Miguel Morgado e Tomás Magalhães: A Doutrina Social da Igreja
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Depois o conservadorismo na sua aliança
com o liberalismo foi tremendamente bem
sucedido, mas depois vem os problemas
associados à crítica conservadora das
consequências do liberalismo. Eh, não é
só a questão da globalização, é toda a
agenda liberal de emancipação do
indivíduo nas suas múltiplas declinações
que começam a gerar grandes resistências
para os conservadores, como nós estamos
a ver agora.
>> Sim. e até ou até nenhum ninguém que
defenda, por exemplo, a doutrina social
da igreja
é a favor de um tratar trabalhadores
como se fossem inúmeros ou de explorar
crianças no Bangladés para fazer
sapatilhas. Ou seja, há aqui
>> existe existe uma ganância no no
neoliberalismo, se quiseres, para usar
aqui um chavão, que muitas pessoas têm
definições diferentes sobre elas, mas
existe uma ganância que é incompatível,
por exemplo, com a doutrina social da
igreja.
>> E não só não é só a ganância. ganância
existe em tudo, não é, no nos
socialismos
>> tratar mal, não tratar bem as pessoas.
>> O problema, a objeção de fundo da
doutrina social da igreja é eh primeiro
que haja mecanismos económicos e
sociais, instituições que tratem as
pessoas como instrumentos,
desrespeitando a sua dignidade
intrínseca. Exato.
>> E depois, eh, na doutrina social da
igreja também há uma grande consideração
pelos efeitos deletérios do liberalismo
na emancipação do indivíduo enquanto
indivíduo. Para a doutrina social da
igreja, nós não somos indivíduos, somos
pessoas,
seres sociais por natureza que cuja
existência no mundo significa
imediatamente relação com o outro.
>> Exatamente.
>> E o liberalismo tende a analisar-nos
como indivíduos atomizados. Portanto,
>> homoeconómicos, lembras-te aquele
conceito que eu uso?
>> A doutrina nacional da igreja sempre
teve uma reserva de fundo quanto ao
liberalismo. A doutrina social da igreja
foi muito importante na fundação de um
tipo de conservadorismo que nós ainda
não falamos agora eh muito importante na
Europa, sobretudo no pós- Segunda Guerra
Mundial. Antes da Primeira, antes da
Segunda Guerra Mundial também já era
importante, mas enfim, naquele volta não
foi tudo tão controbado. Mas a seguir a
Segunda Guerra Mundial foi a democracia
cristã.
Em grande a democracia cristã criou a
Europa do pós Segunda Guerra Mundial,
mais do qualquer outra corrente
política, uma ideia da comunidade
económica europeia, União Europeia, isso
é tudo são coisas que vêm da democracia
cristã mais do que qualquer outro
partido, muito mais do que a corrente
liberal e muito mais do que a corrente
socialistas que tinham sempre uma grande
suspeita estas coisas.
>> Mas desculpa, o o medo do comunismo e a
pressão feita pelos sindicatos e todo
esse movimento também contribuiu para
que as para que os estados sociais
aparecessem, não é? Ah, não, isso sem
dúvida todo esse tipo de conflito
político, dessas reivindicações, tudo
mais. Agora, a doutrina social da igreja
desde o início que tinha uma vocação
sindical, eu sei que isto agora pode
parecer bizarro, mas muitos dos
sindicatos que havia eh
entre o final do século XIX, depois do
do Papa Leão XI até 1970, eram
sindicados católicos, cristãos, nem
todos católicos, mas são sindicados
cristãos. inspiração cristã
>> e faz todo sentido para quem olha para a
doutrina social da igreja na sua origem.
>> Todo o sentido. Eh,
>> a maior cooperativa da Península
Ibérica, a Mont Dragon, foi fundada por
um padre e é uma é um projeto incrível.
Se nós lermos, por exemplo, quando a
Itália, a democracia italiana é
construída ou fundada a seguir à Segunda
Guerra Mundial, depois do fascismo e vem
a constituição italiana, não é, à volta
dos partidos, aquela coisa da democracia
parlamentar e é a democracia cristã que
vai governar a Itália durante 50 anos,
40 anos.
Eh, uma das coisas que imediatamente se
faz é o código laboral.
