Alexandra Kollontai: A Revolucionária que Libertou o Amor - Café com História - membros
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Bom dia, sejam muito bem-vindos a mais
uma edição do Café com História, que
hoje vai tratar da biografia de
Alessandra Colontai. Eu sou Natália
Viana, gerente comercial de Opera Munde
e em nome da nossa equipe eu quero
agradecer a presença de vocês aqui hoje
e especialmente pelo apoio de vocês.
Opera Mund acredita no poder da
informação como ferramenta de
transformação social e é graças ao apoio
de vocês que nós podemos seguir
produzindo um jornalismo crítico e
combativo e levando a informação cada
dia mais pessoas. Quero agradecer também
a Tapera, Taperá, nossa parceira na
promoção da informação, da cultura e do
conhecimento. E graças a eles, nós
podemos receber vocês aqui todos os
meses para seguir com esse projeto.
Eh, bom, então pra gente começar, vou
passar alguns recadinhos rápidos.
Primeiro queria pedir para todos vocês
colocarem o celular de vocês no
silencioso.
Nosso café vai continuar sendo servido
lá fora. Vocês podem ficar à vontade
para circular, para esticar as pernas
para se servir. Nós temos água lá fora e
também na máquina aqui no no na lateral.
E o banheiro também fica nessa porta
aqui na esquerda de vocês.
Eh, a gente vai começar com o Breno
fazendo a exposição dele e ao final a
gente abre para as perguntas de vocês e
também enviadas pelo público de casa, tá
bom? E o nosso horário limite é às
12:30.
Bom, então vamos começar. Breno, é com
você.
>> Bom dia a todas e todos. Muito obrigado
por estarem aqui. Eu de anemão vou pedir
desculpas porque de vez em quando eu vou
ter que tir porque eu tô em crise
asmática e falar força um pouco. Eu vou
tentar falar devagar para evitar
excessivas tosses, mas não vou conseguir
evitar.
já estrei.
Bom, primeiro,
eh, como sempre, é um prazer, é uma
honra tá aqui com vocês, especialmente
para conversar sobre uma mulher que foi
uma figura absolutamente singular na
história do século XX, que é Alexandra
Colontai,
eh, uma pessoa que teve um destaque
intelectual e prático muito relevante,
especialmente na revolução russa. de
1917,
uma figura emblemática daquele processo,
especialmente na inserção da luta das
mulheres no processo revolucionário que
então teve lugar. Ela não foi somente
uma revolucionária, ela foi uma
pioneira, não é? Foi a primeira mulher a
ser ministra de Estado num governo
socialista. foi a primeira diplomata de
alto escalão, a primeira mulher a ser
embaixadora na história moderna, entre
outros, entre outros feitos. Mas talvez
o mais importante na sua atividade tem
tenha seja o fato de ter sido uma
pensadora muito original, uma militante
incansável e uma das primeiras vozes a
ligar feminismo e socialismo.
Portanto, é essa trajetória que nós
vamos tratar hoje, uma trajetória que é
rica em contradições,
eh, em rupturas e é, portanto, uma
biografia de enorme interesse. O nome de
nascença de Alexandra Colontai não era
Alessandra Colontai, ela se chamava
Alexandra Milovna
Domontovic, esse é seu nome de
nascimento. Ela nasceu em 1872,
em um dia que é fam gerado para nós
brasileiros, porque ela nasceu no dia 31
de março de 1872.
Ela nasceu em São Petersburgo, que então
era a capital do Império Russo. E ela
nasceu no seio de uma família
aristocrática.
O pai dela, eh, Mihil Domontovit, ele
era um general do exército russo, era um
um descendente da nobreza ucraniana e
tinha servido na guerra da Crimeia. Ele
fazia parte, portanto, da elite
imperial, né? A mãe dela, Alexandra
Massalina, era finlandesa.
Ela vinha de uma família camponesa que
tinha enriquecido com o comércio de
madeira.
tinha enriquecido com comércio de
madeira na na
Carélia, que é uma região fronteiriça
entre a Rússia e a Finlândia. Portanto,
uma família muito abastada. Ela era
filha única, nas cresceu num ambiente
extremamente privilegiado, teve acesso a
uma educação esmerada, falava alemão,
francês, inglês e finlandês. Sim, é
possível alguém que não seja finlandês
aprender finlandês, mas é muito difícil,
não é? Se alguém aqui já assistiu série
finlandesa, sabe que nem a palavra
universal quer café em finlandês é café.
Nem Finlândia chama Finlândia em
finlandês, não é? Mas ela falava, entre
outros idiomas, um finlandês. Eh, era
tão privilegiado o ambiente no qual ela
vivia que os pais, ao invés de mandarem
na para uma escola, tinham tutores na
sua casa para evitar qualquer tipo de
relação com pessoas que não pertencessem
a tão alta nobreza, não é? E ela, nesse
ambiente privilegiado, ela teve acesso à
música, literatura, filosofia. Apesar do
pai dela ser um homem da da elite
imperial, ele era um homem eh segundo as
descrições da própria Alessandra
Colontai, ele era um homem progressista,
um homem iluminista, que gostava muito
das artes e que tinha sobre a filha
tinha com a filha uma boa relação, eh, e
uma relação de abrir portas pro
conhecimento do mundo.
desde muito jovem, ela percebia o
contraste, no entanto, entre o luxo da
sua casa e a miséria dos serviçais, das
camponesas, das operárias que cruzavam
o seu caminho.
Ela própria disse que na adolescência
ela sentia vergonha da sua posição
social.
Eh, e ela tentava entender
quais eram as razões de tanta
desigualdade, de tanta injustiça.
Na sua autobiografia precoce, que ela
escreve em 1926,
eh,
ela entende que já naquela época o
fermento revolucionário
já existia
nela. eh, embora fosse silencioso,
embora não tivesse
uma consequência racional ou um vínculo
militante, ela era uma jovem aristocrata
com preocupações sociais,
que nem a Necaubo assim.
Aos 20 anos, ela se casou com um
engenheiro,
um engenheiro da mesma classe social.
Ele se chamava Vladimir Colontai e é,
portanto, do casamento que vem o seu
nome e ela passa a se chamar Alexandra
Colontai. Com esse engenheiro, ela teve
um filho,
mas o casamento, mesmo com um homem
progressista, esse engenheiro era uma
figura que ela tinha bastante admiração
por ele e manteve essa admiração ao
longo de toda a vida, mesmo mesmo com
homem progressista. O casamento foi para
ela um desastre. Ela se sentia presa,
entediada,
impotente na função
eh que cabia as mulheres aristocratas
na sociedade russa do século XIX.
Ela se sentia aprisionada a um papel
social que lhe provocava, mais que tudo,
tédio.
E, por provocar tédio, muita irritação.
E o casamento rapidamente se desfez.
ela logo se separaria desse engenheiro
Vladimir Colontai. Nesse momento em que
ela se sente entediada, ela começa a
amadurecer suas concepções políticas.
Nós estamos falando dos anos 1890.
E ela começa a trabalhar
em sociedades de difusão cultural.
Eram sociedades que eram criadas muitas
vezes por aristocratas. progressistas
como a própria Colontai,
[Música]
perdão,
eh,
para distribuir material didático
nas escolas pobres, para atender grupos
mais vulneráveis com algum tipo de
atividade cultural, com algum tipo de
entretenimento.
Essa era uma atividade comum que atraía
as pessoas progressistas, as altas
classes com uma inclinação mais
progressista. Mas também essa sociedade
serviam de fachada paraas organizações
clandestinas que lutavam contra o
tsarismo.
Essas organizações muito perseguidas,
elas faziam entrismo nessa sociedade de
difusão cultural para proteger sua
atividade militante e poder desenvolver
em nome dessa sociedade de difusão
cultural um trabalho junto aos
operários, junto aos camponeses ou até
mesmo para ter condições de entrar nos
presídios e conversar com os presos, com
os militantes que estavam presos e
condenados nas prisões.
eh tesaristas.
Alessandra Colontaio, atuando nessa
sociedade de difusão cultural, ela passa
a ter contato com os operários de São
Petersburgo, passa a observar
de uma forma mais constante as duras
condições de exploração nas fábricas de
São Petersburgo e ela vai desenvolvendo
a sua crítica social. Nesse momento ela
tava longe de ser uma marxista, nãoé? Ao
contrário, ela ela sentia-se ela se
sentia mais simpática aos narodnik, que
é a palavra em russo pros populistas.
O Partido Populista era um partido que
acreditava que os camponeses libertariam
a Rússia doarismo. E o método que os
Narodanik empregavam era o método do
terrorismo, ou seja, o método de
atentados individuais contra autos
hierarcas do regime tsarista. O próprio
irmão de Lenin, que também se chamava
Alexander e que foi executado por uma
tentativa de assassinato do Tsar, era
filiado ao partido Narodnik
e havia no seio
da resistência antidissa uma profunda
divisão entre os Narodnik e os
marxistas.
Alexandra Colontai, no início dessas
suas atividades, ela tem um contato, uma
proximidade, uma simpatia maior pelos
Narodonic, que naquele momento
eram a principal corrente da resistência
eh antidisarista.
Um episódio eh seria definitivo na
conversão militante
de Alexandra Colontai, uma greve de
40.000 trabalhadores testeis. de São
Petersburgo, ocorrida em 1896. Nessa
greve, ela faz contato com uma outra
mulher, uma mulher que cujo nome
atualmente é esquecido na história, mas
é um personagem decisivo na história do
partido Bolchevique, que chamava Helena
Staçova. Helena Estassova era a única
membra do Comitê Central, mulher membra
do Comitê Central na revolução de 1917.
Foi uma bolchevique de primeira hora foi
fundadora do Partido Operário
Social-Democrata Russo junto com Lenin e
outros em 1898
quando rompe o partido, o Partido
Operário Socialdemocrata Russo entre
Bolcheviques e Menchevic. Estassaçova
fica ao lado dos bolcheviques.
Ela eh até os anos 20 será uma figura
muito relevante do partido bolchevi que
depois perderia protagonismo, mas ela é
uma figura decisiva na atração
de Alexandra Colontai paraa militância
política e para o Partido Operário
Social-democrata Russo. Sim, para o
campo do marxismo. Estas era já uma
marxista e ela é quem atrairia Alexander
Colontai para o Partido Operário
Social-Democrata Russo, que nesse
momento era o partido do campo marxista.
Nesse processo em que ela vai se
convertendo em militante, a Alexandra
Colontais se separa. Ela deixa o marido
e o filho para estudar a economia na
Suíça,
o que causou um enorme escândalo
familiar e uma repercussão desfavorável
à sua imagem nos círculos da sua no qual
ela tinha eh no nos círculos nos quais
ela convivia. Ela foi estudar eh na
universidade em Zurique, que era um
grande centro intelectual da esquerda
europeia naquele momento. Foi uma
decisão duríssima que ela nos seus
textos autobiográficos nunca romantizou.
Era uma ruptura
com o filho, que isso provocava muita
dor a ela, mas ela acreditava que acima
da família, da sua própria família,
estava um dever dela com a humanidade e
ela precisava se preparar para cumprir
esse dever. Ela já tava tomada pela
febre militante do início do século XX,
que seria, especialmente na Rússia, um
turbilhão, não é? Um tsunami que
atrairia milhares e milhares de jovens,
de homens e mulheres. Na Suíça, que ela
vai ter contato com a obra de Marx, de
Engels, de Bebel e de outras grandes
figuras do pensamento socialista. E ela
vai se embrenhar nas discussões sobre
socialismo e já começaria a discutir as
questões eh femininas. Lembremos que
naquele momento havia já emergido com
bastante força, eh, especialmente nos
países europeus ocidentais,
eh, os primeiros
momentos do que viria ser chamado de
movimento feminista, o movimento
sufragista já começa a surgir. E ela
olha para este movimento de forma muito
crítica,
de forma muito crítica. Ela não
concordava
que a questão da emancipação das
mulheres
pudesse ser resolvida através de
reformas liberais que afetassem pura ou
principalmente a representatividade das
mulheres no ambiente da política ou no
ambiente do trabalho. Ela considerava
que os interesses
de classe deveriam guiar o novo
feminismo e que, portanto, um pensamento
de esquerda sobre a questão feminina
tinha que ser um pensamento sobre as
mulheres proletárias.
E esse vínculo de classe ao feminismo
seria uma marca do seu pensamento ao
longo de toda a vida. Ela não era uma
amiga das sufragistas, ela era uma
crítica duríssima
àquele setor que hoje a gente chamaria
de feminismo liberal.
[Música]
Eh,
estando na Suíça, ela vai se envolver
num debate que divide o campo marxista
na Europa. Naquele momento, final do
século XIX, os marxistas se dividem
a partir da de uma crise no Partido
Social-Democrata alemão. Os marxistas se
dividem entre revolucionários e
reformistas.
Um grande dirigente do Partido Operário
Socialdemocrata alemão chamado Edward
Bernstein
desenvolve uma tese de que naquelas
condições do final do século XIX, em que
o SPD havia conquistado legalidade,
em que a classe trabalhadora havia se
transformado na principal classe nos
países capitalistas desenvolvidos,
especialmente na Alemanha, seria
possível chegar ao socialismo sem
revolução?
A revolução já não era mais uma
necessidade histórica. seria possível,
através de reformas graduais transitar
do capitalismo pro socialismo. Com esse
pensamento, Eduardo Eduard Bernstein vai
criar a ala reformista do marxismo, que
se contrapunha a ala revolucionária que
considerava que essa transição dependia
de uma revolução. Do outro lado,
defendendo a ala revolucionária, estavam
nesse momento juntos líderes alemã
alemães como K. Kautsk, mas também os
jovens dirigentes do Partido Operário
Social-Democrata Russo, como Plehanov,
Lenin
e Colontai, ela vai
[Música]
ela vai se vincular
eh à ala revolucionária
dos marxistas. da Suíça, ela vai paraa
Inglaterra, disposta a estudar o
movimento operário inglês, que naquele
momento é o principal setor do movimento
operário europeu.
