maior
parte do tempo. Essa vulnerabilidade nas
instituições, na economia Portugal era
uma das economias mais endivid setor
privado, português era dos mais
endividados no mundo em percentagem do
PIB. O endividamento do setor privado
era maior do que na Grécia. A Grécia um
endevidamento público maior, mas o nosso
setor privado era maior aqui do que na
Grécia. E, portanto, não houve nenhum
cuidado com isso. O o então governador
do Banco de Portugal até 2010, um homem
do PS, Vítor Constâncio, disse que não
fazia mal nenhum os défices astronómicos
da balança corrente que nós estávamos a
acumular. Que todo, quer dizer, as
pessoas, os observadores empresários
diam isto, isto déficade de corrente ano
após ano, mais do que 10% do PIB, isto
vai ser um desastre. E ele diz assim,
não, não é única é uma entrevista
famosa. Ele diz assim, não é só não tem
relevância. Isto era um governador do
Banco de Portugal. Se não tem relevância
nenhuma. Agora com moeda única, isso já
não interessa. Veja bem, isto é palavras
dele, dizê-lo ao jornalista, eh, alguém
quer saber da do défice da balança
corrente do Mississippio, do estado do
Mississippi? Então aqui a Portugal
também não interessa. Portanto, a
inconsciência, obsessões ideológicas, a
corrupção e o abuso de poder que houve
naquela altura. tornaram as
instituições, a economia e a sociedade
portuguesa muito vulneráveis a qualquer
coisa que viesse de fora. Desculpa lá,
eu acho que eu tenho ideia que isso não
era só Portugal. Havia uma cultura
macroeconómica nessa altura
desse desse tipo, de que a dívida que a
dívida não era uma coisa tão
preocupante, que a dívida era uma coisa
para gerir e que e que ia aumentando.
>> Não, isso não é verdade. Isso era uma
coisa que havia por conveniência das
elites em Portugal e na Grécia. O resto
das o resto dos países tinham défices e
dívidas públicas muito mais controladas
do que a nossa. Não havia comparação. E
depois eu estava a falar agora não era
só da dívida pública. Estou-te a dizer
os privados.
>> Portugal tinha uma vulnerabilidade
especial, até mais grave do que a
Grécia,
>> que era a dívida externa. Estás a ver?
Não só a dívida pública, não divida, a
dívida externa.
>> É isso que a perguntar. Por ser externa,
tens menos capacidade de resgatar e de
resolver?
faz faz da maneira que aconteceu, que é
>> aquilo que a economia se chama um sudden
stop. Portanto, se tu tens a economia
ultra endividada como nós tínhamos mais
do que a Grécia, significa que ela só
consegue continuar a funcionar se
tiverem sempre a financiar a tua dívida.
O estrangeiro, porque tu não tens
capitais cá. Só se o estiro titivessem a
financiar. Quando o estrangeiro assim,
para lá, estes gajos já não conseguem
pagar isto. Isto são níveis de dívida
dívida loucos para
>> perdes acesso aos mercados. Certo,
certo. Foi por isso que Itália, foi por
isso que Itália conseguiu recuperar mais
rápido, porque a dívida era, tinha uma
percentagem maior dívida interna a
bancos italianos.
>> Não, a história de Itália, a história de
Itália é diferente. A história de
Itália, também é uma coisa que se
aprende, que aprendi naqueles anos, logo
no início. História de Itália é
diferente. Eh, ao contrário do que se
julga, nós recuperamos muito mais
depressa do que a Itália. Portugal teve
uma recuperação económica muito melhor
que a Itália, incomparavelmente melhor.
Eh, foi um dos grandes trunfos. Porque é
que a Itália não teve um programa de
ajustamento?
Eh, porque eh por duas razões. Em
primeiro lugar, não havia dinheiro para
para fazer um programa de ajustamento à
Itália. Portugal e a Grécia eram
pequeninos e a Irlanda, não é? A Itália
não havia. A Itália não havia. Depois o
choque em Itália ficar depende da da
Alemanha sem governo. A Itália não era
capaz de formar governos. Eram tudo
primeiros ministros que eram nomeados
sem apoio parlamentar.
O Mário Monte é logo o primeiro. Eh, se
ia ser o colapso, portanto, estava toda
a gente cheio de medo fazer uma proposta
como fizemos, como tinham feito a
Portugal e a Grécia e a Irlanda. E
depois, finalmente,
eh,
a Itália
quando em 2012, que é o ano fatídico, o
ano pior daquilo tudo, eh, quando a
Itália parece estar
a ir às cordas,
é aí que um italiano diz: "Bem, eu vou
fazer qualquer coisa em combinação aqui
com os agentes políticos para dizer que
isto, o euro vai ser salvo, custo que
custar".