Constituição e faz um código laboral e o
código laboral é feito por um homem, não
é ministro do trabalho, depois seria o
primeiro ministro também, uma grande
figura intelectual, um grande professor
eh de
do partido da democracia cristã chamado
Fafani. E esse código laboral é tão
crítico do socialismo como do
capitalismo. É como se o trcial da
igreja tivesse encontrado aquilo que
preguiçosamente podemos chamar uma
espécie de terceira via entre uma coisa
e outra e onde a proteção do trabalhador
era central. Agora era a proteção do
trabalhador e, por exemplo, os seus
interesses familiares, que o trabalhador
não é só trabalhador, é pai, é marido e,
portanto, tem que conciliar e coisas que
tornaram-se tornaram-se uma espécie de
eh chavões que esquerda e direita no
debate público diz agora até propósito
da reforma do mercado liberal, tem a ver
a conciliência, a conciliação com a
família. Bem, essas preocupações eh
foram sobretudo da democracia cristão,
mais do que das outras orientações que
viam no trabalhador, um agente
revolucionário, eh o homem da formação
do valor económico. Era uma era
realmente uma perspectiva diferente. E
foi muito importante a democracia
cristã. Basta pensares que se tu olhares
para os grandes fundadores da da CEE na
altura, todos eles eram não eram só
cristãos, eram católicos devotos, o de
Gasper, o o Conrad Naurer, etc. eram
homens acreditavam nos milagres.
intervenção de Deus na terra. Sim,
acreditava em milagres. Portanto, não
eram não era só de Lucas chegam à missa,
eh, portanto, pessoas católicas.
O Espa, por exemplo, na Bélgica também
era também era um católico. Eh, e o de
Gol, que não era exatamente democracia
cristã, mas representava uma espécie de
conservadorismo, de inspiração cristã em
França à volta da figura dele, um homem
de devoção católica impecável até
morrer. Portanto, há uma grande e
influência cristã da democracia cristã
na formação da Europa, tal como nós a
conhecemos.
>> Sim. Era a cultura da Europa. Era essa,
não é? era a Europa, agora era era a
cultura europeia. Agora isso também
acabou. Acabou sobretudo porque, como
estavas a dizer há pouco, eh a
democracia cristã foi politicamente
eficaz e muita coisa, muitos dos seus
podres se foram perdoados eh por do
outro lado da barricada estar o
comunismo, sobretudo em Itália, mas não
só a Itália. Eh, a partir do momento que
o muro de Berlim caiu e nós vemos o
regime Itália cai logo a seguir com a
operação de mãos limpas do juiz e o
partido democrática cristão de existir o
partido socialista italiano. Existe um
partido democrata hoje, mas já não é o
Partido Socialista Italiano de
Betinocrácia, a história da corrupção,
aquelas coisas todas. A democracia
cristã deixou de existir e faz sentido
até por esta razão. O continente europeu
descristianizou-se uma velocidade
alucinante a perder dos anos 80. E a
democracia cristã não é possível. Não é
possível sem eh crenças nos dogmas
cristãos, nem vou só dizer dos da Igreja
Católica, também tem a ver aí como houve
no passado, na Alemanha, por exemplo, a
cooperação das igrejas protestantes para
a formação dessa democracia cristã no
partido da CDU, não é?
Mas não é possível, não é possível
separar as convicções teológicas da
opção política da democracia cristã.
Como as primeiras caíram, a segunda
nunca mais vai voltar. Mas olha que eu
por acaso conheço uma pessoa, só não vou
dizer o nome porque não não se calhar
ela ela não essa pessoa não quer que eu
partilhe isto, mas que não é católico,
não é cristão, mas esteve muito
envolvido no CDS e até chegou a criar
uma lista dentro do CDS porque
identificava eh identificava algumas
destas coisas que estamos a falar,
identificava naqueles valores e naquela
forma de ver o mundo um equilíbrio que
ele acreditava que era a melhor solução
política para um país. Por isso se
calhar é possível mudando o nome,
mudando o branding,
>> parece sempre pessoas, não? Tu podes
também encontrar pessoas que pensam
assim ou sado só que isto são partidos
de governação, nem sequer estou a pensar
no CDS. Partido da democracia cristou um
grande país como Ital durante 40 anos
interrutamento a tomar grandes decisões,
política externa, política interna.