Ela chega a ter contatos
no Reino Unido com figuras expressivas
do que era o marxismo reformista,
como Beatriz Web, de quem ela se faz
muito amiga. Mas ela na Inglaterra mesmo
ela se convence de que a opção
reformista eh apresentada por Bernstein
e seus seguidores não levaria a lugar
algum, que somente seria possível romper
com as amarras do capitalismo através de
um processo revolucionário.
Ela volta a Rússia
e ela volta a Rússia como marxista e
como marxista revolucionária e volta a
Rússia militando no Partido Operário
Socialdemocrata Russo. Nesse momento,
ela já atua junto às mulheres operárias,
organiza reuniões clandestinas, escreve
panfletos, dá aulas noturnas em bairros
operários. ela tinha se transformado
numa agitadora marxista, numa
propagandista marxista
num ambiente, recordemos o que há pouco
eu me referi, num ambiente no qual
marxistas e populistas se enfrentavam
sobre a tática a seguir contra o
tsarismo.
Na Rússia havia uma tripla luta interna
quando ela retorna, a velha luta entre
marxistas e populistas,
a luta que cuja centralidade era na
Europa entre reformistas e
revolucionários
e no seio do Partido Operário
Socialdemocrata Russo, essa luta entre
reformistas e revolucionários se
transformaria na luta entre o marxismo
revolucionário liderado por Pranov e
Lenin contra o chamado marxismo legal,
que era inspirado por Bernstein e que na
Rússia
tinha como seu principal porta-voz um
cidadão chamado Struve.
O marxismo legal não apenas defendia
a tese de Bernstein de que a transição
do capitalismo ao socialismo poderia
ocorrer sem revolução, como defendia que
a derrubada
da autocracia tsarista
poderia ser processada
desde dentro das instituições do
tsarismo, sem a necessidade de uma
rebelião ou de uma insurreição.
ao contrário do que defendia o Partido
Operário Socialdemocrata Russo. Esse
campo do marxismo legal na na Rússia, ao
longo do tempo, ele ia se deslocando
cada vez mais à direita até se vincular
a a burguesia liberal russa, um processo
semelhante ao de Fernando Henrique
Cardoso,
não é? seja, começa no campo do marxismo
e transita
até se transformar numa espécie de braço
esquerdo da burguesia da burguesia eh
liberal, não é?
Eh, Colontai
tinha retornado em 1898, 1899 à Rússia,
volta pro exterior em 1901 e aí ela vai
morar em Genebra.
O ambiente na Rússia era um ambiente
muito tenso, de muita perseguição. E,
portanto, era normal, especialmente para
aqueles militantes que tinham mais
recursos financeiros, era normal entrar
e sair do país. Aqueles militantes com
menos recursos tinham mais dificuldades
de buscar o exílio. Colontai volta ao
exterior em 1901. Ela vai morar em
Genebra. Em Genebra, ela colabora
pessoalmente com Rosa Luxemburgo, com K.
Kautsk com Paulafarg e com Georg Pleanov
que tinha sido o grande fundador do
Partido Operário Social Democrata Russo.
Ela tinha o nome de guerra, alguns
textos dela, ela assina com esse nome de
Helena Astuta. Astuta não é uma tradução
portuguesa, é só um nome em russo mesmo,
coincidentemente,
não? E ela publica em 1903 o seu
primeiro livro, um livro sobre a vida
dos operários finlandeses. Ela tinha,
por conta da mãe, muita relação com a
Finlândia e o primeiro estudo marxista
que ela faria seria tentar eh explicar,
denunciar, apresentar como é que era a
vida da classe operária na Finlândia. Em
em 1903 mesmo ela retorna à Rússia
numa época, no verão de 1903, na qual
eclodiam revoltas camponesas e greves
operárias. Era uma onda de mobilização
antiisarista muito relevante.
Começava uma bat a batalha de vida ou
morte entre a revolução e a autocracia
tista.
Quando ela regressa à Rússia em 1903,
havia outra outro conflito interno no
Partido Operário Social-democrata Russo,
que era o confronto entre os
Bolcheviques e os Menchevicus, já havia
ocorrido a divisão do partido.
A princípio, Colontai não adere a
nenhuma das alas,
colabora com as duas, mas ela
gradualmente vai se aproximando das
teses de Lening.
No entanto, ela se separaria dos
bolcheviques
em 1906.
Por que que ela se separa dos bolchevics
em 1906? porque ela não concorda com as
posições boicotistas sobre a
participação na primeira duma e sobre a
posição dos bolcheviques acerca do papel
dos sindicatos.
Que momento que é esse
em que ela discorda dessas posições? Em
1905
ocorre
a primeira tentativa revolucionária na
Rússia,
janeiro de 1905.
Essa tentativa revolucionária é
frustrada, ela é derrotada.
Colotai participa da revolução em 1905
como uma agitadora, como uma
organizadora de greves
para aplacar a revolução derrotada
por via repressiva, mas para aplacar as
forças que impulsionavam a revolução.
Futsar lança uma série de reformas
liberais, como a criação de um
parlamento, a Duma, a adoção de certas
liberdades civis e o compromisso de não
aprovar leis sem o aval desse
parlamento.
Há um plano de reformas.
Quando é criada essa duma, há uma
divisão, ou melhor, a divisão no
partido, no partido operário
socialdemocrata russo se aprofunda. Os
mencheviques são favoráveis a participar
das eleições. Os bolcheviques denunciam
as eleições como uma manobra e propõe o
boicote às eleições.
Essas reformas liberais também criaram
sindicatos controlados pelo Estado. A
posição dos Mencheviques foi atuar
nesses sindicatos e a posição dos
bolcheviques foi recusar esses
sindicatos e criar estruturas sindicais
autônomas.
Nesse processo, Colontai
fica ao lado dos Menchevics e ela se
ficaria vinculada aos Mancheviques por
quase 10 anos, de 1906
até 1900
eh 15.
Logo em seguida a esse debate
sobre as reformas liberais,
a a história acabaria dando razão a Lene
e seus seguidores. No ano seguinte, em
1907, o tsarismo desencadeou uma
tremenda onda repressiva, fechando
aqueles espaços que no ano anterior
tinham sido abertos para aplacar a
dinâmica revolucionária. Colontai fugiu.
Ela seelou na Alemanha, depois ela foi
paraa Suécia e até nos Estados Unidos
[Música]
ela viveu um tempo. Ela ficaria
eh cerca de 10 anos no exílio.
Foi nesse período que ela amadurece
intelectualmente. Ela publica dezenas de
artigos e livros. O mais importante
deles nesse período, em 1909,
se chama Bases Sociais da questão
feminina.
É um texto no qual ela investiga as
origens dos mecanismos de opressão das
mulheres a partir das sociedades de
classes e do desenvolvimento
capitalista.
a partir de anotações de outros autores,
inclusive o próprio Frederick Engels,
ela vincula
a opressão das mulheres ao surgimento da
sociedade de classes e, portanto,
vincula a superação da opressão das
mulheres à superação da sociedade de
classes.
Ela também desenvolve no âmbito do
debate sobre a questão feminina a
crítica à hipocrisia sexual burguesa, ao
casamento por interesse, o celibato
imposto, o amor comercializado e assim
por diante. Lembremos o que que era
aquela época,
onde especialmente nas elites da onde
vinha Colontai, a maior parte dos
casamentos eram arranjos econômicos.
Vamos nos recordar que o patriarcado se
manifestava
como um contrato pelo qual o pai
entregava uma filha a se casar a partir
de negociações com com um outro pai ou
diretamente com um noivo que interessava
as economicamente a família ou qualquer
outro tipo de interesse,
né? ela começa a ser uma crítica dura
dessas relações
eh
na sociedade
aristocrática e na sociedade burguesa.
Nesta época, ela se aproxima
ainda mais de Rosa Luxemburgo e passa a
estabelecer uma relação de muita amizade
também com uma figura
igualmente relevante na luta socialista
e feminista que é Clara Zkin.
No exterior, ela participa de congressos
da Segunda Internacional e vai se
radicalizando, ela vai se afastando dos
Mencheviques e ela vai se integrando na
Europa chamada
esquerda de Zimmerwald.
A esquerda de Zimmerald tem a ver com a
conferência de Zimmerald que se realiza
em 1915. O grande debate é o que a
social-democracia deveria fazer diante
da guerra. O movimento social-democrata,
o campo marxista se divide diante da
Primeira Guerra com a ala direita da
socialdemocracia,
defendendo
cada, em cada sessão nacional a sua
própria burguesia contra as demais
burguesias em guerra, ou seja, a
socialdemocracia alemã defendendo a
Alemanha na guerra contra o Reino Unido
e a França, a social-democracia francesa
fazendo o mesmo em relação à França
contra a Alemanha e assim por diante.
Enquanto a ala esquerda da
socialdemocracia, nesse momento já
liderada por Lenin, propunha a
transformação da guerra numa em
revolução e, portanto, a derrota das
burguesias
a partir do slogan guerra à guerra.
É nesse contexto que Colontai vai se
afastando dos Mencheviques e se
aproximando
dos Bolcheviques novamente.
Em março de 1917, com a queda do Tar
Nicolau II, Alexandra volta à Rússia
depois de quase uma década no exílio.
Ela chegou no meio de um turbilhão
político e social. O governo provisório
tentava manter o país unido enquanto
crescia o poder do Sovets, especialmente
em Petrogrado. São Petersburgo já se
chamava Petrogrado desde 1914.
E Alexandra Colontai rapidamente se
destaca nas lutas entre a revolução de
fevereiro e a revolução
de outubro. Ela foi a primeira mulher
eleita pro comitê executivo do Sóvet de
Petrogrado.
E logo em seguida a primeira mulher
eleita no comitê executivo do Soviet
Panruso, ou seja, o Soviet Rúsias. Ela
já era então uma militante bolchevique e
uma figura de destaque, talvez a
principal figura feminina de destaque no
processo revolucionário que levaria a
vitória de outubro. Ela participava das
discussões mais importantes sobre o
futuro da revolução, organizava
assembleias, especialmente de mulheres
trabalhadoras e camponesas, eh, e vai
ascendendo na liderança do partido, do
partido Bolevique, vai se transformando
depois, imediatamente depois da
revolução, ela já é eleita pro comitê
central do partido bolchevique e se
transforma numa das figuras de maior
peso naquela organização.
O calor da revolução de outubro em que
os bolcheviques tomam o poder. Colontai
foi nomeada comissária do povo para o
bem-estar social. Um cargo que ela
ocupou por um período muito curto, a de
novembro de 1917 pelo nosso calendário
até março de 1918.
Eh, ela renuncia
ao cargo de comissária do povo para o
bem-estar social porque ela não estava
de acordo com a política de Lenin na paz
de Brestlitovsk.
O que que é a paz de Brestlitovski?
São as negociações entre a Rússia
revolucionária e a Alemanha e o império
prsiano. No meio ainda da Primeira
Guerra Mundial, a Alemanha fazia uma
série de exigências territoriais,
brutais exigências territoriais. para
assinar um acordo de paz com a Rússia
revolucionária. Lembrando sempre que uma
das bandeiras da revolução era a paz. E
Lenin é favorável a ceder as exigências
da Alemanha, o que implicava em perder,
repito, grandes porções territoriais.
uma parte do partido bolchevique, sua
chamada ala esquerda, não aceitava essas
concessões.
Mas Lenin, embora minoritário no início,
transforma-se em majoritário e a paz é
assinada em Brlitovski.
E essa assinatura provoca a queda de
vários
ministros. Primeiro, o partido bolchim
passa a governar sozinho. O outro
partido que compunha o governo, que eram
socialistas revolucionários de esquerda,
rompem com o governo em função da da paz
de Brlitovski. Trotsk, que era o
chanceler e que também não concordava
com a paz de Brlitovski, se demite da
chancelaria. E Colontai, que tampouco
concordava com o acordo de paz, sai da
do comissariado do povo eh por bem-estar
social. Ela é substituída por um cidadão
chamado Alexander Vinucurov, que daria
continuidade às políticas elaboradas por
Alessandra Colontai
naqueles poucos meses de gestão,
lembrando que ela foi a primeira mulher
no mundo a ocupar um cargo ministerial
e levou a sério sua missão. promover uma
verdadeira transformação social,
especialmente na vida das mulheres.
Entre as medidas que ela propõe no
Comissariado do Povo por Bem-estar
Social, a gente pode destacar cinco.
Primeiro, legalizar o aborto, o que
ocorreria em 1920. Segundo, garantir
creches e lavanderias coletivas,
libertar as mulheres do trabalho
doméstico a partir da criação de uma
infraestrutura pública que tornasse a
vida doméstica mais leve, libertando as
mulheres para outras atividades, entre
as quais o estudo, o trabalho e a
militância política. Terceiro, facilitar
ao extremo o divórcio.
O ao extremo o divórcio,
nãoé? Especialmente garantindo à
mulheres o direito de se divorciar de
forma quase automática
e unilateral.
Até então isso não existia. As mulheres
não tinham o direito de se divorciar.
Quatro. Ela criou várias leis de
proteção ao trabalho feminino. Lembremos
que a primeira constituição da Rússia
revolucionária já falava em trabalho
igual, salário igual para trabalho
igual.
