um TOUR pelas MARAVILHAS do RENASCIMENTO
346 segments
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Nós estamos na magnífica cidade de Roma por volta de 1402 depois de Cristo. Naquela época, Roma
vivia sob a sombra do que um dia ela havia sido. Se você pudesse caminhar pela cidade, você veria
ruínas imperiais para todos os lados. O coliseu estava praticamente desmoronado e o fórum romano
era usado como campo para as vacas pastarem. E foi ali, em meio a toda essa decadência,
que dois homens apareceram cavando o solo, do que um dia foi a maior cidade do mundo. Eles estavam
ali sujos de terra, medindo alguns pedaços de colunas quebradas e anotando os resultados em seu
caderno. Um desses se chamava Felipo Brunelesque e o outro Donatelo. As pessoas ao redor acreditavam
que esses dois homens são apenas caçadores de tesouro em busca de ouro. Mas a verdade é que eles
realmente procuravam um tesouro, mas não em moedas e sim em conhecimento. Felipo e Donatelo buscavam
nos antigos conhecimentos que poderiam ser utilizados nos dias de hoje. Eles não sabem ainda,
mas o que estão fazendo ali cavando entre os escombros na madrugada romana vai mudar a história
da arte para sempre. Porque o que eles estão trazendo de volta não é só a técnica, é uma forma
totalmente nova de enxergar o ser humano. Afinal, esses dois homens foram peças fundamentais para o
surgimento de um momento na história que você já deve ter ouvido falar, o renascimento. Quando se
fala em renascimento, a imagem que vem à cabeça é sempre a mesma. Leonardo da Vin Michelâelo,
Rafael, gêmeos pintando afrescos magníficos. esculpindo estátuas que parecem estar vivas.
Mas o renascimento foi muito mais do que isso. Foi uma revolução intelectual que transformou
a Europa de cima a baixo, que mudou a forma como enxergamos o mundo, como fazemos ciência e como
entendemos o que significa ser humano. E tudo isso começou de um jeito que ninguém esperava,
não com glórias e pompas, mas com a morte, com o colapso e com o fim de um mundo inteiro. Afinal,
antes da Europa renascer, ela precisou morrer. foi justamente dessa morte,
dessa destruição absoluta que nasceu uma das épocas mais extraordinárias da história humana.
Mas como isso aconteceu? Como a Europa saiu da Idade Média e entrou no renascimento? E por que
isso mudou para sempre o rumo da humanidade? Então, pega o seu café e se ajeita na cadeira,
porque nós vamos fazer um tour completo pelo Renascimento hoje no Explicando SP.
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O século XI foi um verdadeiro pesadelo. Não é exagero. Ele foi literalmente um dos piores
séculos da história europeia. Durante quase 1000 anos, a Europa viveu sob o sistema feudal,
onde a Terra significava poder. A lógica era simples: quem tinha terra mandava e quem não tinha
obedeciam os que tinham. Os camponeses trabalhavam nas terras dos senhores feudais em troca de
proteção. A igreja controlava a vida espiritual e boa parte da vida intelectual também. E olha,
por séculos isso funcionou. Não era perfeito, na verdade bem longe disso, mas era estável. Só que
quando nós chegamos no século XI, tudo começou a desmoronar. Primeiro veio um golpe climático
que culminou na fome. De uma hora para outra o clima europeu começou a esfriar. Chovia demais em
algumas regiões e fazia frio em outras, e por isso as colheitas que sustentavam as famílias começaram
a falhar. No meio disso, a guerra dos 100 anos começou deixando campos inteiros abandonados.
Mas o pior ainda estava por vir. Em 1347, navios genoveses chegaram ao porto de Messina,
trazendo consigo um problema invisível, a peste negra. A epidemia se espalhou pela Europa como
fogo em mato seco. Em apenas quatro ou 5 anos, 1/3 da população europeia havia morrido. 1/3.