>> Portanto, isto não é uma questão de
haver uma pessoa ou duas que acham que
isso ainda é possível. Estou a falar de
uma filosofia política de governação e
ela estava alicerçada em valores
teológicos, não estava a ser alicerçada
apenas em proposições racionais, não
estava, é que não estava mesmo. A, e
mesmo o CDS, vamos lá ver uma coisa, a
pessoa fundamental da fundação do CDS do
ponto de vista intelectual, nem sequer
fritas do Maral, mas Adelina Mar da
Costa. Adelina Costa era um católico
convicto, pio, quer dizer, é Adelina Mar
da Costa, as suas convicções são
absolutamente inseparáveis das suas
crenças religiosas. Isso acabou, acabou.
Não existe no atual CDS.
>> Eh, e nem pode existir.
>> Sim,
>> muito menos para organizar uma sociedade
em torno desses princípios. Claro, sim,
já passou esse tempo, mas no fundo eu
acho que muitas pessoas e eu acho que a
maior parte das pessoas são assim,
porque lá está filhos de uma cultura
europeia h concordam com a ideia de de
cada ser humano ser digno, não é? os
direitos humanos vem um bocado aí, a
dignidade do ser humano, a importância
do contexto familiar, ou seja, os
valores da doutrina social da igreja são
praticamente os valores de uma pessoa
moderada contemporânea. Se tirares a os
pozinhos mágicos. Pronto, mas é que se
tu separares as ideias das suas raízes,
elas depois secam, como as plantas,
>> elas secam
>> e podem ser reapropriadas por outros,
mas com outras raízes. E então, a partir
dessa dessa altura, se tu fores examinar
bem, já não são exatamente as mesmas
ideias. A dignidade humana de que fala
doutrina social da igreja não é a mesma
que fala um partido liberal ou um
partido social-democrata. Não é
exatamente a mesma coisa. Ser, ser
criada à imagem semença de Deus não é a
mesma coisa que dizer que todas as
pessoas têm os mesmos direitos.
Claro.
>> E que são merecedoras de respeito e
autoestima. Não é a mesma coisa. Tu
podes dizer: "Ah, não, mas do ponto de
vista dos tribunais e cois vai acabar
por ser Nunca é a mesma coisa. Tu cortas
as ideias da sua raiz, podes
transplantá-las para outro solo para
elas não secarem, morrerem." Sim. Sem a
mitologia morre. Sem a mitologia morre.
>> Não lhe chamos a mitologia para muitas
pessoas disso é a verdade sobre as
coisas. A verdade útima sobre as coisas.
Há
>> sim. Há muitas mitologias no mundo.
>> Não esqueças que mitos. Mitos é uma
palavra grega que vem de que significa
uma história, uma ficção. Não é
totalmente falsa, mas enfim, é uma
ficção.
>> E apesar de tudo, para muita gente na
Europa, cada vez menos cristãos, mas por
exemplo cada vez mais muçulmanos, Deus e
a criação de Deus é a coisa mais
verdadeira que existe. Menos fictícia
que existe. Eu uso mitologia, como tu
dizavas, o Joseph Campbell, não sei se
sabes quem é, escreveu o poder dos
mitos, que é um livro que eu costumo
recomendar,
>> mas eh não é não é de forma é o oposto,
é os mitos são todos importantes. Ou
seja, não é não é dizer que
>> mas quando se diz que os mitos são
importantes, está-se a adotar uma uma
faz-se uma avaliação instrumental do
mito para um católico, para um
muçulmano, para um judeu. Estás a
perceber?
>> Eh, Deus é o princípio e o fim das
coisas. Tudo o resto possas deir é menos
importante. É mesmo a prosperidade, os
sindicatos, a política, a liberdade é
menos importante do que Deus. Nós
perdemos esse horizonte porquê? Porque
nós nos descristianizamos. Mas era o que
eu estava a dizer, na população europeia
há uma parte cada vez maior para quem
isso é permanece a prioridade, que é a
população muçulmana, que pelo contrário,
ao contrário da da população cristã que
se vai abandonando as suas raízes,
população muçulmana por causa até revela
uma tendência contrária, que é
a segunda, a terceira geração de
imigrantes de país de pessoas que vieram
nos anos 50, anos 60, a primeira
geração, chamemos assim, para França,
Bélgica, Inglaterra, dos países
muçulmanos, eram menos crentes.
do que as segundas, terceiras gerações.