E cinco, garantir a igualdade legal
entre homens e mulheres, o que não
existia na Rússia tsarista. Aliás,
naquele momento não existia em nenhum
canto do mundo, nem direito a voto as
mulheres tinham. o primeiro país no qual
será
concedido à mulheres o direito a voto é
na Rússia revolucionária.
Então, ela vai eh construir esse
programa, que era um programa conforme
ela havia defendido nos anos anteriores,
que buscavam
mais do que
estabelecer direitos formais iguais
entre mulheres e homens, garantir
medidas concretas, políticas públicas,
como nós chamaríamos hoje, que
libertassem as mulheres
das diversas cade cadeias opressivas
eh do patriarcado.
O casamento tal como ele era estruturado
era uma, mas fundamentalmente
o trabalho doméstico,
libertar as mulheres do trabalho
doméstico,
não a partir de uma lógica
que ela criticava. É curioso porque vão
ter, a gente vai ler texto da Colontai,
em que ela dizia: "O problema do
trabalho doméstico não é um problema da
repartição
entre
o que faz a mulher e o que faz o homem
dentro de casa. Isso é uma visão
burguesa da solução do trabalho
doméstico."
Qual é, qual é a diferença se as
mulheres deixarem de fazer parte do
trabalho doméstico para um homem também
fazer? continuarão ambos escravos da
dominação capitalista e da reprodução da
força de trabalho não remunerada.
A única forma de resolver isso é o
Estado provê uma estrutura
pela qual o trabalho doméstico da mulher
ou do homem, claro que da mulher, porque
ela que desempenhava esse papel, mas no
qual o trabalho doméstico se
transformasse numa tarefa social.
tivesse uma estrutura social.
Essa essas políticas de Colontai,
perdão, embora
ela tivesse sido comissária do povo para
o bem-estar social por pouco tempo,
essas políticas de Colontai seriam uma
marca do governo Bolchevig. A gente pode
ver historicamente
que as medidas então tomadas
no rumo de emancipação das mulheres são
medidas
são medidas foram tomadas há mais de 100
anos, não é? E são medidas mais
avançadas que os mais avançados
programas feministas de hoje
pra gente ter uma dimensão histórica do
que significava.
afastada do comissariado do povo pro
bem-estar social,
ela continuaria a ter um forte
protagonismo,
porque como dirigente do partido
bolchevique,
ela passa a comandar o departamento
feminino,
departamento das mulheres do comitê
central do partido, que em russo em
russo chamava Zenotdell,
que é uma o acrônimo para sessão sessão
feminina do Comitê Central que tinha
muito poder dentro do partido pelo
prestígio de Alessandra Colontai
e de outras dirigentes bolcheviques.
ela será a chefe dessa sessão do Comitê
Central.
E a partir desta sessão
das mulheres do Comité Central, ela vai
continuar impulsionando as mesmas
políticas que ela defendeu
no comissariado do povo pro bem-estar
social. Ela tinha saído do governo, não
da direção do partido.
O Zenotell organizava conferências,
editava jornais, produzia material
educativo, organizava creches, escolas
noturnas, cursos de alfabetização e
orientação jurídica. Milhares e milhares
de militantes percorriam
vilarejos, fábricas, campos, cidades,
escolas, promovendo
a entrada das mulheres na política e no
mundo do trabalho. E apoiada por Lenin,
embora a relação de Colontá e Lenin
tivesse vários momentos de tensão.
Neste
nessa construção da sessão feminina do
Comitê Central
da Zenotell, ela se faz amiga de Inê
Sarmã. Inessão, é uma figura muito
importante, grande amiga
de Lenin e de Grupkaia, da companheira
de Lenin.
Em algum momento Inessa
chegou a ser
amante de Lenin.
Muitos dizem que com consentimento da
Crupus Cai. É o que a gente chamaria
hoje de um trisal.
não é? Eh,
e nessa irmã era mais ortodóxica que a
Colontai. A Colontai tinha posições
mais heterodoxas sobre vários temas do
que Nessarmã, mas elas formariam uma
dupla e ficariam muito amigas. Mas
Inessa Armã morre jovem em 1920.
Ela morre precocemente, o que abalou
profundamente Alessandra Colontai, que
considerava amiga uma companheira eh
insubstituível.
Colontai, apenas pra gente, já que
entramos no terreno das da farândula das
fofocas,
a Colontai não era apenas uma militante
disciplinada,
ela era também uma mulher que viveu
grandes amores, teve várias relações com
revolucionários.
Um deles foi o Pavel de Benco. Pável de
Benco era um ex-marinheiro bolchevique.
Eh, eu 17 anos mais novo que Colontai,
não? 14 anos mais novo que a Colontai.
Ele tinha sido um líder do Levante
Revolucionário no Báltico
e ele eles têm uma relação amorosa.
Aliás, eu tive um cachorro que chamava
Benco por causa do pável de Benco.
Já faleceu no ano passado, ele morreu.
E a Colontará, além de artigos e textos
sobre socialismo e a questão das
mulheres, ela também escrevia romances.
Um desses romances é baseado na relação
dela com Pável de Benco. Em russo, esse
romance teve o nome de Vaselisa
Maligina, mas ela foi traduzida no
inglês como red, amor vermelho, em que e
é um um romance no qual é discutido
eh o dilema, a tensão entre o amor
romântico e a militância, certo? que era
permanentemente a tensão entre ela e
Pável de Benco.
Nesse período em que ela comanda a
sessão feminina, elas vai desenvolver de
uma maneira mais eh explícita suas
ideias contra o que ela chamava da
hipocrisia sexual burguesa. E ela passa
a ser apresentada como defensora do amor
livre,
não é? Eh,
e isso gera um debate com a direção
bolchevique. Lenin chegou a dizer que
ela fazia propaganda do copo d'água com
a ironia típica do Lenin. Ou seja, ela e
ele se referia a uma suposta frase de
Alessandra Colontai em que ela teria
dito que o amor deveria ser como beber
um copo d'água.
Como beber um copo d'água. Algo tão
simples como beber um copo d'água. as
relações amorosas, elas deveriam ser
dessacralizadas, as relações amorosas e
sexuais dessacralizadas,
desinstitucionalizadas. E por isso ela
surge
eh a expressão não é dela, mas ela é
apresentada como uma defensora do amor
livre ali nos anos nos anos 20, né? Ela
negou ter dito essa frase, ela nunca
aceitou ter dito essa frase, eh, mas ela
manteve suas posições sobre a defesa das
da liberdade sexual e isso gerava uma
tensão
com o comando do bolchevique. Lenin, em
vários momentos, eh, ele reclamava que,
bom, lembremos o que que tava
acontecendo na Rússia, guerra civil,
construção do socialismo, uma crise
brutal. E ele que tinha muito apreço
pela Colontai, muitas vezes ela ia
conversar com Len no seu gabinete no
Kremlin e o Len dizia: "Não dá para
perder menos tempo com esses assuntos.
Você como é que você quer?" Ela dizia:
"Olha, nós estamos precisando disso,
disso, disso, disso, disso, disso,
disso." Falei: "Tá bom, eu vou atender,
mas não dá para perder menos tempo com
esses assuntos, não dá para se dedicar a
outras coisas mais importantes." Havia
uma tensão, nãoé? Embora eh uma tensão
administrada,
nãoé?
Desde 1913, ela tinha desenvolvido
vários escritos sobre esse tema, o tema
da hipocrisia sexual portuguesa, da
liberdade sexual, da nova moral, a
classe operária, a nova moral, a mulher,
eh, a nova mulher e a moral sexual. Eh,
esses textos sobre a nova mulher e a
moral sexual eh estariam reunidos num
volume com esse nome, embora este livro
é ele seja um conjunto de dois artigos
dela que originalmente não tinham sido
escritos para um livro, né? Mas ela vai
desenvolver várias vários escritos a
esse respeito.
Eh, mas não é apenas ao redor da questão
feminina da luta das mulheres que
Colontai
se dedicaria. Ela também
participava das grandes discussões sobre
os rumos da revolução. Ela era uma
dirigente de muito respeitada no partido
e ela vai criar entre 1920 e 1922, ela
vai criar junto com outros companheiros
eh a oposição operária que se
manifestaria como fração no Congresso,
no 10º Congresso do Partido Bolchevique
em 1921.
O que que propunha oposição operária?
Ela era uma corrente interna que
criticava a burocratização do partido e
defendia maior autonomia dos sindicatos.
Ela escreve um panfleto chamado a
oposição operária, onde ela denuncia que
o partido e a revolução estariam
perdendo contato com as bases, denuncia
a elitização do partido e o
distanciamento da revolução em relação
às massas operárias. Esta
posição dela causa atritos duríssimos no
partido bolchevique. Como eu já disse,
eh, no 10º Congresso, essa essas esse
conflito explode.
havia no congresso do partido
bolchevique, nesse 10º congresso do
partido bolchevique, três posições
sobre esse essa questão da
burocratização do partido, que se
manifestaria na discussão sobre a
questão sindical.
Havia uma posição extrema sobre a
questão sindical de que no socialismo os
sindicatos deveriam ser tratados tal e
qual um exército, absolutamente
subordinados ao estado. Os sindicatos
deviam ser uma correia de transmissão do
estado para organizar a produção, não
mais entidades de organização e
reivindicação dos trabalhadores. Essa
posição era a posição de Trotsk.
a militarização dos sindicatos.
Havia uma outra posição que era a
posição de Alessandra Colontai e da
oposição operária de que os sindicatos
eles deveriam ter total autonomia e
continuarem operando como entidades de
reivindicação da classe trabalhadora,
com
plena liberdade de mobilização e
organização, mesmo quando houvesse
confronto contra o estado da ditadura do
proletariado. E havia uma posição
intermediária que era a posição
defendida por Lenin e outros dirigentes,
incluindo Stalin, que era nem a
militarização dos sindicatos,
nem
a autonomia absoluta, como se estivesse
numa sociedade capitalista.
a posição intermediária de que os
sindicatos deveriam continuar a ter um
papel de organização e mobilização dos
trabalhadores,
mas eles deveriam
se integrar democraticamente
aos esforços econômicos estabelecidos
pelos planos econômicos eh elaborados
pelo Estado e decidido pelo Soviets. a
posição de Trotskrotada e a posição de
Alessandra Colontai também é derrotada.
Há uma segunda, um segundo debate que é
sobre a NEP, a nova política econômica.
Nós já tivemos em outras oportunidades
aqui, a gente já conversou sobre o que é
isso, apenas para fazer uma recordação.
É um momento em que Len propõe que sejam
adotadas reformas na economia russa, eh,
permitindo a certa liberdade de mercado
pros camponeses, restaurando
eh o comando das fábricas, devolvendo o
comando das fábricas a antigos
executivos e abrindo espaço paraa
construção de empresas de capital misto.
não é? É um momento em que
Lenin propõe na nova política econômica
uma recomposição da relação entre estado
e mercado. Seria a fonte de inspiração
para as reformas que a China viria fazer
60 anos depois.
Novamente,
a posição de Lenin é vitoriosa e a
posição da de Colontai e da oposição
operária é derrotada. colontaia oposição
operária está se colocam contrariamente
à NEP.
O 10o congresso do partido não apenas
está realiza essas votações reforçando
as posições Gilen e derrotando a
oposição operária e também derrotando a
Trotsk, como também proíbe a
continuidade de frações dentro do
partido.
O partido não poderia mais ter frações.
Porque como funcionava o partido
bolchevique? você podia constituir
grupos internos, como hoje é no PT, a
criação de tendências.
Esses grupos podiam se manter
organizados, desde que eles tivessem o
compromisso de seguir a orientação da
maioria, quando essa orientação fosse
decidida. Eles não precisavam se
dissolver.
Eles podiam continuar organizados, mas
eles estavam obrigados
a seguir a maioria.
No 10º Congresso, isso muda. Esses
grupos não podem mais se manter
organizados.
Eventualmente, quando o partido fosse
realizar congressos, poderiam ser
constituídas tendências que apresentavam
seus próprios projetos ao Congresso do
partido ou ao Comitê Central. Mas uma
vez estabelecida uma decisão, esses
grupos tinham que se dissolver. Eles não
podiam se manter organizados.
Esse conjunto de decisões
eh leva
ao enfraquecimento político de Alexandra
Colontai.
Ela passa a ter
a serviço, a a estar em franca minoria.
E em seguida,
já depois da morte do Lenin em de Lenin
em 1924,
ocorre o tsunami da luta interna entre
Stalin e Trotsk.
Boa parte dos companheiros de Alessandra
Colontai se colocam na oposição a
Stalin.
Ela não.
Ela considera, sem renunciar suas
ideias, de que o mais importante ali era
defender o Estado Soviético, cuja
existência estava em risco.
E mesmo ela tendo discordâncias em
relação à linha que o partido seguia,
ela considerava que não deveria ser
mantida a luta interna.
E ela
pede ao próprio Stalin em 1923
ser enviada
pro serviço diplomático. Ela não tava de
acordo com a orientação política,
mas ela não queria
eh estar na luta interna. Ela
considerava que era essencial a unidade
ao redor da direção do partido e do
próprio Stalin e ela pede para ser
embaixadora.
Era uma maneira dela manter sua relação
com a revolução soviética
sem renunciar à suas ideias, mas também
sem se sem mergulhar numa luta interna
que ela considerava deplorável e
perigosa paraa existência do próprio
regime socialista.
E ela até 1945, ela vai ficar no serviço
diplomático. Ela serviu na Noruega, na
Alemanha, no México e na Suécia como
embaixadora.
Eh,
ela estando no exterior, ela é poupada
dos chamados processos de Moscou dos
anos 30, nunca foi indiciada, presa ou
julgada. manteve relações cordiais com
Stalin durante todo os o seu período
ativo até ela se aposentar em 45.
A produção teórica dela diminui.