Cidades inteiras eram esvaziadas. Os corpos se acumulavam nas ruas porque não tinha gente
suficiente para enterrá-los. E o impacto disso foi muito além do número dos mortos. O sistema feudal
inteiro entrou em colapso porque de repente havia muito mais terra do que gente para trabalhar nela,
fazendo com que o trabalho humano subisse de valor. Assim, os camponeses que sobreviveram
perceberam algo extraordinário. Agora, eles também tinham poder de barganha. Não dava
mais para manter o antigo sistema de servidão. Quando faltava braço para trabalhar, os camponeses
começaram a exigir melhores condições, abandonando os feudos e fazendo revoltas. O mundo rural, que
havia sido a base da Europa medieval por séculos, estava desmoronando. E enquanto o campo entrava em
crise, as cidades começaram a crescer. O comércio mediterrâneo, ainda no século X, havia ganhado um
novo impulso a partir das cruzadas. E quem se deu bem com isso foram as cidades italianas,
principalmente Veneza, Gênova e Florença. Graças à posição geográfica privilegiada, essas cidades
assumiram o protagonismo absoluto do comércio e foi assim que nasceram os primeiros burgos,
pequenas fortalezas que cresceram tanto que acabaram virando cidades com os habitantes desses
lugares passando a ser chamados de burgueses. Diferente dos servos que estavam presos à terra,
o burguês era livre, livre para viajar. livre para negociar e livre para lucrar. Com essa mobilidade,
ressurgiu uma classe que havia sido praticamente eliminada da Europa, a classe dos comerciantes
livres. E com ela voltou a moeda. As moedas de ouro e prata voltaram a circular com força
e viraram o motor das trocas. Essa nova economia monetária causou um terremoto na estrutura social
por séculos. O poder foi medido pela quantidade de terras que um nobre possuí. Mas a burguesia
provou que o capital em movimento, o dinheiro vivo e o comércio podiam gerar uma riqueza muito
mais rápida e flexível. Era a primeira vez na história medieval que o dinheiro se tornou mais
importante do que a Terra. Mas apesar de todo esse poder financeiro, a burguesia tinha um problema.
Eles eram ricos, muito ricos, mas não tinham o privilégio dos títulos de nobreza,
não tinham a autoridade do clero. Eram apenas habitantes das cidades que haviam enriquecido
num mundo que até muito pouco tempo media riqueza com campos e castelos. Então eles encontraram
uma solução. Se eles não podiam ser nobres de sangue, eles iam ser nobres de cultura. E para
isso eles precisavam financiar arte, financiar intelectuais e financiar o conhecimento. Foi
assim que nasceu o mcenato. E foi o mcenato que viabilizou o renascimento, como a gente conhece.
Diferente de reinos centralizados, a Itália era formada por várias cidades estado independentes
e Florença se destacou. Primeiro porque ela tinha dinheiro, muito dinheiro. O comércio de lã e seda
havia enriquecido a cidade, tanto que eram os bancos florentinos que financiavam os reis e
os papas. E segundo, porque a Itália estava rodeada de ruínas romanas, colunas quebradas,
arcos desmoronando, esculturas enterradas. E tudo isso estava ali no cotidiano, funcionando
como lembrança constante de que a antiguidade havia existido e que ela havia sido grandiosa.
E foi justamente isso que inspirou Bruneles e Donatelo. Lembra deles no início do vídeo cavando
em Roma em 1402. Então quando eles voltaram pra Florença, eles voltaram transformados. Bruneles
tinha aprendido algo que ninguém mais sabia fazer, perspectiva linear. Ele descobriu que
podia usar a geometria para criar a ilusão de que uma superfície plana tinha três dimensões,
entendendo que todas as linhas de um espaço convergem para um ponto de fuga no horizonte. E
isso revolucionou a pintura porque pela primeira vez os artistas podiam criar a sensação de que
você estava olhando através de uma janela para um espaço verdadeiro. Mas a grande conquista de
Bruneles foi na arquitetura. Em 1418, Florença tinha um problema gigante. Literalmente. A
Catedral de Santa Maria Delfiore tinha ficado décadas sem cúpula porque ninguém sabia como
construí-la. O vão era imenso, grande demais para ser coberto com as técnicas tradicionais. Então,
fizeram uma competição para encontrar alguém que soubesse resolver esse problema impossível. E
Brunelesk venceu. A solução dele foi genial. Ele construiu não uma, mas duas cúpulas,
uma dentro da outra, se sustentando mutuamente. Entre as duas, ele criou um sistema de nervuras
de pedra e tijolos dispostos em padrão espinha de peixe, uma técnica que ele tinha visto nas
ruínas romanas. Dessa forma, a cúpula ia se sustentando conforme subia, dispensando
andames internos. A obra levou 16 anos, de 1420 a 1436. E quando ficou pronta, os Florentinos a
chamaram de oitava maravilha do mundo. E até hoje essa é a maior cúpula de tijolos já construída na
história. E o mais impressionante, muitas das técnicas usadas por Brunelesk foram tiradas de
uma arquitetura que tinha mais de 1000 anos. Esse é o re em renascimento que a gente tanto fala.