Portanto, a ação do Banco Central
Europeu tinha teve em mente salvaguardar
um país da União Europeia que foi a
Itália. Itália foi sempre a grande dor
de cabeça. O que é que nós vamos fazer
cair a Itália? Mas agora nós temos um
problema italiano
reavivado, só que já não é Itália
protagonista, mas a França, como a
França está sem liderança política e com
o descontrole das suas finanças públicas
e numa situação de grande fratura
social, o que é que acontece se a França
tiver problemas sérios no seu mercado
obrigacionista?
A França não tem um problema de
endividamento externo como nós tínhamos
e como os gregos tinham, mas tem um
problema muito sério de finanças
públicas e de e de paralisia do sistema
político.
Não há dinheiro para socorrer a França.
Quer dizer, se acontecer alguma coisa à
França, nós estamos num grande seringo.
E lá está, se acontecer alguma coisa à
França, Portugal vai sofrer. Portugal
vai sofrer. Claro que vai sofrer. A
questão é saber se nós estamos hiper
vulneráveis como estávamos em 2010 para
irmos ao fundo ou sofrendo remediados
sobrevivermos sem ao seu externo. Essa
que é a grande diferença.
>> Teria o mesmo impacto que uma crise que
começa nos Estados Unidos? Uma crise
desse tipo em França.
>> Se houvesse uma rotura das finanças
públicas em França, isso comprometia o
próprio projeto europeu. Para nós seria
muito mais grave do que uma crise
financeira nos Estados Unidos.
>> Claro, claro. Sim. Porque uma grande
parte a âncora que mantém as nossas
instituições com uma conduta
minimamente aceitável com uma economia
respeitável como a nossa, essa âncora é
âncora europeia. Portugal deve ter tem
uma espécie de dívida de credibilidade
das suas instituições e do funcionamento
da sua sociedade por pertencer à União
Europeia. Se houvesse uma crise muito
grave em França que pusesse em causa o
projeto europeu, eh os países mais
dependentes dessa ancora europeia seriam
iam sofrer mais, como é evidente, e
Portugal sofreria bastante. Nós estamos
umbilicalmente ligados à União Europeia
e ao sucesso da União Europeia.
>> Sim, sim. Somos muito dependentes.
>> Claro. Em 2011 e 2012, qual foi o a a
grande causa de nós termos rachado
tanto?
Porque se considerou que
talvez Portugal tivesse que sair do euro
como a Grécia, quando se falava para a
Grécia. Se se fala para a Grécia, será
que não se vai pôr o caso a Portugal? E
a partir do momento em que houve dúvidas
em 2011, 2012, acabou em 2011, 2012,
hum, será que eles vão continuar? Essa
dúvida era suficiente para o mundo
inteiro passar a ver o nosso país com
outros olhos.
Se acontecesse uma crise em França que
se tornasse existencial para a Europa,
claro que o mundo inteiro iria olhar
para Portugal com com outros olhos.
Afinal de contas, para lá.
>> Sim, sim.
>> O euro tá quase a acabar. O que é que
vai acontecer esta moedos? Sim, sim.
>> O estado de direito em Portugal, eh, a
viabilidade do sistema democrático em
Portugal,
a grande razão, a razão inicial para nós
querermos pertencer à CE era para
ancorar a nossa democracia quando isto
ainda estava termidar à revolução. Isso
era muito evidente para Mário Soares,
por exemplo, no Partido Socialista. A
razão de que Soares doismo de Soares era
porque só a Europa podia amarrar,
ancorar a democracia portuguesa. Sem
isso, nós íamos para as derivas
comunistas na altura, não é? diarias
comunistas e totalitários ou terceiro
mundistas, como também é o sonho de
fazer aqui uma espécie de regime
terceiro mundista.
Eh, precisamos da âncora europeia e nós
conseguimos e a partir desse momento
tivemos grandes benefícios. Nem tudo
correu bem, mas tivemos grandes
benefícios
e um dos benefícios são imateriais, não
é só o crescimento económico e se temos
subsídios como agora para socorrer as
populações ou para gastar no PRR, que é
dinheiro que nunca mais acaba. Não é só
isso, o funcionamento das nossas
instituições,
ou seja, nós não deterioramos mais as
nossas instituições porque contas e
estamos a vigilância, queremos ser
europeus como os outros, é diferente do
que estarmos sozinhos.
>> Sim, sim. Bem, estamos a chegar aqui à
hora. Eh, tu és religioso ou tens alguma
prática espiritual? Eu
vou dizer o seguinte,
eu fui religioso, mas já não sou
cristão, católico.
>> Católico, sim.
>> OK.
>> Já não sou há muito tempo.
>> E mas hoje em dia és um panteísta? És um
cristão, não praticante?
>> Não. Eh,
>> agnóstico.
>> Eh,
é uma
>> reveste na doutrina social da igreja.