Ela resolve
arrefecer a sua produção teórica,
exatamente porque ela não queria se
envolver na luta interna. Ela continua a
escrever memórias e contos, mas o
trabalho ensaístico dela, os estudos que
ela antes, aos quais antes ela se
dedicava, ela reduz a intensidade desses
estudos
e se dedica ao serviço diplomático.
Eh, ela participa da delegação
soviética, por exemplo, na conferência
que funda ONU em 1945.
Pouco depois ela se aposenta,
vindo a falecer em Moscou em 1952
aos 80 anos de idade.
Por muito tempo, depois de 52, ela foi
esquecida
dentro e fora da União Soviética.
E quando não era esquecida, era
difamada.
Muitos a taxhavam de desviacionista.
Desviacionista.
Porque os temas que ela propunha nos
anos 20, aos olhos dos anos 50,
pareciam temas
desviacionistas,
ou seja, que desviavam a revolução dos
seus objetivos principais e que
fragilizavam a revolução por por por
temas que não geravam unidade no seio do
povo, dado o conservadorismo secular
da própria União Soviética.
Vamos nos recordar que no nos anos que
antecedem a Segunda Guerra Mundial,
vários daqueles avanços dos anos 20
sobre os quais Colontai teve um papel
decisivo, vários daqueles avanços em
relação aos direitos das mulheres são
suprimidos. Por que que são suprimidos?
Porque a busca de Stalin de unidade
nacional contra o nazismo implicava num
pacto com a igreja ortodoxa. Depois da
revolução, a igreja ortodoxa tinha sido
marginalizada.
Mas no período que antecede a Segunda
Guerra, em que o país precisava de
unidade nacional para enfrentar o
nazismo, se restabelece uma relação
amistosa ou se busca restabelecer uma
relação amistosa com a Igreja ortodoxa.
E para restabelecer essa relação
amistosaica com Igreja Ortodoxa, houve
uma série de recusos, de retrocessos nos
direitos das mulheres para poder
estabelecer essa pauta com a cristandade
ortodoxa.
Depois da guerra, esses direitos, vários
desses direitos seriam recompostos.
Mas de toda maneira o discurso da
Colontai
por muitos era visto como
desviacionista. Por essa razão
atrapalhavam a unidade nacional e
popular. Os liberais também a repudiavam
porque ela era comunista e nunca deixou
de ser.
E mesmo parte do feminismo que rompe nos
anos 60, nos anos 50, 60, a tinham como
ingênua, porque esse feminismo que rompe
na Europa nos anos 50 e 60 é um
feminismo liberal.
Eh, e Colontai
nunca escondeu que ela vinculava a
libertação das mulheres à revolução, que
somente a revolução poderia libertar as
mulheres. Isso não era a tese
predominante no feminismo europeu. No
entanto,
será nos anos 60 e 70,
com o surgimento ou com o fortalecimento
ou com o ressurgimento, escolhamos a
palavra que melhor couber, com o
ressurgimento do feminismo socialista,
do feminismo marxista,
a figura de Colontai volta a existir no
ocidente. e publicam os livros dela, as
teses dela, se resgata o trabalho dela à
frente do comissariado do povo do
bem-estar social. Colontai volta a ter
uma presença
política, cultural, ideológica. as
ideias de Colontai voltam a ter presença
nos debates eh
do movimento feminista, especialmente, é
claro, resgatada Colontai pelo feminismo
socialista, pelo feminismo
marxista, nãoé? Ela volta a ter um peso
muito relevante no debate de ideias, não
apenas pelas suas ideias, mas também
pela sua figura
humana.
uma mulher de extrema coragem, que
enfrentou os inimigos à revolução, que
enfrentou dogmas, que enfrentou
duramente o debate político, sem jamais
romper com a revolução. Enfrentou
silêncios, enfrentou enfrentou tabus dos
mais diferentes dos mais diferentes
tipos. E ela, eh, tanto por sua
trajetória como por suas ideias, virou
um símbolo sobre a associação
estrutural entre feminismo e socialismo.
Ela passou, ela voltou a ser uma figura
emblemática
daqueles, daquelas mulheres e homens
também que compreendem que não há
feminismo sem socialismo e não há
socialismo sem eh feminismo, não é? Ou
seja, que não há feminismo verdadeiro
sem ruptura com o sistema capitalista e
não há socialismo verdadeiro sem ruptura
com a opressão das mulheres, não é? Eh,
a sua voz atravessando os séculos
eh
continua a ser uma fonte de inspiração e
muita gente lembra de uma frase dela que
era: "Somos mulheres, somos
trabalhadoras e queremos tudo, a
liberdade, o amor e o poder popular".
Essa é a vida de Alessandra Colontai.
Eu vou também aqui sugerir já os livros,
né? Pode sugerir.
>> Eh,
eu inclui um a mais do da original. Bom,
olha, eu vou sugerir aqui 1 2 3 4 5
livros.
Seis livros.
Então sem
>> nem todos são fáceis de achar porque só
em cebo.
Então eu vou primeiro dizer que eles são
fáceis de achar e alguns estão expostos
aqui. Quem quiser adquirir
>> nós temos dois aqui hoje.
>> Isso. Colonta desfazer a família refazer
o amor que é que é uma biografia com
duas dois autores, Olga Bronicova e Mati
Renault da editora Boit Tempo
>> que tá disponível aqui.
>> Tá disponível. Colontai e a revolução
escritos sobre amor e luta. São textos
da Colontai, são várias as
organizadoras. Foi editado pela
expressão popular.
Também pode ser encontrado no mercado um
para quem quisesse aprofundar os
escritos da Colontai, a editora Lava
Palavra editou em dois volumes as obras
escolhidas da Alessandra Colontai. E aí
no CEO e só em Cebo, nós vamos ter os
seguintes textos: A Nova Mulher é Moral
Sexual da Editora Global, é uma edição
dos anos 80 e Oição Operária 1920 1921
da Alessandra Colontai, também
igualmente pela editora Global. São dois
livros secebo.
E vocês também em CEBO, mas também tá
disponível em PDF, naquele
acho que no arquivos marxistas, né, que
chama, que é autobiografia de uma mulher
comunista sexualmente emancipada, que é
a biografia precoce da Alexandra
Colontai, que eu me referia aqui, que
foi escrita em 1926.
Hum. A autobiografia de uma mulher
comunista sexualmente emancipada. Ah,
originalmente foi publicado aqui no
Brasil pela editora Sanderman.
Filmes sobre a Colontai
A2. Muito difícil de achar.
Pode se procurar no YouTube. Eu não
procurei. Eu eu
Mas talvez exista no YouTube. Um é um
documentário
que tá em inglês dos anos 90 chamado A
Wave of Passion, The Life of Alexander
Colontai, doen culpa. é um documentário
sobre a vida de Colontai
e tem um
eh médiam metragem de uma diretora alemã
Rosa Von Prin
vermelho,
né?
Mas enfim, pode-se pesquisar outra
outros filmes, não há uma filmografia
relevante sobre ela. E assim tá feita a
exposição.
Bom, gente, antes da gente começar com
as perguntas, eh, primeiro eu queria
avisar para vocês que as indicações dele
vão estar na descrição do vídeo. Então,
se vocês não conseguiram anotar, depois
a gente eh vai adicionar na descrição,
vocês conseguem pegar lá. Eu vou
aproveitar também para indicar um artigo
que a gente tem no nosso site da coluna
Pensar a História, também sobre a
Colonai chamado Revolução, Socialismo e
Emancipação Feminina, 153 anos de
Alexandra Colontai, eh que a gente
também recomenda para vocês. E já
aproveito enquanto a gente tá nesse
intervalinho para e convidar vocês
depois a reassistir o nosso programa
sobre a revolução russa para ver com uma
nova perspectiva agora que a gente vai
ter também essa exposição. Então,
enquanto o Breno aguarda para conseguir
ir no banheiro, a gente faz um
intervalinho. Se vocês quiserem
aproveitar esse momento também para
tomar uma água, para tomar um café e aí
a gente continua em alguns minutinhos,
tá bom?
O artigo
>> evolução socialismo e emancipação
feminina 153 anos de Alexandro Vário. Eu
vou pedir para me inserir também na
descrição do vídeo depois. Então, se
você quiser pegar lá, eu vou já incluir.
O Breno só foi no banheiro, a gente já
volta. Aí não passando.
>> Aí
eu não lembro o nome da, mas aquela que
tá lá no cantinho, ela já pediu para
fazer uma pergunta, tá? Se você quiser
perguntar com ela. Bom, beleza. Mas aí
eu vou,
>> por favor, eu quero matar.
Qual é o
passa para ele o telefone do nosso
WhatsApp?
Deixa eu anotar.
Quer anotar no papel?
>> Posso falar?
>> Ah,
9, né?
>> É 11 962.
Não, não sabia que ia ter fora da chama
lá que a gente tira.
>> Obrigado, hein?
>> Pessoal, se vocês quiserem já voltar a
se acomodar, o Breno já tá de volta. Tá
bom.
>> Pegar o cafezinho dele.
>> É, não, tudo bem. Como o Breno fez um
pouquinho mais objetivo hoje, mais
curto, a gente consegue aqui da última.
Não teria tido nem como fazer o
intervalo.
>> Quando tiver pronta para fazer as
perguntas e
>> somar
agora. Deixa eu ver com elas. Pera aí.
>> É, não, tudo bem. Vou dar uma uma
chamadinha aí.
>> É que daqui a pouco
não tranquilo
>> não. Não tá atrapalhando
>> não. Nem só inclusive.
Então, a única coisa é que às vezes um
pouquinho o microfone e aí acho que nem
até consegue tá um pouquinho melhor, mas
assim é que ele aumenta,
>> quando ele tá com microfone perto vai
estourar e aí então não dá para mexer no
volume.
>> É, então é isso que a gente aumenta
começa ele aqui
sim é vai testicolando aí vai ficando.
É, não tem jeito.
>> Tá bom.
>> Obrigada.
>> Imagina
que
tá bom.
Vocês puderem pegar a comida e levar
porque a gente vai precisar retomar. Tá
bom
>> pessoal. Se vocês quiseremar
pra gentear.
Se vocês quiserem pegar a comida para
para levar lá para dentro pra gente
poder retomar, tá bom?
>> É, eu acho que só vai chegou agora, né?
>> Não, já tava sentando.
>> Ah, eu não tinha reparado. Então tá bom.
ia falar que eu acho que só tem lugar
aqui mesmo,
>> pessoal. A gente vai retomar, tá? OK.
Ele é um cara que tá voltado a negócio.
Ele mora lá, fez fez a faculdade dele
lá, casou com uma brasileira, tal. Esse
sou eu.
>> E ele eh eu não li o livro porque eu
comprei o livro e recebi sexta e eu
falei: "Vou vou no préo já para ele,
comprei outro para mim. Legal.
>> Eu vou passar pra sua secretária uns
links e de onde eu conheci o cara.
>> Ela tá no YouTube, ele faz palestra
sobre a China e os caras de
vai far e tal, mora lá há mais de 15
anos, o trabalho na realista tá fora.
Depois ele saiu, montou uma empresa de
de assessoria. Cara, interessante, de
repente você achar prática, é uma outra
visão da China vista por um cara que tá
vendo
o comércio e a indústria.
>> Bom, pessoal, então vamos retomar. A
gente abre agora pro nosso bloco de
perguntas. Quem quiser participar é só
levantar a mão. A gente vai levar o
microfone até vocês. Eu vou pedir para,
na medida do possível vocês perguntarem
no microfone para quem for assistir
depois de casa conseguir ouvir a
pergunta de vocês, tá bom?
>> E aí, quem for fazer a pergunta começa
primeiro dizendo o nome de vocês, depois
a pergunta. A gente vai fazer blocos de
três perguntas, aí o Breno responde e
depois a gente vai fazendo mais blocos.
Então, fiquem tranquilos, a gente vai
deixando todo mundo participar. A gente
já tem algumas perguntas ali. Primeiro
nome.
>> Bom dia. Obrigada, Breno, pela
explicação, pela oportunidade.
Eh, eu sou Denise,
eu li há um tempo um artigo numa revista
de pensamento jurídico que diz, eu acho
que o título é assim: "A precarização do
do trabalho tem o rosto de mulher". Eu
não vou conseguir dar o crédito, eu sei
que a Juliana e Carolina as autoras, mas
acho que é fácil de achar no Google. Eu
particularmente não acredito em
feminismo liberal, né? Eu acho que o
feminismo, o o a opressão do
capitalismo, ela impede, né, o
feminismo. E se você até falou isso no
final, né, da ideia da Coluntai, não
existe feminismo sem socialismo e
socialismo sem feminismo. Então, a minha
pergunta é eh essa apropriação dessa
pauta, né, pelos pelo liberalismo hoje,
pelo capitalismo, pelo pelo hoje em dia
pelo neoliberalismo e o apagamento das
mulheres, das feministas,
estigmatizando, né, as feministas são
raivosas, as as feministas são maladas,
né?
Eh, não é justamente para não se
estabelecer e não se manter os regimes
socialistas,
>> tá? A Tânia também quer fazer uma
prunda.
>> Bom dia, meu nome é Tânia. Eu só queria,
Brendo, que você desenvolvesse melhor
quais seriam essas políticas públicas,
principalmente de creche e de trabalho.
Como ela implantou isso e como as
mulheres receberam, se foi
bom para elas, se elas toparam fácil ou
se elas tiveram dificuldade em aceitar,
enfim, a cultura de pensamento que tava
no momento vigorando.
>> Seu nome, por favor?
>> Oi, Breno. Meu nome é Jenaína. Eh, eu
gostaria de saber se a Alexandra tinha
uma alternativa à NEP ou ela era
simplesmente crítica se ela tinha um um
plano alternativo.