Essa época não fala sobre construir novas ideias, mas sobre reaproveitar o que havia sido esquecido.
Enquanto Bruno Eles revolucionava a arquitetura, Donatelo fazia o mesmo na escultura. Durante a
Idade Média, as esculturas religiosas eram feitas para representar ideias, não pessoas.
E foi Donatelo quem rompeu com isso. Ele queria que suas esculturas parecessem gente de verdade,
com toda a complexidade emocional e física que isso implicava. E para conseguir isso,
ele foi um dos primeiros escultores desde a Grécia Antiga, a estudar a anatomia, observando como os
músculos se moviam sob a pele, como o rosto se contorcia na dor ou no êxtase. E foi assim que
ele criou uma das obras mais impressionantes da história, Maria Madalena Arrependida,
esculpida em madeira por volta de 1453. Não há nada de idealizado nela. A Madalena de Donatelo
é uma mulher envelhecida com corpo esquelético coberto apenas pelos próprios cabelos compridos.
O rosto com olhos fundos e pele enrugada revela uma expressão de sofrimento que parece ter durado
anos. Ela não é uma santa de altar, é uma pessoa real, passando por uma experiência real. Donatelo
queria que você sentisse o peso emocional daquilo que visse a humanidade crua por trás da história
religiosa. E nisso reside toda a força do principal ideal renascentista, o humanismo.
O humanismo é uma nova forma de enxergar o ser humano e o seu lugar no mundo. Durante boa
parte da Idade Média, a cultura europeia esteve profundamente organizada em torno de uma visão
teocêntrica, onde Deus e a religião ocupavam o centro absoluto de todas as explicações. O
conhecimento era monopolizado pela igreja e guiado pela escolástica, um método que buscava conciliar
a fé cristã com a razão, mas na maioria das vezes subordinando a segunda a primeira.
Mas com todas as mudanças socioeconômicas que estavam acontecendo, esse estilo de pensamento
não estava mais dando conta do tipo de mundo que estava surgindo. As cidades cresciam,
as burocracias se sofisticavam e o comércio exigia uma comunicação cada vez mais refinada.
A Europa precisava de gente que soubesse escrever bem, argumentar em público e negociar. Foi esse
contexto que preparou o terreno para o surgimento do humanismo. O início do humanismo é normalmente
associado a Francesco Petrarca. Nascido em 1304. Petrarca passou a buscar os textos clássicos com
uma nova intenção. Ele queria recuperar a voz original desses autores, ler Cícero, Virgílio,
Cênca, não apenas como fontes de exemplos morais, mas como mestres de linguagem, pensamento e vida
interior. Trarca agiu como precursor, mas foi só no século XV que o humanismo começou a tomar
forma nas cidades italianas como um programa de formação conhecido como Studia Humanitates,
que do latim pro português significa os estudos da humanidade. E assim começou um movimento
de intelectuais humanistas que vasculharam as bibliotecas empoiradas de mosteiros por toda a
Europa em busca de manuscritos antigos. O exemplo mais marcante foi em 1417, quando o Florentino
Podio Bratiolini encontrou uma cópia do poema filosófico de Rerum Natura, escrito no século
I antes de Crist pelo poeta romano Lucrécio. O achado era extraordinário porque Lucrécio
propunha que o universo não foi organizado por uma intervenção constante dos deuses, mas sim formado
por partículas invisíveis chamadas de átomos. Essa ideia se assemelha de forma assustadora à
nossa ciência moderna, mesmo tendo sido escrita há mais de 2000 anos. Mas a grande aceleração
desse processo viria em 29 de maio de 1453, quando Constantinopla, a capital do Império Bizantino,
caiu pro Império Otomão. Constantinopla era na prática uma continuação direta do Império Romano,
mantendo viva a tradição greco-romana, enquanto a Europa Ocidental mergulhava na Idade Média.