Há um fenómeno de re a segunda e
terceira de quem mudou de país.
>> Vamos ver os paquistaneses que foram
para a Inglaterra, os argelinos e
marroquinos que foram para França.
essa primeira geração era eram menos
religiosos,
>> até porque é uma transformação religiosa
que ocorre no mundo, enfim, no mundo não
é os pakristanos não são árabes, nem os
iranos são árabes, mas nem os turcos,
mas enfim, de todo o mundo muçulmano nas
na vizinhança da Europa, há uma grande
reenergização da religiosidade dessas
sociedades a partir dos anos 70, anos
80. Portanto, a primeira geração vem de
sociedades eh muçulmanas muito menos
religiosas e, portanto, chegam aos seus
países de acolhimento com crenças muito
menos inflexíveis. E depois o que
aconteceu dentro da Europa, em resultado
das circunstâncias das pessoas viverem
aqui dentro, mas também do que estava a
acontecer nos seus países de origem, nos
seus pais, dos seus avós, eh
o ressurgimento da devolução religiosa é
muito mais intenso nas segundas e nas
terceiras gerações, quartas. A primeira
vez, a primeira vez que disseste a
frase, acho que diseste menor, por isso
é que
>> ah, então enganamos. Portanto, agora são
mais religiosos, filhos, netos eetos,
>> segunda e terceira. Ah, e também dos
novos imigrantes que vêm dessas
sociedades e, e, e contraste, as
populações que tinham sido
cristinizadas, os nossos avós, os nossos
bisavós, foram abandonando em
larguíssima escala e a uma velocidade
surpreendente.
Eh, portanto, o fenómeno de
secularização que tinha sido
profetizado, que ia acontecer na Europa,
ele ocorreu de facto, mas muito mais
rapidamente do que se tinha suposto.
Isso é uma grande transformação para
nós.
>> Espetáculo. Estamos uma hora de
conservadorismo
>> e dava falarmos muitas mais.
>> Pois dava.
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O conservadorismo, em aliança com o liberalismo, foi bem-sucedido, mas enfrentou problemas com a crítica conservadora às consequências do liberalismo, como a globalização e a agenda de emancipação individual. A Doutrina Social da Igreja (DSI) critica o neoliberalismo pela ganância e por tratar as pessoas como instrumentos, desrespeitando sua dignidade. A DSI enfatiza que somos seres sociais e que o liberalismo nos vê como indivíduos atomizados. A DSI foi fundamental na fundação de um tipo de conservadorismo europeu pós-Segunda Guerra Mundial, especialmente através da democracia cristã, que influenciou a criação da União Europeia. O medo do comunismo e a pressão sindical também contribuíram para o surgimento dos estados sociais. A DSI teve uma vocação sindical original, com sindicatos cristãos fundados no final do século XIX. Exemplos como a cooperativa Mont Dragon e a fundação da democracia italiana após a Segunda Guerra Mundial demonstram a influência da democracia cristã na criação de códigos laborais que buscavam uma "terceira via" entre socialismo e capitalismo, com foco na proteção do trabalhador e de sua família. Figuras como De Gasperi e Konrad Adenauer, fundadores da CEE, eram católicos devotos. No entanto, a democracia cristã entrou em declínio com a queda do Muro de Berlim e operações como a "Mãos Limpas", além da descristianização da Europa. A DSI argumenta que os valores cristãos, como a dignidade humana baseada na imagem de Deus, são a base de muitas ideias contemporâneas, mas se esses valores forem separados de suas raízes teológicas e mitológicas, eles perdem sua força e podem ser mal interpretados. Observa-se um ressurgimento da religiosidade em populações muçulmanas na Europa, em contraste com a secularização das populações de origem cristã. As segundas e terceiras gerações de imigrantes muçulmanos demonstram uma religiosidade mais intensa do que a primeira geração, enquanto as populações europeias de origem cristã abandonam suas crenças em larga escala.
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