Mais alguém quer fazer uma pergunta?
>> Tá. Querem eh mais alguém quer fazer? A
gente faz com mais algumas. Então,
[Música]
>> eh, queria completar eh a pergunta dela,
>> por favor.
Hã,
>> ah, desculpa, Ana Júlia, eh, queria
completar a pergunta dela. Eh, os cinco
pontos, eh, e não só o trabalho e, eh,
mas os cinco aborto, eh, eh, a
sexualidade liberal, eh, juntar na
pergunta.
Eu
como Roberto Bian, eu como filho de uma
mãe, eu fico me perguntando o seguinte:
os grandes líderes, mulheres e homens,
tão turbulenta com filhos? É um problema
difícil. Então, a pergunta simples é
primeiro: e o filho dela?
E esse essa relação de grandes líderes
me parece incompatível com a ideia de
criar filhos, etc., porque demanda
demais. E eles têm que mergulhar 100% na
questão, senão não funciona.
>> Temos cinco perguntas, Breno.
>> Eh,
>> primeira da Denise. Eu
acho que tem duas questões aí, dois
dois momentos.
Há um momento mais conservador no qual
nas sociedades atuais se rejeita o
feminismo.
A gente assiste isso, por exemplo,
claramente na extrema direita, não é?
Mas esse não, essa não é a única
armadilha, uma outra armadilha
que é a apropriação da pauta feminista
pelos liberais.
A grande estudiosa sobre esse fenômeno é
a filósofa e socióloga norte-americana
Nancy Fraser, que caracterizou essa
apropriação como neoliberalismo
progressista,
ou seja, como
o capitalismo na sua fase neoliberal,
especialmente nos países desenvolvidos,
se apropriaram de determinadas pautas,
entre essas o feminismo, para lhe dar
uma coloração mais simpática, enquanto
mandava bala na precarização do
trabalho, no aumento da exploração do
salário, dos assalariados e assim por
diante, não é? Basicamente extraindo do
feminismo tudo aquilo que ele pudesse
ter de revolucionário jogando fora e
absorvendo a ideia de representação e
diversidade,
né? Então são esses dois momentos que eu
acho que são dois momentos eh de
enfrentar fundamentalmente o potencial
transformador do feminismo. Um por
negá-lo, pura e simplesmente, como é o
caso da extrema direita, e outro por
absorver
do feminismo os elementos eh não
rupturistas
do movimento das mulheres. Ou seja, para
absorver do feminismo aqueles elementos
que podem ser deglutidos, apropriados
pelo capitalismo, como é uma ideia de
representação e diversidade, nãoé?
Então, acho que eh
esses essas duas frentes de batalha
existem, não é? Contra o negacionismo
antifeminista da extrema direita e
contra esse neoliberalismo progressivo
que faz do feminismo eh puramente uma
teoria de representação e diversidade,
né? Eh, sobre o tema das políticas
públicas da União Sovética, respondo
aqui junto a Tânia e a e a Ana Júlia.
Veja, havia um elemento naquela época,
como ocorre em todas as revoluções, que
é o experimentalismo. Tentou-se um monte
de coisas, muitas dessas funcionaram,
tudo deu tudo errado, porque tinha que
resolver um problema. Todo uma
revolução, ela é um processo pelo qual
as pessoas acreditam que todos os
problemas serão resolvidos ao mesmo
tempo. É, esse é o espírito de uma
revolução. A vida depois vai mostrando
que não dá para ser assim. Mas a ideia é
nós tomamos o poder, nós destruímos o
inimigo, nós temos o estado, nós vamos
resolver tudo e nós vamos resolver tudo
já, né? Esse é o espírito normal de
qualquer processo revolucionário. É a
beleza e a tragédia das revoluções. É a
beleza porque é o que cria uma época de
grandes mudanças, mas também é a
tragédia, porque nada na vida você
consegue resolver ao mesmo, em nenhum
momento da vida, você consegue resolver
tudo ao mesmo tempo, nem nas revoluções.
Então, qual era o problema com o qual se
deparava
eh o Estado soviético? Um problema
social no que diz respeito às mulheres?
Como é que você libertava as mulheres?
As mulheres da como é que elas podiam
ser libertadas do trabalho doméstico?
Como é que elas podiam se inserir em
situação de igualdade
no trabalho, na política, no estudo? Nós
não estamos falando de uma sociedade
moderna. Nós estamos falando de uma
sociedade que vinha do arcaísmo feudal
da Rússia do século XIX, início do
século X.
Basicamente
era se o estado fosse capaz de oferecer
uma estrutura de cuidados, como a gente
diria hoje, que não passasse pelos
indivíduos, fosse uma estrutura
cooperativa, coletiva de cuidados,
que não colocasse nos ombros da família
a reprodução da força de trabalho.
Os filhos não podiam ser um problema da
família.
a família deveria desenvolver, claro,
laços afetivos e de cuidado com os
filhos, mas esse trabalho tinha que ser
dividido e a partir de uma certa idade
devia ser um trabalho público e não
privado.
Então isso exigia a construção de uma
enorme rede de instituições.
Enorme rede de instituições,
creches, escolas
de um lado, de outro lado. Que que é que
que era o trabalho doméstico na época?
Nós nós não estamos falando da era dos e
eletrodomésticos, né?
Lavar a roupa, cozinhar são as duas
atividades
eh essenciais, né? que tomam mais tempo.
Essas atividades não podiam mais ser
domésticas,
elas não podiam ser mais baseadas no
trabalho individual. Então você tinha
que criar cozinhas comunitárias e você
tinha que criar lavanderias públicas
em que as pessoas
coletivamente,
através de uma infraestrutura fornecida
pelo Estado, pudessem se livrar do
trabalho doméstico.
Hum. E essas foram as principais
políticas públicas desencadeadas. Então,
a construção, os próprios planos
arquitetônicos
para política habitacional
envolviam esses elementos. por exemplo,
a construção de prédios
eh que nas suas plantas arquitetônicas
já tivesse previsão de ter uma
lavanderia pública e uma cozinha
pública. As pessoas não deviam comer
dentro de casa, as pessoas deviam comer
no trabalho ou comer onde vivem com os
as outras pessoas, com as os outros
moradores do prédio, refeitórios
coletivos,
acabando com essa história de fazer
comida em casa.
ainda que se estabelecessem entre os
moradores de um determinado prédio algum
sistema de rodízio cooperativo,
mas e a a
defesa que a Colontai fazia e que a
revolução fazia era de que a casa é um
espaço afetivo, não pode ser um espaço
de trabalho.
O trabalho tem que ser fora de casa.
Então, era uma proposta que mudava
radicalmente
o papel da família,
né?
Eh,
claro que no curso desse processo
teve na base do experimentalismo vários
problemas, né?
Então,
por exemplo, havia um grave drama na
Rússia do início dos anos 20, uma enorme
quantidade de órfã por causa da Primeira
Guerra e da Guerra Civil, uma enorme
quantidade de órfãos. Tanto que era uma
prática corrente entre os dirigentes do
partido adotar crianças, adotava-se
filhos de camaradas que tinham morrido
na guerra ou na guerra civil.
Mas você continuava a ter um gigantesco
problema, né? Uma das políticas que a
revolução adota
foi a criação das repúblicas dos órfãos,
ou seja, estruturas coletivas em que os
órfãos viveriam
eh sob uma certa supervisão de adultos,
mas eles viveriam a autonomia da sua
orfandade, construindo um outro tipo de
relação.
Tem até um livro célebre sobre isso que
só vai achar, nem sei se em Cebo acha,
que é Skid, a República dos Vagabundos,
que era uma república de meninos e
meninas
que tinham 11, 12, 13 anos de idade. E
eles funcionavam no sistema soviético,
ou seja, os meninos e as meninas
decidiam que era feito.
E é uma tragédia, né?
evidente, era uma
uma dessas ideias que que não funcionou,
não é? Que não funcionou, né? E havia
vários problemas. E aí também, claro, a
lê e isso no que diz respeito às
políticas sociais, no que diz respeito
às políticas de gênero ou as políticas
sexuais, vamos dizer assim, as políticas
eh na sobre
eh as relações matrimoniais,
que que tinha que desmontar? Primeira
coisa que tinha que desmontar era os
mecanismos de divórcio. Ou seja,
deveria, as mulheres deveriam ter o
direito de se divorciar.
Eh, homens e mulheres deveriam ter o
direito de se divorciar.
com muita simplicidade e o e o casamento
deveria deixar de havia uma série de
regras tinham ser desmontadas, né? Vamos
na Rússia pré-revolucionária, uma mulher
só podia trabalhar se o marido
autorizava, só podia estudar se o marido
autorizava, só podia viajar se o marido
autorizava.
>> Hã,
>> é isso. É assim que funcionava.
>> Sim, sim, sim, sim, sim. Sim, sim. Não
é? Então, essas regras elas eram
brutais. As mulheres não tinham direito
de, somente os homens podiam pedir o
divórcio. As mulheres, a única
possibilidade do divórcio feminino era
através de uma ação judicial do pai da
esposa, alegando algum tipo de
descumprimento contratual ou maus
tratos. Mas não era a mulher que podia
pedir o divórcio, era o seu pai que
podia entrar na justiça. Então tinha que
isso era uma primeira coisa a ser
mudado. Ou seja, as mulheres podiam se
libertar do casamento.
>> Era uma propriedade,
>> era uma propriedade acabar com isso.
Isso a primeira coisa, isso a revolução
fez em meses, liquidou todas e outra,
desobrigou o casamento civil. O
casamento civil perdeu função.
Perdeu função. Acabou com casamento
religioso legalmente e o casamento civil
perdeu função, né? Porque o que que era
a função do casamento civil? A
transferência de propriedade do pai pro
marido, nãoé? Quando o casamento civil
já não é mais um instrumento de
transferência de propriedade, ele perdia
função. Então era muito normal. Na
Rússia dos anos 20 as pessoas não
casavam mais. A taxa de casamentos
despenca, nãoé? Nos anos 30 ela vai ser
eh vai ser estimulado o casamento civil
porque o estado precisava arrecadar um
dindim,
né? Então, começou a se estimular o
casamento civil, tanto por aquele outro
aspecto que eu me referi, que era uma
reaproximação com a igreja ortodoxa lá
mais no final dos anos 30, quanto
também, enfim,
eh, para dar alguma estabilidade
às famílias, né? Eh,
havia a própria, as próprias feministas
soviéticas ali no final dos anos 20,
elas começaram a ter uma avaliação comp
negativa sobre a facilidade do divórcio
no país, não a facilidade da mulher,
porque a facilidade também era dos
homens. Então, o que acontecia é que
muitos homens,
como era muito fácil de separar, os
homens deixavam as mulheres na mão com
os filhos,
>> separadas.
E e isso começou a se transformar num
problema. Então o próprio feminismo
soviético no final dos anos 20 pediu
mais rigor dos mecanismos de divórcio.
>> Agora, Breno, veja, as pautas da
Colontai eram consideradas
desviacionistas,
mas você não concorda que talvez essa
visão seja muito machista, já que a
mulher tinha que lidar com isso e estar
ativa ali na revolução? Claro.
>> Então veja, claro que para ela aquilo
não é desviacionista. A gente precisa
resolver isso aqui para conseguir
participar de todo o resto.
>> Mas essas primeiras regras, houve um
empenho da direção revolucionária, até
porque senão nem teriam sido aprovadas,
né? O problema é que várias várias
soluções foram dadas no calor dos
acontecimentos e não se tinha como medir
as consequências. Então, havia um enorme
consenso
por transformar o o divórcio numa
atividade que podia ocorrer, seja por
parte do homem, da mulher, em 15
minutos.
10 anos depois se chegou à conclusão de
que isso havia prejudicado as mulheres.
Aí falou: "Bom, vamos corrigir isso
daqui porque a facilidade, essa
facilidade de separação por parte dos
homens virou uma festa, nãoé? Virou uma
festa.
Hã,
>> a estrutura material.
>> Claro, claro. E nem a nem a estrutura
material, nem a estrutura moral, é,
>> não é? Então, é é a como toda a
revolução, como todo o processo
revolucionário também nesses aspectos,
depois de você ter um momento de
ruptura, você analisa as consequências e
você começa a adotar mecanismos mais
gradualistas, porque você não pode
explodir a superestrutura quando a
estrutura ainda não mudou e quando a
moral ainda não mudou, não é? Então,
havia muitos textos falaram: "Puxa, essa
história do divórcio em 15 minutos
acabou sendo uma roubada paraas
mulheres". É, tá pior do que antes,
porque antes os caras tinham mais
dificuldade de de se de abandonar a
família. Agora, abandonar a família, hã,
>> uma responsabilização.
>> É claro, claro. Então, é, então, enfim.
A outra coisa era o problema do aborto.
O aborto
foi aprovado na União Soviética, em
1920, existiu livremente até 1930 e 9 e
voltou a existir nos anos 50.
Eh, isso sempre foi defendido pelas
bolcheviques. Isso nunca teve problema
em ser aprovado. Repito, se foi aprovado
em 1920 é porque
eh
foi aceito pela direção do partido. Isso
não tinha não era um clube o partido
bolchevico, qual as pessoas faziam as
coisas sem que quem sem que o dono do
circo dissesse que podia, né? Eh, assim,
os donos do circo dizeram que podia.
havia consenso na direção para essas
coisas terem sido aprovadas.
Eh,
lembremos que nós estamos numa época em
que não havia métodos contraceptivos
científicos como aqueles que passaram a
existir depois dos anos 60. Que que
aconteceu também com o aborto? Essa é, o
aborto virou um método an, um método
>> contraceptivo.