Quando a cidade caiu, houve um êxodo massivo de intelectuais bizantinos pra Itália, filósofos,
gramáticos e copistas que fugiram levando consigo manuscritos preciosos com obras de Platão,
Aristóteles, Homero e muitos outros autores clássicos. E foi assim que o humanismo ganhou
sua força filosófica, se sustentando sobre o pilar do antropocentrismo, a ideia de que
o ser humano é o centro das preocupações. Enquanto a teologia medieval enfatizava o
pecado original e a miséria da condição humana, os humanistas exaltavam a capacidade humana,
a razão, o livre arbítrio, o potencial de criar beleza e progresso aqui na Terra. A obra que
melhor sintetizava essa nova mentalidade é O discurso sobre a dignidade do homem,
escrito em 1486 por Giovani Pico dela Mirandola. O texto ele imagina Deus dizendo ao ser humano que
diferentemente dos animais ou dos anjos, o homem foi criado sem uma forma pré-definida. cabe a ele,
através do seu próprio livre arbítrio e intelecto, esculpir a si mesmo,
podendo degenerar-se às formas mais baixas ou elevar-se ao divino através da razão. E
aqui percebemos como o humanismo renascentista não era ateu, o que é importante de salientar.
O que eles propunham era a crença de que o intelecto brilhante era justamente um
dom divino que deveria ser usado ao máximo para compreender a criação. Esse novo olhar
sobre a humanidade somado ao apoio financeiro dos messenas refletiu de forma explosiva nas
artes e não tem um nome melhor que represente os ideais humanistas do que Leonardo da Vin.
Leonardo da Vinasceu em 1452, na cidade de 20, no reino de Florença. Ele é frequentemente
aclamado como a personificação máxima do espírito renascentista. Mais do que apenas um pintor de
técnica inigualável, ele transitou com maestria por campos que variam da engenharia à anatomia,
da música à arquitetura, do teatro, a pura ciência. Leonardo registrava grande parte
dos seus pensamentos em cadernos de bolso que guardam alguns dos registros mais inacreditáveis
de sua criatividade. Eram observações sobre tudo. Desde o padrão de ondas na água até a anatomia de
um feto no útero, desde o voo dos pássaros até as expressões faciais que revelam emoção. Uma
das partes mais legais de se ler na biografia do Leonardo V quando ele mostra um registro de
uma lista de compras que o Leonardo tinha no seu caderninho. Para Leonardo, nada estava separado.
Tudo fazia parte do mesmo esforço de compreender a natureza e através dela compreender o próprio ser
humano. E é justamente nessa abordagem integrada que Leonardo representava o humanismo de forma
mais completa do que qualquer outro artista de sua época. Ele não estava apenas reproduzindo a
realidade visível. Ele estava tentando capturar algo mais profundo, o que ele mesmo chamava de
mote delimo, os movimentos da alma, aquilo que acontece por dentro e se manifesta por
fora. Para conseguir isso, Leonardo começou a dessar cadáveres em segredo por volta de
1500. Inicialmente, seu objetivo era puramente artístico, entender a estrutura muscular e óssea
para pintar corpos com mais precisão. Mas logo sua curiosidade ultrapassou o interesse visual. Seus
cadernos registram estudos anatômicos com riqueza de detalhes quase cirúrgica. O coração com todas
as suas válvulas, os nervos que se ramificam pela coluna, os músculos que trabalham em conjunto,
tudo desenhado com uma precisão que só seria igualada séculos depois. E esse conhecimento
anatômico se refletiu diretamente em suas pinturas. A última ceia pintada entre 1495 e 98
em Milão, é o exemplo mais impressionante disso. Leonardo criou o que hoje chamamos de narrativa
psicológica. Cada um dos 12 apóstolos reage de uma forma única ao momento em que Jesus anuncia
que será traído. Pedro se inclina agressivamente. João se inclina para trás em resignação. Judas