Uma conversa. Não, por acaso eu até em
algumas coisas sou crítico inicial da
igreja, mas
>> eu acho que era outra conversa essa,
porque é um assunto de outro plano. H,
são interpelações e diferentes e que
tocam
noutros cantos da nossa alma, apesar de
todo. Por isso, a minha resposta é: fui
eh filho da Igreja Católica no famoso
conto do Chesterton. Há aquela imagem de
do peixe que morde o anzol, não é? E
portanto é o anzol com uma linha muito
longa. O peixe morde do anzol e anda
pelos oceanos todos por quatro coisas do
mundo, mas está ali amarrado ainda.
Portanto, a igreja vai sempre lá pescar
o peixe, por mais afastado que ele
esteja. Isso é o Chesterton, um grande
homem, um homem santo, um homem
verdadeiramente santo. Eh, o JK Gilbert
Keith Chesterton, um grande escritor do,
enfim, no início do século XX, eh, que
se converteu ao catolicismo e se tornou
um dos seus grandes,
eh, um dos seus grandes arutos. E eu não
sei se se a história do Anzó e da Linha
valem para mim,
mas
do ponto de vista
da da vivência religiosa, sim,
afastando.
>> Tens temos aqui só uma pergunta de
mecenas. hh vou tentar reformular isto
porque tá um bocado agressivo.
Eh, não quero ser rude, mas sentes há
muita gente que diz que eu sou rude, por
isso podes
>> não, mas é um bocado sobre isso. É, hh,
sentes que poderás estar a contribuir
para a polarização hh na forma como
intervens na televisão e na forma como
fazes reels para as redes sociais?
>> Porquê?
Porque é que eu estaria a contribuir com
ação? por estares a maneira como falas
da esquerda, h, e uma atitude estar
constantemente a querer desmascarar a
esquerda. Acho que o compromisso com a
verdade não tem nada a ver com com
polarização.
Eh, o compromisso com verdade é também
uma questão de conduta ética, não é
brincar. Ah, eu posso estar errado em
montes de observações que faço e há
muita gente de certeza que acham que eu
estou errado em observações que faço e
podem falar com liberdade, mas nunca
nunca aconteceu eu ameaçar ninguém de
morte. A mim já me administraram várias
vezes pelas minhas opiniões. Quem é que
pluraliza quem? Afinal acho que isso é
tudo uma conversa que não me interessa.
Eu tenho este estilo de falar, sempre
falei assim. Ainda há pouco estava há
uns dias fui a Stúbal à minha terra a
falar lá numa ocasião e disse isso. Eu
sou como vocês soubalense. A malta em
Balense é um bocado ruda a falar. Ah, e
eu não prcindo disso. Quem não gosta não
veja, enfim, não não ouça as minhas
opiniões.
Só é a minha maneira de falar. Acho que
eu eu respeito e considero
as pessoas com quem debato, mas não
necessariamente as suas ideias. Se suas
ideias forem uma forem mentiras, como eu
às vezes tenho que bater, pessoas estão
a dizer mentiras à minha frente, outras
vezes estão a ser de uma desonestidade
radical, eu tenho que estar a a ser
simpático com isso. Não, lamento. Se as
pessoas chamam de polarização, eu
chamo-lhe um compromisso inabalável com
a verdade, em que eu também estou aberto
a correção. Portanto, eu não estou numa
torre de marfim que eu digo umas bocas e
depois fecho os não. As pessoas
respondem-me. As pessoas respondem-me e
há uns tipos que não gostam de mim e
chamam-me, insultam-me, mas outros que
dizem: "Não, eu também te respeito. Acho
que estás errado." naquilo que estás a
dizer e eu tenho que me aguentar e se
conseguir refutar, se conseguir
repostar, mas também faço fazem-me
pensar. Agora,
eh, nunca insultei ninguém nesses
debates, estou um bocado mais
abrutalhado por dizer as coisas com
frases mais curtas.
Ó pá, se quiserem salamalecos, vejam
outra pessoa qualquer. Não estou a me
chatear com isso. E já tenho, já não
tenho uma certa idade, também já não vou
mudar.
Eh, há muitos comentadores na televisão
e imensos nas redes sociais que são
todos bonitinhos e que falam todos muito
certinho e estão cheios de sorrisos.
>> Obrigado.
>> As pessoas podem, já estava lá ti. As
pessoas podem ver esses, não tem que me
ver a mim, a liberdade para as pessoas
escolherem. Se quiserem escutar alguém
para quem o compromisso com a verdade
neste neste plano de uma espécie de
conduta ética de não aceitar
prostituição intelectual, demagogia
política, sectarismo fanático, isso eu
não aceito.
Então, acho que tenho um dever, daí a
questão da conduta ética, tenho um dever
de expor, de expor a mentira, expor
desciidade intelectual e muitas vezes o
sectarismo partidário. Se as pessoas que
estão tão insatisfeitas com a maneira
como eu falo, acompanhar os debates, eu
peço para fazer este exercício. Posso
fazer este exercício?