>> Contraceptivo.
Então, os números de aborto na União
Soviética dispararam nos anos 20.
Então, quando há um recu nos anos 30, há
o elemento conservador, religioso, mas
também havia um um havia um problema de
saúde pública no país,
porque a massa, o volume de aborto que
se praticava na União Soviética era
muito alto. Você nunca é um patamar isso
aqui a gente pode procurar em gráfico
sobre isso. É impressionante o que
acontece, o que o que ocorre, não é?
Hoje é seria muito diferente porque há
outros métodos anticonceptivos. Naquela
época o que que havia eram os métodos
naturais contraceptivos, né? Posso só
falar alguma coisação do aborto? Ah, o
que a Coluntai observou é que porque as
pessoas faziam aborto legal ou não. E o
que ela observou na época paraa
legalização era um número de mortes que
havia e de mulheres que ficavam com
problemas sérios. Então para por isso a
instituição do aborto legal. E aí você
só tem as estatísticas quando ele são
legais.
>> Claro, né?
>> Não, não é que ele tenha, veja, tem
isso. Agora tem um outro elemento que
eles vão descobrindo no correr dos anos
20 que é assim: "A carga de educação
sexual tem que disparar. no início
legaliza o aborto.
Para você poder equilibrar as
consequências da legalização do aborto,
ou seja, da transformação do aborto em
método contraceptivo generalizado,
você precisa de educação sexual. Você
precisa mudar a moral. É, exatamente.
>> Você precisa fazer com que as mulheres
não apenas ten sejam donas do seu
próprio corpo, como saibam
>> eh os homens e as mulheres conheçam o
corpo e saibam que fazer.
>> Por isso, hoje existe todo um amparo
inclusive psicológico, onde o aborto é
legalizado, né? Não é uma coisa que é
simplesmente liberada e pronto, existe
toda uma estrutura. Então, já nos anos
20, houve medidas na União Soviética de
porque no início o aborto era
absolutamente era ambulatorial,
chegou, quer fazer aborto e faz. Aí eles
começaram a adotar mecanismos de de
apoio psicológico. Então se a mulher
pediu aborto, o o aborto ia ser feito,
mas ela tinha um atendimento psicológico
e tinha regras diferentes para mulheres
menores de idade, mulheres maiores de
idade em termos de atendimento. vai se
criando uma estrutura de atendimento,
porque como todo processo
revolucionário,
é muito mais rápido mudar a lei do que
mudar a estrutura e mudar o arcabolso
moral em que opera a sociedade, né? A
lei foi fácil mudar. Em 1920 o SOVET
aprovou, eu e era um um limite de
aborto, era o limite
máximo que a saúde pública da época
determinava. Eu não sei quantas semanas
eram, mas era
até o fim da União Soviética, na União
Soviética era o aborto mais o direito
mais tardio ao aborto era na União
Soviética. Era o máximo de semanas que a
saúde pública calculava como
aceitável, enfim.
Eh, então a lei foi fácil de ser mudada.
Depois de mudar a lei, foram correr
atrás de criar estruturas de
atendimento. Vamos nos recordar que nós
não estamos no século XX, nós estávamos
no início do século XX.
Apoio psicológico precisava de
psicólogos, de profissionais formados em
psicologia. Não existia isso.
Não existia isso.
>> Claro, não existia isso, não é?
Então são estruturas
antibiótico,
>> não, não tinha antibiótico, não tinha
penicilina, não tinha nada,
>> né? Então era uma uma situação
que eh foi sendo construída uma
estrutura depois de mudar a lei e há
mudanças na lei para refrear,
digamos, eh determinadas situações até
que uma determinada estrutura pudesse
existir, né?
Eh, mas esse foi um elemento essencial,
o divórcio, a legalização do aborto,
eh,
e a dessacralização
e e na prática o esvazeamento do papel
do casamento civil como instituição
normativa na sociedade, né? é um
programa extremamente avançado. Eu eu
assim, se a gente olhar os programas
mais avançados do feminismo de hoje, não
chega a 60% do que eles fizeram há 100
anos atrás,
né? Essa ideia de que, especialmente se
é verdadeiro feminismo liberal, né? De
como o feminismo fosse uma coisa nova,
não é? assim que surgiu
nos Estados Unidos ou na França ou na
Alemanha nos últimos 30 ou 40 anos.
Eh, ou até de que mesmo no interior da
esquerda, muita gente acha isso, não,
nós estamos descobrindo o feminismo
agora, a esquerda nunca ligou para
feminismo, né? Tradição de esquerda não
existe o feminismo. Isso é uma fantasia,
né? seja e no âmago da revolução de
outubro houve
so a liderança da Colontai, um programa
feminista feminista
e estrutural e a revolução aconteceu
como
>> claro além do papel das mulheres na
revolução, né? Então isso aqui é uma
coisa que tem que ser bom. Eh, e aí eu
não sei o que aconteceu com o filho da
Colontai, da relação dela com ele. Quem
perguntou foi o
>> Roberta. Roberto, eu não sei.
Tá aí. Fico devendo essa. Roberto, eu
não sei o que aconteceu.
Devia ter estudado isso, né? Escapou.
>> Pela sua experiência por tanto de
líderes mundiais,
esquerda e direita, como é que é? Como é
que sempre tem um problema com essa
vida? Eles são assassinados, eles são
revolucionários, próximos,
etc. ou
não todo mundo é programas
>> é um pouco.
>> Deixa eu só fazer um parênteses, Breno,
sobre a questão do aborto. Quando ele
foi liberado, inicialmente, pesquisei em
alguns links aqui, tá, gente? Eh, de
início ele foi liberado sem um prazo
máximo da gestação. Como o feto não era
não tinha não era detentor de direitos
humanos, de direitos, eh a gravidez
podia ser interrompida a qualquer
momento inicialmente. Depois teve
alterações na lei e aí a partir de 1991
é colocado prazo legal de até a 12ª
semana. Mas antes disso, o Stalin chegou
a revogar o o direito ao aborto e depois
ele volta a ser liberado
em 55, mas aí só em 91 regulariza essa
esse prazo. Depois de acabar da União
Soviética.
>> Exato.
Mas a princípio não havia nenhum prazo.
Bom, então vamos pra próxima rodada. O
Eduardo já
>> ele já tinha levantado a mão.
>> É verdade. A Janaína perguntou
alternativ eh vamos nos recordar que
antes da NEP logo em seguida a revolução
em e em função da guerra civil e o a
União Soviética vive uma etapa que
duraria ali de 1917, 1918 a 1920, que
era o comunismo de guerra.
No comunismo de guerra tinha acabado o
mercado, todas as propriedades tinham
passado por controle do estado, não
havia nem mais dinheiro, era a economia
funcionar por métodos administrativos,
não é? Eh, o governo passava numa
situação de absurda escassez para
garantir o esforço da guerra civil. Toda
a economia passou a funcionar por
métodos administrativos. Não havia mais
propriedade privada, não havia mais
mercado.
Eh,
havia um setor do partido no qual estava
Colontai, que considerava que o
comunismo de guerra tinha sido um grande
avanço porque havia permitido a pular
etapas.
Seja,
a propriedade privada tinha deixado de
existir, as classes sociais tinham
deixado de existir e era e dali devia se
desenvolver o país a partir dessa
estrutura de comunismo de guerra, sem
voltar a mecanismos de mercado. Essa era
a posição da oposição operária e essa
era a posição com matizações
do Trotsk. Trotsk, Perobagensk e outros.
Não era a posição do Lenin. O Lenin
considerava, ele luta duramente contra
essa opinião e diz negativo. Nós não
podemos ter o socialismo é quando ele
cunha a frase dele. O o socialismo é o
poder do Sves mais eletrificação. Que
que ele queria dizer com isso? É o poder
da classe operária, mas tem que ter
desenvolvimento.
E nós, essa situação que nós temos hoje
é uma situação para administrar a
escassez. O socialismo não sobrevive com
a escassez. é necessário ter produção de
riqueza, desenvolvimento das forças
produtivas e nós não temos como
desenvolver as forças produtivas eh
nesse momento, sem recompor o mercado,
sem
restabelecer mecanismos de mercado, não
é? Então, no fundo, a luta era entre a
manutenção do comunismo de guerra
ou ANEP.
E Alexandra Colontais se associava aos
defensores do comunismo de guerra. Qual
era a crítica que ela fazia? Porque que
isso tá associado a tese da oposição
operária sobre os sindicatos? Ela
considerava que com a NEP voltaria a
existir um patronato nas empresas,
mesmo que o estado continuasse com a
propriedade formal de determinadas
companhias, o retorno dos napman, que
que era os Napman? Eram os antigos
executivos das empresas. na sua época
capitalista, que tinham sido afastados e
até presos durante o processo
revolucionário e que Lenin dizia: "A
gente não tem a mínima capacidade de
tocar uma ciderúrgica. Pegue aquele
executivo que a gente meteu na cadeia e
traz de volta,
porque a gente não sabe fazer uma tocar
uma fábrica". Então, qual era o receio
da Colontai de que isso levaria ao
ressurgimento da opressão capitalista
dentro das fábricas? E por isso ela
achava que ela era contra isso também.
Por isso ela propunha sindicatos com
mais liberdades para poder enfrentar
esses novos patrões, esses napman,
cuja política econômica de Lenin
estimulava.
>> Bom, vamos para mais uma rodada agora.
Meu nome é Eduardo. Ô Breno, eu gostaria
de saber como é que você
analisa o movimento feminino hoje. Ã,
porque no meu ponto de vista parece que
tá muito centralizados na centralizado
nas lutas específicas,
né? perdendo um pouco o horizonte da
ciência do proletariado.
Por exemplo, o coletivo
feminino classista Ana Montenegro faz
essa ação combinada entre a luta prolet
as lutas específicas, né, da mulher que
são fundamentais
com a com o horizonte revolucionário.
você se refere às intersexualidades,
né, da Você se refere às
intersexualidades do do feminismo no
caso, né? Sim, sim, sim. É, as lutas
específicas, né? Eh, maternidade sobre
sexualidade, etc, etc. Mas eu acho que
perdeu um pouco
o olhar revolucionário da ciência do
proletariado.
É isso.
>> Quem mais? Quem quer fazer pergunta?
Oi, meu nome é Valéria e eu queria
saber, Breno, se houve, voltando nessa
questão também do feminismo e da
revolução sexual, se houve
uma aproximação
eh formal
entre
a Colontai e Vilam Ris.
dado toda o a trajetória do Rich como
psicanalista e a obra dele inicial, que
é a revolução sexual da juventude e tudo
mais. e se há dentro dessa dessa veia
artística dela como escritora,
uma comunicação também direta, formal
com pessoas do do calibre do Maakovski,
por exemplo.
Mais alguém quer fazer pergunta?
Bom, eu vou incluir então a ali
>> mais uma.
Olá, meu nome é Michele. Eh, Breno, a
gente consegue enxergar assim as
contradições do feminismo liberal, né?
Mas pensando um pouco na trajetória da
Colontá e o desdobramento, a recepção
até que ela teve posteriormente de um
certo apagamento até da história dela,
me faz pensar também nas contradições
paraa efetivação de um socialismo
de fato feminista, né? Eh, então queria
entender um pouco se dentro dessa
própria construção intelectual dela,
para além de uma agenda propositiva em
termos de direito, ela também fez uma
crítica interna ao partido em relação a
esses limites e essas dificuldades de um
socialismo efetivamente feminista ali na
União Soviética.
>> A gente pode colocar mais uma ainda?
Mais alguém quer fazer?
Não. Então eu vou incluir uma pergunta
que foi enviada.
pela Maria Lídia Romero, que tá vai
acompanhar a gente de Roma, na Itália, e
ela pergunta eh
por a Colontai teria sido uma das poucas
revolucionárias a sobreviver à
perseguição de Stalin.
>> A gente pode seguir com essas.
Bom, Eduardo, eh,
sobre a avaliação no movimento feminista
atual, eu não seria saberia fazer essa
avaliação.
Não, não. Eh, eu tenho uma, eu acompanho
o máximo que eu posso, mas eu tenho uma
opinião muito superficial para aqui
fazer uma avaliação, não é? Eh, eu
acompanho os debates como todos nós
aqui, eh,
sobre as diversas abordagens.
Eh, eu acho que a gente deve ter sempre
muito cuidado eh em evitar a
estigmatização de posições, por exemplo.
É um e essa essa inserção do feminismo
na luta socialista, como a gente poôde
ver aqui, é um debate já muito antigo,
né? E é um debate tenso, né? Eh, mas eu
não me sinto
com informações suficientes para fazer
uma avaliação a esse respeito. É o tipo
de avaliação que quem participa do
movimento feminista tem condições de
fazer, né? Eu não tenho uma um
acompanhamento
suficiente para uma avaliação desse
tipo.
Eh,
a pergunta da Valéria sobre a a Olha,
nos escritos que eu conheço da Colontai
na sua biografia não há nenhum momento
de relação formal dela com Rich, não é?
Rich a cita, mas ela não cita Rich,
nãoé? Rich faz
citações periféricas sobre mais sobre o
que a revolução russa tinha feito em
termos de políticas eh públicas que a
gente sabe que foram estimuladas, entre
outros, por Colontai, mas não há
propriamente que eu conheça tampouco uma
apreciação do Raj especificamente sobre
a obra do da Colontai, não é? Eh, e mas
a Colontai não não se refere a Richis,
né? Eu não sei se ela conhecia sua obra,
nãoé? Vamos nos recordar que o Rich ele
vai ganhar eh repercussão na Alemanha
quando a Colonta já tava fora da União
Soviética,
ela já tava no serviço diplomático, né?