recua instintivamente. Thaago ergue as mãos em horror e Tomé levanta o dedo questionando: "Não
são apenas poses, são corpos inteiros falando". E isso só era possível porque Leonardo entendia com
profundidade anatômica como um músculo se contrai quando alguém sente medo, como o peso do corpo
se desloca quando alguém recua em choque. Outra grande obra que sintetiza a filosofia humanista
de Leonardo é o homem vitruviano, feito por volta de 1490. Baseado nas proporções descritas pelo
arquiteto romano Vitrúvio, o desenho mostra um homem nu, com braços e pernas estendidos, inscrito
simultaneamente num círculo e num quadrado. Esse desenho simboliza o antropocentrismo humanista no
ideal de compreender o corpo humano como forma de compreender a ordem do universo. Nessa filosofia,
Deus não desapareceu, mas o ser humano ganhou dignidade suficiente para ser estudado, celebrado
e compreendido como uma criação extraordinária. Foi essa filosofia que guiou Leonardo em sua busca
por compreender a natureza através da observação empírica, quando ele encontrou conchas marinhas
fossilizadas em montanhas. A explicação mais comum na época era o dilúvio bíblico. Mas
Leonardo estudou as camadas de sedimento e deduziu que aquela região em tempos remotos havia estado
submerso. Não era uma interpretação religiosa, era uma conclusão baseada em evidências físicas e
isso já antecipava o espírito da ciência moderna. Décadas antes de Galileu, Leonardo morreu em 1519
aos 67 anos de idade na França. Ele levou consigo alguns de seus trabalhos mais impressionantes,
incluindo a Monalisa, e continuou escrevendo e desenhando até o fim. Mas o que ele deixou
para trás não foram apenas obras de arte, foi uma forma de pensar, uma forma de olhar pro mundo com
uma curiosidade insaciável. E foi justamente por essa forma de pensar que se tivéssemos que definir
todo o renascimento com um único nome, esse nome provavelmente seria Leonardo da Vin. Mas ao seu
lado houve outros nomes tão grandes quanto, que também expressaram com força enorme aquilo que
o renascimento representou. E é por conta dessa explosão de mestres renascentistas por volta do
final do século XV e início do século X, que esse período ficou conhecido como a alta renascença.
A alta renascença foi marcada pela presença de dois gigantes, Michelângelo e Rafael.
Rafael nasceu em 1483 em Urbino e foi, em muitos sentidos, o artista que melhor sintetizou os
ideais clássicos do renascimento. Ele dominava a perspectiva de Brunelesk,
absorveu a técnica de Leonardo e aprendeu com a monumentalidade de Michelângelo,
mas transformou tudo isso numa linguagem própria, numa arte que transmitia serenidade, equilíbrio
e graça. Dentre todas as suas obras, a que mais se destaca nasceu de um pedido do Papa Júlio II,
que em 1509 chamou Rafael para decorar suas salas privadas no Vaticano. Rafael tinha apenas 26 anos
quando começou o trabalho, mas a qualidade do que ele produziu foi tão impressionante que o Papa
mandou apagar os afrescos que outros artistas haviam começado para que Rafael refizesse tudo
sozinho. A sala que mais se destaca é a estanza dela signatura. onde está o que é provavelmente
sua obra prima, a escola de Atenas. Nessa obra, Rafael representa numa única cena,
os maiores filósofos e pensadores da antiguidade. No centro, Platão e Aristóteles caminham lado a
lado. Platão aponta para cima em direção ao mundo das ideias, enquanto o Aristóteles estende a mão
horizontalmente, apontando para o mundo terreno. Ao redor deles, dezenas de outras figuras.
Sócrates, Pitágoras, Euclides, Heráclito, Diógenes. Cada figura está em movimento.
Cada gesto conta uma história e ainda assim a composição inteira mantém um equilíbrio perfeito.
E o detalhe mais interessante é que Rafael incluiu retratos de seus próprios contemporâneos na obra.