Quando estou com um debatente,
eh, as pessoas vejam se eu não começo a
ser agressivo apenas quando há uma
provocação do outro lado. Eu sou sempre
um cordeirinho, começo sempre a falar
como um cordeirinho,
mas depois eu, como nunca fiz fredes
partidários, não é o partido onde eu
milito, nunca fiz.
E pá, lamento se não gosto de debater
com pessoas que fazem do uso do ar
televisivo, do tempo televisivo ou do
tempo radiofónico, tempoístico, uma
permanente propaganda eleitoral. É, pá,
não gosto disso e vou continuar para as
pessoas que não gostam, mas eu vou
continuar a deixar refletir no meu
rosto, nos meus olhos, nos meus gestos,
que não estou a gostar do que estou a
ouvir. Quem não gosta de me ver assim
pode mudar o canal.
>> Muito bem. Defesa feita. Olha, foi muito
bom mesmo. Obrigado. Tens aí, tens alta
memória, tens boa memória, tens noção
disso. Tens aí um memória trabalha-se.
Memória trabalha-se muito. Sabes?
>> Tu treinas, fazes treinos de memória?
>> Não, mas estou sempre a reviver coisas
passadas, a fazer,
>> voltar a estudar coisas, não é?
>> Lim, lê muitos livros que já li.
>> Falas muito também que é a melhor forma
de de fic ensinar coisas, é a melhor
forma de coisas. Ao contrário do que as
pessoas pensam, eu nem gosto muito de
falar,
>> não, mas sou obrigado a falar porque dou
aulas e porque estou nos mídia, não é?
Impossível,
>> mas eu gosto muito de estar em silêncio
e estar sozinho.
Ah,
gosto de estar a escrever na praia,
escrevo muito na praia.
As pessoas não acreditam, pensam que eu
vou para a praia. Não, mas eu escrevo
muito, trabalho muito na praia quando tá
b
>> Pois é, estás sempre com alto bronze
também. Já reparei.
>> É disso, é disso, é disso. As praias
desertas que ainda há aqui não muito
longe de Lisboa, fora da época. Eh,
gosto do silêncio e quando estou sozinho
em silêncio,
estou a recuperar muitas lições que
estou a tentar aprender, ou de
experiências que vivi ou de ideias que
estudei, estou sempre a revivê-las na
minha cabeça. Ah, isso ajuda a manter a
manter esse passado vivo. E olha que
tenho muita pena, acredita, não estou a
dizer isto, só por dizer, tenho muita
pena de de tantas coisas que me esqueci
que considerem importantes. Considero
importantes. Há muitas coisas que eu
tenho con Ah, esqueci-me deste ponto e
daquela ideia e daquele acontecimento e
tenho a certeza que eram importantes
para mim agora.
>> Sim, sim, também tenho muito
>> e não consigo e não as consigo reter.
Portanto, a minha memória não está mal,
mas olha que era bom ser muito melhor.
>> É sempre bem. Obrigado mais uma vez.
Foi, foi muito bom. E vocês em casa, não
fujam já. Eh, se tiverem a ouvir isto
numa plataforma qualquer em que poderem
deixar um um ranking, isso ajuda e é
grátis. HH o Despolarias é um projeto
totalmente independente, não estamos em
nenhuma rádio, nenhum grupo televisivo,
depende do apoio de mecenas. Por isso,
se já tiverem ouvido dois ou três
episódios e isto tiver a trazer algum
valor para a vossa vida, contempl
tornar-se mecenas. E por hoje é tudo.
Muito obrigado.
Ask follow-up questions or revisit key timestamps.
O vídeo é uma entrevista com Miguel Morgado, onde ele discute o conservadorismo, a política portuguesa e internacional, e a sua experiência como assessor político. Morgado explica que o conservadorismo em Portugal se tornou um termo pejorativo devido à hegemonia da esquerda em demonizar tudo o que não fosse de esquerda, incluindo o liberalismo. Ele diferencia o conservadorismo tradicionalista do conservadorismo do futuro, que ele procura defender, com raízes em figuras como Cícero. A conversa aborda também a crise do conservadorismo, a aliança com o liberalismo, o impacto do 11 de setembro e o surgimento dos neoconservadores. Morgado detalha a situação económica de Portugal e Grécia durante a crise financeira, criticando as decisões tomadas e a vulnerabilidade do país. Ele também discute a evolução da esquerda, a influência da doutrina social da igreja na formação da Europa e a importância da âncora europeia para a democracia portuguesa. Por fim, ele defende o seu estilo de comunicação como um compromisso com a verdade, mesmo que seja percebido como polarizador, e reflete sobre a sua relação com a religião e a importância da memória.
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