Ela ela já tava ela em 23 ela já tá no
serviço de diplomático, ela já tá fora
do país. Então e é um momento também que
ela decide, digamos, reduzir muito a
intensidade dos seus estudos sobre a
questão feminina, sobre a nova moral,
sobre todos esses temas mais
controversos. Ela
se afasta dessa discussão, que é o
momento em que o Rich
vai ganhar
eh
espaço, né?
Tampouco há por parte da Colontai
referências ao enorme
movimento cultural que havia na União
Soviética naquela época, né? Eh,
paralelamente ao que fazia Colontai
no âmbito dos direitos das mulheres ou
da ou no período que ela foi do
comissariado do povo pro bem-estar
social, paralelamente a
um enorme trabalho educacional e
cultural
chefeados por Luna Charsk
e que daria origem também a eh
a trabalho
a avanços a a escolas literárias
cinematográficas
relevantes a Mayakovski e Einenstein,
nãoé, e tudo aquilo. Ela não tem
citações sobre isso, né? Ou seja, eu não
acho que ela tenha dedicado
eh algum esforço analítico sobre a
cultura,
tá? O esforço analítico dela se
desenvolve em torno das questões de
gênero e das questões mais gerais do
socialismo. Eu não conheço nos textos
dela
eh referências sobre a cultura de uma
maneira mais esmiuçada. Agora, eles são
contemporâneos, né? Então, é de se
imaginar que havia ali uma intersecção
importante. E ela não dava muita muita
relevância ao trabalho literário dela,
né? também tem isso. Quer dizer, a
literatura para ela, ela mesma diz isso
na sua autobiografia,
a literatura para ela era como escrever
um diário, ou seja, era uma era uma
maneira pela qual ela organizava seus
sentimentos e buscava expressá-los com
alguma utilidade para as pessoas que
viessem a ler suas novelas. Elas ela não
se via como uma literata, como uma
escritora, não é? Eh, eh e e não há,
portanto, na trajetória dela, uma
intersecção maior com aquelas com
aqueles movimentos culturais que estavam
acontecendo naquele naquele período.
Embora eh, claro, nem tudo o que a gente
vive a gente escreve, né? Então, essas
pessoas viviam no mesmo espaço, na mesma
cidade. Eh, evidente que elas deviam ter
múltiplas conexões, não é? Mas não há
uma elaboração, né? Quer dizer, você me
perguntou sobre a aproximação formal,
uma elaboração dela não há. Se há, eu
não conheço.
Eh, a Michele perguntou sobre as
críticas
eventuais da Colontai, as dificuldades
de lidar com a própria pauta eh
feminista no interior do partido. Ela
faz críticas a isso, sim.
Mas há um turning point, há um ponto a
partir do qual ela ela recua. Esse ponto
é quando irrompe a luta interna já com
Lenin afastado do governo, quando ela se
dá conta que haveria um pega para capar
na luta interna do partido e ela vê isso
com muita muita preocupação
e aí ela diz: "Eu não vou contribuir com
isso. Eu vou a linha que tá predominando
é essa, é essa a linha que o nosso
partido quer seguir. essa
apoiar essa linha é meu dever e ela se
afasta da crítica, não é? E o e essa
postura dela é o que explica também
porque que ela eh embora tenha sido
líder da oposição operária na
confrontação contra Lenin e Stalin no
10º Congresso, isso explica porque que
ela é uma das explicações de porque que
ela não foi arrastada pelos processos
repressivos dos anos 30.
porque ela não tava metida nos na
disputa interna, né? Além dela ter muito
prestígio.
Veja, Alessandra Colontai, ela era mais
velha que Lenin, que Stalin e Trotsk. A
Colontai era quase da idade do Lenin.
Ela era apenas 2 anos mais nova que que
o Lenin.
Trotsk Stalin nascera em 1879.
Len em 1870, Colonta em 1872. Ela era
uma militante do Partido Operário
Socialdemocrata Russo desde os primeiros
anos, não é? Eh, e esse prestígio teve
importância. Ele era uma pessoa muito
próxima a Lenin, não é? Tanto é que
outras mulheres tampouco foram
arrastadas pela repressão. Grupkaia
nunca foi arrastada pela repressão.
Estas nunca foi arrastada pela
repressão. Colontai tampouco, né?
As três tiveram a mesma postura. Embora
elas tivessem críticas e discordâncias,
elas consideravam que, dada as ameaças
que havia contra o Estado Soviético, a
postura que elas deveriam adotar era de
apoio ao Stalin, mesmo com as
discordâncias.
E essas pessoas acabaram
não sendo alvo, digamos, das dos
processos nos anos 30.
Bom, vamos abrir mais uma rodada, ver a
Tá bom. Eh,
>> um pequeno intervalinho só pro Bredo dar
um pulo no banheiro e aí quando ele
voltar, então a gente começa mais uma
rodada. Se vocês quiserem pegar uma
água, vai ser um intervalo rápido, mas a
gente já continua.
>> Pode passar.
Ah,
essa hora chegando
9
várias vezes
>> pessoal que tá aí fora, a gente já vai
continuar por aqui, tá bom?
>> Você quer pode começar? Você já pode
não, ele não sabe,
>> pode ir já pode falar,
>> pode perguntar
>> é primeiro seu nome. Tá bom.
>> Eu vou ter que chegar ali porque eu
fiquei com a minha visão
>> ficou bem obterada e eu não enxergo o
que ele fala, mas enfim. Ah, dentro de
uma questão que um colega
ali, você
>> colocou que essa questão em que medida o
movimento feminista
eh não tá não tá sujeito. Hã,
>> o microfone perto também.
>> Meu nome? Ah,
>> não, para você deixar o microfone perto.
>> Ah, tá. Tá bom. porque eu tô mexendo
muito. Então, em que medida o movimento
feminista não tá muito submetido, né, as
lutas específicas e isso perderia um
pouco a perspectiva revolucionária, né?
Eh, eu acho que isso tem
razão de ser e qualquer outra eh
oportunidade que a gente tem aqui de
reunir e discutir a questão feminista,
né, com com os exemplos das líderes
mulheres, ela vai voltar. Agora, se tem
isso que cai, resvala pro identitarismo
das lutas específicas. Por outro lado,
tem também um movimento feminista
bastante importante, que é aquele que tá
estudando as relações entre classe,
gênero e raça, né? E eu acho que aí vai
ter várias oportunidades da gente vir a
discutir isso, né? E eu acho que
reuniões como esta, eu queria deixar
registrado, elas pegam essa questão da
luta, tem a ver com o resgate, né? o
resgate e a importância das lutas
sociais que a gente tem discutido aqui.
Então, tô curiosíssima de saber o que
nós vamos ter na sequência, se vai
continuar com as lutas das mulheres, né?
Ah, ou ou se vai continuar. Mas eu acho
que a pergunta dele vai permanecer por
outras reuniões e ela é importante.
Realmente o perigo das lutas
específicas, né, de perderem totalmente,
ainda mais no mundo como hoje que a
gente tá enfrentando, de perder esse
valor, esse perspectiva revolucionária,
porque cai um pouco no identitarismo das
lutas mais específicas, né? Então era
isso.
>> Mais alguém quer fazer pergunta?
Não é que foi foi uma foi uma belas,
>> elas são fundamentais.
>> Não, só queria fazer uma pequena
correção aqui. Falei que as lutas
específicas das mulheres são
fundamentais.
>> Uhum.
>> Tá. Eh, tá bom. Só deixar bem bem claro
isso.
>> Vamos lá. Mais alguém quer fazer
pergunta?
>> Nenhuma. Mais. Breno, você quer comentar
então a o que falou?
Só um minutinho.
A Denise vai então fazer um comentário.
>> Então, eh, o feminismo hoje eh
caminha para tem até o livro da Nancy
Fraser, da de outras autoras, que é o
feminismo dos 99%
pela essa intersexualidade, intersecção,
né? É assim que tem que funcionar e é
assim que a gente vê o feminismo. E isso
tá muito ligado às lutas sociais, isso
tá muito ligado ao socialismo. Então não
dá para
especificar mesmo. Eh, eu acho que as
feministas hoje, feminista, eu acho que
é importante que se coloque a
nomenclatura correta, né? Não é as
femininas, são as feministas, né? é, que
são situações diferentes. Eh, elas estão
buscando uma uma luta dos 99%, que
inclui inclusive
a os problemas da natureza, climáticos,
das habitações, de raça, de gênero. Eh,
e isso tá tudo ligado ao problema, aos
problemas sociais e tá justamente ligado
à implementação e manutenção de uma
sociedade socialista, né?
Perfeito. Quer comentar, Br?
É embaixo, tá ligado?
>> Alô. Não, eu acho que tem uma uma
questão importante da Colontai, que a
gente conversou aqui,
mas que vale sempre a pena
destacar, que é o seguinte,
eh, e que vai além da questão feminista,
que é o problema do papel da família.
A construção do socialismo sempre se
deparou com este problema, o papel da
família.
Eh, e é um debate
essencial,
nãoé?
A Colontai
tanto no período em que ela foi, período
breve, em que ela foi comissária do povo
para estado de bem-estar, pro bem-estar
social,
quanto de na sua na sua obra, nos anos
seguintes,
ela propunha, e não era uma proposta
individual dela, era uma concepção
hegemônica do partido Bolchevique.
Eles ele propunha novo arranjo sobre a
questão da família.
mesmo com todos os experimentalismos que
a gente citou aqui,
botou o dedo numa ferida estrutural
essencial.
É possível construir uma sociedade
socialista com as velhas estruturas
familiares,
né?
E e esse é um tema essencial, ou seja, a
mudança das estruturas familiares.
Algumas estruturas familiares,
elas foram ao longo da história se
transformando em células de reprodução
da sociedade de classes
e que não há como você avançar
na construção do socialismo, na
construção de uma nova
sociedade ou na construção
de uma nova democracia,
se você não muda a estrutura familiar E
a estrutura familiar
só pode ser mudada se você criar
um conjunto de
estruturas outras que
retirem da família
o seu papel de célula de classe. Então,
quando a Colontai propõe
eh a ruptura dos mecanismos
individualizadores da família, com
coisas que parecem simples, né?
refeitórios coletivos,
eh,
lavanderias públicas,
>> creches,
>> creches.
Ela tá
tirando do âmbito familiar
uma carga
e tá libertando a família dos laços
econômicos.
A família passa a ser
um encontro voluntário,
porque ela não é mais a unidade
indispensável dos cuidados, ela é um
encontro voluntário.
Eles fizeram várias experiências sobre
isso, né? Eh, houve experiências
eh,
algumas delas trágicas,
do tipo famílias que era estimular a
adoção. Que que era estimular a adoção?
Era um movimento oposto. Famílias muito
pobres que não tinham como cuidar dos
seus filhos. Havia campanhas pro do
estado para que as famílias entregassem
os seus filhos para lares sociais.
com a ideia de que o estado, através de
professores, de creches, de médicos,
seria capaz de substituir 100% a família
no cuidado de crianças pequenas.
Isso foi uma tragédia.
>> Claro,
>> não deu certo, né?
Repito, processos revolucionários são
assim, você tenta soluções extremas
porque o céu tá ao alcance da mão, tudo
parece possível, tá? Não funcionou. Você
você teve problemas dramáticos,
porque na e nem a ciência da época ela
entendia direito qual era o como é que
era a constituição das personalidades,
né? Ou seja, qual era o papel eh na na
primeira infância, qual era o papel das
relações com as mães, como é que isso
podia determinar a formação das pessoas?
Ninguém conhecia essas coisas, isso não
era uma ciência que tava à disposição,
né? Então, havia um certo, vamos usar
entre aspas essa expressão, um certo
determinismo econômico, né? Do tipo
seguinte, ó. Se eu tiro uma família, uma
criança de uma família que ainda é
pobre, de analfabetos, que são incapazes
de cuidar do seu filho, se o estado vai
lá e convence a família a doar seu filho
pro estado, o estado vai conseguir fazer
com que essa criança aprenda mais, tenha
o melhor desenvolvimento físico, se
alimente melhor. Era uma tese econômica.
Aos olhos de hoje pode parecer uma
aberração.
Aos olhos daquela época não havia
conhecimento científico para entender os
riscos que isso que isso provocava. A
análise era assim: "Puxa, olha que é
cruel uma criança ter que crescer. A
gente ainda não conseguiu melhorar a
vida dos trabalhadores a um ponto de não
existir mais esse nível de pobreza. Se a
gente não consegue ainda salvar os
adultos, vamos salvar as crianças". Era
uma tese generosa.
Vamos salvar as crianças, vamos tirar as
crianças dessas famílias e vamos criar
lares sociais sobre supervisão do
Estado.
Então
são,
né? Agora, de toda maneira, o que eu
acho que é muito interessante de estudar
nessa experiência é
eh o papel desses instrumentos em em
criar uma nova sociabilidade. O
socialismo precisa de novas relações
entre as pessoas e de uma nova família.
Essa ideia de você tirar o papel
econômico das famílias, ela é essencial.
Laços emocionais,
>> só laços emocionais, laços livres, né?
Laços voluntários, né? Laços
voluntários.
Então, que é uma discussão que hoje pode
parecer até
um pouco utópica, né? assim, eh, claro,
nós não estamos num processo
revolucionário,
mas que pode também se transformar em
programas objetivos na sociedade hoje,
reivindicações coletivas na sociedade de
hoje,
não é?
>> O CIEPS é isso. E por que que, por
exemplo, os projetos habitacionais são
construídos pelo eh, como chama? Minha
casa, Minha Vida. Eles não são projetos
que prevêm, mesmo que experimentalmente
no início, por que que não são projetos
arquitetônicos que prevêm refeitórios
coletivos,
lavanderias coletivas,
não é? Ou seja, por que que eu não se
experimenta isso?