Platão é associado ao rosto de Leonardo da Vin. Heráclito é identificado como Michelângelo e o
próprio Rafael aparece no canto direito, olhando diretamente pro espectador Rassim, unindo os
pensadores clássicos com os maiores mestres renascentistas de seu tempo. A escola de Atenas se
tornou uma declaração visual do humanismo. O que Rafael não esperava é que quase 500 anos depois,
um apresentador extremamente bonitão iria criar uma das melhores canecas do mundo com a sua arte
e que você pode garantir agora mesmo na loja. É só clicar aqui no link da descrição. Volta pro
vídeo aí. E o mais interessante é que nessa sala obviamente tem quatro paredes com cada
uma delas representando a filosofia, a teologia, o direito e a poesia. Enfim,
Rafael morreu com apenas 37 anos de idade em 1520, mas mesmo num curto período, ele produziu um
volume impressionante de obras que influenciaram a arte ocidental por séculos. Só que esse também
é até um momento interessante pra gente mostrar como é complexo essa época. É meio contraditório
essa história que eu vou te contar agora, mas o Rafael morreu com 37 anos de pneumonia,
mas por conta de um erro médico, por algum motivo que a gente não sabe qual, ele adquiriu pneumonia
e o médico resolveu aplicar a ele o sistema de sangria, o que acabou enfraquecendo ainda mais
o seu corpo e ele veio a falecer. Só que isso mostra o contraste entre duas coisas,
né? A gente tá falando aqui sobre a genialidade de artistas, mas ao mesmo tempo o médico tá
tentando curar o ser humano, fazendo sangria nele. Enfim, mas se Rafael representou a busca
renascentista pela harmonia perfeita, Michelângelo foi quase como seu oposto, representando a força,
a tensão e a grandeza, quase sobreumana da criação artística. Michelangelo nasceu em 1475 e foi acima
de tudo um escultor. Foi justamente na escultura que ele materializou de forma mais radical do que
qualquer outro artista o ideal humanista da perfeição da forma humana. Essa visão estava
profundamente ligada ao neoplatonismo, corrente filosófica que Michelângelo conheceu ainda jovem
quando foi acolhido por Lorenzo de Médice em Florença. A família Mice é provavelmente o maior
exemplo na prática renascentista do mecenato, acumulando enorme riqueza e influência política,
transformando Florença num centro cultural. Foi nesse contexto que Michelangelo foi introduzido
ao neoplatonismo, que entendia o mundo físico como representação imperfeita do mundo ideal. E
Michelangelo aplicou essa filosofia diretamente em suas esculturas. Ele costumava dizer que eu via um
anjo no mármore e esculpia até libertá-lo. Entre 150 e 1504, ele esculpiu aquela que seria uma das
obras mais emblemáticas de todo o renascimento, Davi. Ele escolhe representar Davi antes da
batalha contra Golias. Davi está tenso, com os músculos contraídos, as veias saltando no braço
e o olhar fixo, concentrado. É o momento exato em que ele decide enfrentar um gigante. É a coragem
humana diante do impossível. E é por isso que Davi Incorpora, que foi conhecido como terbilitar,
uma grandiosidade poderosa, quase assustadora, que provoca um temor reverente. Não é apenas beleza,
é uma força contida, uma intensidade emocional que parece transbordar do mármore. E entre todas
essas obras, foi em 1508 que Michelângelo recebeu um projeto que o consagraria definitivamente, um
afresco enorme para cobrir todo o teto da Capela Cistina. E ele nem queria aceitar. Michelângelo
se considerava um escultor, não pintor, e chegou inclusive a recomendar o Rafael. Mas o Papa Júlio
II não quis nem saber. Durante 4 anos, de 1508 a 1512, ele pintou praticamente sozinho, em pé,
com o pescoço virado para cima, uma das obras mais monumentais da história da arte. O teto é uma
narrativa visual do livro do Gênesis e no centro de tudo está a criação de Adão, possivelmente a
imagem mais icônica de Michelangel. Ela, Deus e Adão estendem os dedos um em direção ao outro,
quase se tocando, mas não completamente. E o que está naquele espaço mínimo entre os dois
dedos é justamente o tema central do humanismo, a distância ou a proximidade entre o humano e
o divino. E há ainda um outro detalhe, o manto vermelho que envolve Deus e os anjos tem a forma
exata de um cérebro humano em corte transversal. E eu não consigo acreditar que isso seja uma
coincidência. O que Michelangelo estava dizendo de forma velada é que Deus não está criando apenas o
corpo de Adão. Ele está criando a mente, a razão e o intelecto. E disso nós conseguimos tirar duas
conclusões para interpretações da obra. A primeira é que a criação de Adão representa Deus criando
Adão. E a segunda, ao representar Deus dentro do cérebro humano, mostra a criação de Adão, sendo
justamente Deus a criação de Adão. E é justamente isso que separa o ser humano dos animais.
É isso que o torna capaz de compreender a criação, de fazer arte, de buscar a verdade. É isso que o
torna humano. Michelângelo alcançou algo raríssimo para um artista de seu tempo. Ele foi reconhecido
ainda em vida como uma figura quase sobrehumana, a ponto de ser chamado de O Divino. E foi por isso
que, décadas depois, em 1536, que Michelângelo foi chamado mais uma vez para pintar a capela.