Não,
>> é mais do que próximo. Eu digo, por que
que não se compreende? mesmo que seja
numa fase inicial como teste,
estruturas habitacionais que tenham no
seu interior refeitórios coletivos,
cozinhas coletivas, cozinha comunitária,
>> creche,
>> creche,
>> escolas,
>> creche eh dentro do projeto, né? Onde
foi desenvolvido isso que eu conheço? É
na Venezuela. A Venezuela criou projetos
habitacionais com essas características
e que Cuba, Cuba Cuba menos, porque nós
são caros esses projetos, né? Cuba não é
exatamente um país rico aqui no Brasil.
>> Aqui no Brasil nas comunidades
indígenas.
>> Ah, sim, sim.
>> Certo. Aí é completamente diferente como
se estrutura a família e como se cria as
crianças e como se alimenta a a turma.
>> OK.
Mas se poderia fazer, claro, são
projetos ambiciosos, mas porque que não
se igual com CEPS, por que que não se
cria um certo número de conjuntos
habitacionais com essas características
e ver como funciona, como é que isso
muda a vida das pessoas?
Mas não são políticas de estado,
>> não. O que eu tô falando é de políticas
de estado. É minha casa, minha vida. Tem
um item ali que é projetos especiais
e criar no país, vamos dizer, 50, 100
conjuntos habitacionais
que vão ter essas características,
não é? E vê o que acontece.
Apesar de é necessário ter uma reforma
agrária para que
que faça parte desse conjunto, né? O
MST, na realidade, o MTST
pode ser que se fosse encampado pelo tá
ligado?
se fosse encampado pelo estado
realmente, né, que não é, eh, poderia eh
caminhar nesse sentido, né? Não sei.
>> Na verdade, na verdade a gente acaba se
amarrando. Parece aquele debate lá do
comecinho do comunismo de guerra. Você
não tem um governo, nós não construímos
uma política e um governo que tenha
poderes para tomar determinadas medidas
que a gente acha correta. Então você tem
escassez de recursos na educação, você
tem escassez de recurso na habitação,
você tem escassez de recurso. Então você
não prioriza uma área e põe todos os
recursos dela. Como você tem escassez,
você fica sempre com programas
insuficientes. Então é um limite da
nossa organização. uma coisa que o MST
tem com cozinhas comunitárias, creches
comunitárias, essas coisas, porque o
limite deles é ali, é pequenininho, a
organização setorial, mas uma política
ampla, pública, a gente esbarra na nossa
organização e dos recursos que tá à
nossa disposição para fazer.
Desculpa. Oi. Eh, meu nome é Sônia. Eu
acho que não é só isso, porque eu acho
que assim, o horizonte político do MST é
confrontar o capitalismo.
Então, se o horizonte político dos
governos forem também provocar esse
debate, a política pública vai nessa
direção. Eu acho que é isso, isso que
falta. Não é uma questão de ausência de
recursos, é de horizonte político, né?
Por isso que criar experiências, acho
essa ideia fantástica, né? O exemplo dos
indígenas, por exemplo, os indígenas
estão numa outra numa num outro
horizonte político, por isso que eles
conseguem exercer isso. E ainda
pensando, eu acho que assim, os
capitalistas eles já fazem isso, não tem
uma preocupação com a relação da
maternidade ou da paternidade. Os filhos
são educados por outros. Os filhos são
educados por grandes colégios dedicados
à manutenção do interesse de classe,
>> então não tem não tem essa relação. Eu
acho discutível isso, que não deu certo
porque tem uma questão científica da
relação com o pai e com a mãe, é com
relação com afeto e com o horizonte de
classe.
>> Tem mais duas perguntas, dá tempo.
>> Dá, dá,
>> tem. Pode. Ele Ah, foi primeiro.
>> A gente inclui juntas. Eh, não tem
problema. Pode pegar de todas, a não ser
que você queira comentar alguma coisa
antes. Breno,
>> pode pegar todas as perguntas primeiro.
>> Olá, Breno. Boa tarde. Eh, bom dia, né?
Meu nome é Vani Braz,
>> tá ligado? Pode falar.
Eh, eu sempre tenho aquela preocupação
da
questão da civilização. Nós nosso
raciocínio
é essa civilização judaico, cristã
ocidental que nós temos e o capitalismo,
que é o sistema dominante. Então, os
nossos raciocínios, as nossas discussões
são nesse campo. E hoje a gente, na
geopolítica, nós temos a emancipação do
do Oriente, né, da da principalmente da
China, mas não só, e a situação das
mulheres lá, né?
Então eu acho que essas discussões,
tanto lá, por exemplo, como a China vai
melhorar a situação da mulher, como aqui
na Europa, na África, então é é
dramático, né, a situação da da do
subjulgamento da da mulher, né?
Então eu acho que a nossa luta deveria,
por exemplo, através da UNESCO, fazer
estudos propondo
a questão feminina.
Nós não estamos fazendo uma análise do
material pelo método do materialismo
dialético, só discutindo o ocidente, por
exemplo. Aí eu queria dar um exemplo, a
questão de Gaza dos palestinos
já acho que está 2 anos, mais de 2 anos
a guerra lá, a invasão da de Gaza.
e morrem crianças recém-nascidos. Quer
dizer, não pararam de de produzir com
toda a miséria da guerra que está
acontecendo lá. A questão da poligamia
entre os árabes
na Índia, né? No o a poligamia é
uma discussão. Porque que a monogamia é
melhor que a poligamia? Vem de uma
situação econômica. Na África, por
exemplo, quem produz agricultura
eh são as mulheres e o cara fica rico
quanto mais mulheres ele ele possuir
para produção. Claro que isso vai
mudando aos poucos, mas a gente não tem
uma uma diretriz
como, por exemplo, os direitos humanos,
né? conseguimos fazer na através da ONU
eh
o estabelecimento de valores de como
deve ser o desenvolvimento humano.
A questão na África
eh tem um agravante, né, ali na como é o
nome do É um país que foi dominado pela
França
e que ainda é praticado. Quer dizer, ele
é o mais famoso, mas tem vários lugares.
a ablação critoriana
e as mulheres e os eh os homens, os
habitantes não tem consciência disso.
Então nós temos livros e
movimentos na França, principalmente
quando chegam esses imigrantes que foram
dominados pela França e a mulher toma
consciência disso. Eu eu eu não sei
citar aqui, mas vocês conhecem.
eh livros, histórias, tem escritoras
famosas que se reeducaram quando
chegaram na França sobre todo o sistema.
Ela vem de uma poligamia, ou seja, o
marido dela tem duas, três esposas
e já vem com essa ablação, né, e esse
problema. e tomam consciência e tentam
fazer o movimento isoladamente.
É um problema específico. Então, por aí
eu queria eh ver com você a sua opinião
do dessa questão da,
como é que se diz, de não
ser universal. A gente precisava ter uma
proposta universal.
>> É isso aí. Obrigado.
>> Tá bom. Obrigada, Vani. Mais alguém?
quer fazer o Roberto?
A gente pega mais essa e aí a gente já
vai pra resposta do Breno, tá bom?
O o mundo mudou rapidamente,
profundamente, desde a primeira
revolução industrial, depois a segunda e
assim por diante. Vem a sociedade de
consumo,
consumo. Os os capitalistas começam a
tomar conta dos governos, como está
agora, e fazer qualquer coisa dentro
desse modelo é impossível. O contraponto
a tudo que está aí, mas não é possível
mais, é uma comunidade indígena, não
ainda aculturada. Eu assisti ontem num
programa, a Sara Sara Vivaco, é uma
advogada brasileira que mora em Londres.
Ela tá no Pará dentro de uma de uma de
uma tribo e lá as crianças são criadas
pela família, por todo mundo. As
crianças de 5 anos carregam bebê de 1
ano, brincam com eles. As mães verificam
isso longe. O contraponto a esta loucura
seria algo no no sistema radical da vida
em tribos. Isto aí eu não sei onde é que
nós vamos parar. coisa aqui tá tá
radical e não tem chance de mudar dentro
do capitalismo. Existem dois livros do
professor Luís Marques da Unicampo
da natureza e o capitalismo. São
incompatíveis. Ou cai ou cai o
capitalismo ou cai o planeta. Nós
estamos diante dessa coisa violenta que
é a destruição do planeta e isso tudo
dentro desse outro problema.
>> Obrigada.
Você
quer comentar?
>> Não, só um comentário rápido aqui, eh,
sobre como é o nome dele?
>> Alvanir.
>> Alvanir colocou. É real isso. Quer
dizer, a gente precisa quando debate
essas questões estudar as distintas
experiências e as distintas realidades,
né? Porque muitas vezes a gente se
concentra muito eh no que nos é mais
próximo, que é como funciona o Ocidente,
nãoé?
Como funciona o Ocidente capitalista,
mas é no ocidente capitalista que tá o
Brasil, né? Então, quando a gente vai
discutir os temas brasileiros,
acho que a gente tem que que
obrigatoriamente esse é o nosso ponto de
partida. Quero aqui
para finalizar aqui a nossa nossa essa
manhã de sábado,
retornar a Colontai, né? Eh,
e e eu acho que essa é uma chave de
leitura essencial.
Ela
fez parte de uma geração de pessoas,
especialmente
os militantes e dirigentes bolcheviques,
que tinha um grande convencimento
e que nenhum dos grandes problemas
que enfrentava a Rússia daquela época ou
a Europa ou o mundo seria resolvido sem
que houvesse uma revolução socialista.
Esse era o grande convencimento deles.
Eles tinham um sentido de destino, que é
o que os irmanava mesmo nessa seara de
divergências,
eh,
no que os arrastava o tempo todo para
debates que pareciam infinitos. Seria o
sentido de destino, ou seja, é
necessário construir uma outra
civilização, uma civilização socialista.
E eles operavam as políticas a partir
desse destino.
O olho de cada política não era resolver
um problema imediato,
era resolver um problema imediato em
conexão com o futuro, né?
E eu acho essa uma questão metodológica
essencial.
Eh, nenhum dos grandes problemas que nós
enfrentamos aqui será resolvido
na sociedade capitalista.
Agora, nós devemos saber
colocar os problemas que existem e por
pôr soluções,
ainda que essas soluções elas não sejam
imediatamente
eh possíveis de ser adotadas, mas elas
servem para que as pessoas tenham
consciência de que é possível viver de
outro jeito.
experiência políticas públicas num
governo de esquerda tem que ter essa
função,
resolver um problema concreto, claro,
mas mostrar que é possível viver de um
outro jeito,
que esse jeito que a gente vive, ele não
é uma decisão da história,
não é? Ela não é uma uma estação final,
ela é uma etapa que pode ser
ultrapassada e que precisa ser
ultrapassada
pro próprio bem da humanidade. Era só
isso que eu queria falar aqui. Muito
obrigado.
>> Bom, gente, esse foi o Café com História
de hoje. Espero que vocês tenham
gostado. Novamente quero convidar vocês
a reassistir o episódio da revolução
russa para ter uma nova perspectiva.
Eh, a gente espera ver vocês novamente
no próximo programa que acontece aqui
mesmo na Tapera no dia 30 de agosto. E o
próximo tema, que foi escolhido por
vocês será a biografia de Thomas
Sancara, o líder revolucionário de
Burkina Faso. Eh, lembrando que vocês
vão receber o link dessa das gravações.
Quem é apoiador pelo site recebe por
e-mail. Quem é membro do YouTube vai tá
postado lá na comunidade. A gente vai
incluir as indicações bibliográficas na
descrição para vocês eh consultarem. E
vocês podem compartilhar também o link
com quem vocês eh quiserem e qualquer
dificuldade para acessar é só conversar
com a gente. Convido novamente para
vocês darem uma olhada no acervo da
tapera. Lembrando que dois dos livros
das indicações do Breno estão
disponíveis aqui. E a gente tem também o
nosso bazar. Através eh dessas formas
vocês conseguem continuar apoiando de
outras formas, né, o nosso trabalho na
promoção da cultura, do conhecimento da
informação e também o trabalho da
tapera. É isso.
[Aplausos]
Ask follow-up questions or revisit key timestamps.
A biografia de Alexandra Kollontai é apresentada, destacando-a como uma figura singular do século XX. Nascida em 1872 em São Petersburgo, de família aristocrática, ela desenvolveu precocemente uma consciência social. Seu casamento, mesmo com um homem progressista, a fez sentir-se entediada e aprisionada, levando-a a se separar para estudar economia na Suíça. Lá, ela se tornou uma marxista revolucionária, criticando o feminismo liberal e defendendo a união entre feminismo e socialismo, com foco nas mulheres proletárias. Após um período de exílio e intensa atividade intelectual, ela retornou à Rússia em 1917, tornando-se a primeira mulher a ser ministra de Estado (Comissária do Povo para o Bem-Estar Social) e a primeira embaixadora na história moderna. Durante seu mandato, implementou políticas radicais como a legalização do aborto, divórcio facilitado, criação de creches e lavanderias coletivas, e proteção ao trabalho feminino, buscando libertar as mulheres das cadeias do patriarcado e do trabalho doméstico individual. Após discordâncias políticas internas e liderar a Oposição Operária, ela optou pelo serviço diplomático em 1923, atuando na Noruega, Alemanha, México e Suécia até 1945, o que a poupou das perseguições estalinistas. Embora suas ideias sobre sexualidade e família fossem consideradas "desviacionistas" por muitos e alguns avanços tenham sido suprimidos nos anos 30, sua obra foi resgatada e valorizada pelo feminismo socialista a partir dos anos 1960 e 70, tornando-a um símbolo da associação estrutural entre feminismo e socialismo.
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