Agora a parede do altar, nascendo assim, o juízo final. Ele retrata Cristo como um juiz implacável,
musculoso, poderoso, com o braço erguido em gesto de condenação, enquanto ao redor corpos
nu se contorcem em agonia ou êxtas. Concluída em 1541, essa pintura provocou admiração imediata,
mas aqui o mundo já não era mais o mesmo. A Europa cristã estava rachada e foi por muito pouco que
o juízo final não foi totalmente destruído. Em 31 de outubro de 1517, o monge Martinho Lutero
fixou 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenenberg, na Alemanha. Esse gesto desencadeou
uma das maiores rupturas da história ocidental. A reforma protestante. Lutero criticava a venda
de indulgências, documentos que prometiam a remissão dos pecados. O Papa Leão X estava
usando esse dinheiro para financiar a construção da Basílica de São Pedro em Roma. E para Lutero,
vender a salvação de Deus era inaceitável. Por isso, ele atacou a autoridade do Papa,
questionou a necessidade de intermediários entre o fiel e Deus e defendeu que as escrituras deviam
ser traduzidas para que todos pudessem lê-las. Era uma crítica direta ao próprio sistema que
havia viabilizado o mcenato renascentista. E a resposta da igreja foi imediata, escomungando
Lutero em 1521, mas era tarde demais. Suas ideias já haviam se espalhado por toda a Europa,
facilitadas pela prensa de tipos móveis de Johannes Gutenberg. Durante o período medieval,
os livros eram copiados à mão, um processo lento e caro. Mas com Gutenberg, livros inteiros podiam
ser impressos infinitamente mais rápido. E foi essa tecnologia que transformou as 95 teses de
Lutero num fenômeno europeu. Pela primeira vez na história, uma crítica à igreja podia
se espalhar mais rápido do que a própria igreja conseguia reprimi-lo. Regiões inteiras da Europa
aderiram ao protestantismo e em poucas décadas a cristandade ocidental que havia sido unificada sob
autoridade papal durante toda a idade média estava irreversivelmente dividida. Foi nesse contexto que
a Igreja Católica decidiu reagir com um concílio de Trento entre 1545 e 1563. O que saiu dali foi
a contrarreforma ou a reforma católica que tentou reconquistar os territórios perdidos e purificar a
Igreja dos Excessos. Mas essa purificação teve um preço alto pro renascimento. O concílio de Trento
estabeleceu diretrizes rígidas sobre o que era aceitável na arte religiosa. Nada de sensualidade,
nada de nudez indecente. A arte deveria servir à fé e não a celebração da beleza da forma humana.
Foi essa nova mentalidade que colocou o juízo final de Michelâelo na mira da contrarreforma
em 1564, o mesmo ano em que Michelângelo morreu. O concílio decretou que obras com nus considerados
indecentes deveriam ser destruídas ou censuradas. E o juízo final estava no topo da lista. Houve
quem defendesse que a obra inteira fosse apagada, mas a reputação de Michelângelo era grande demais.
Então optaram por cobrir todos os nus da pintura. Muitas outras obras renascentistas
foram destruídas, escondidas, censuradas ou alteradas. E a celebração humanista do corpo nu,
que havia sido uma das marcas do renascimento, se tornou inaceitável. É por isso que o auge
da contrarreforma é associado ao fim gradual do renascimento, dando início ao barroco. Se
o renascimento foi marcado pelo equilíbrio e proporção, o barroco seria marcado pela emoção
intensa e grandiosidade teatral, a ferramenta usada pela igreja para reconquistar seus fiéis.
O renascimento se encerrou entre o final do século X e o início do 17. Mas por mais que
tenha chegado ao fim, o Renascimento já havia cumprido o seu papel. Ele havia enfraquecido
o teocentrismo medieval, colocado o ser humano no centro da reflexão intelectual, resgatado os
valores da antiguidade e estabelecido as bases para a ciência moderna. Em 1543, 2 anos depois
de Michelângelo terminar o juízo final, Nicolau Copérnico publicava de Revolucionibos propondo
que a Terra girava em torno do Sol, ao mesmo tempo que Andreas Vessalhos publicava o primeiro tratado
moderno de anatomia humana. Essas obras marcaram a revolução científica dos séculos X e X, mostrando
como a revolução intelectual que o Renascimento havia iniciado não podia mais ser interrompida.
O que esse período deixou para trás foi muito mais duradouro do que suas obras de arte. Foi sua forma
de pensar, uma forma que confiava na razão, que acreditava na capacidade humana de compreender
o mundo que celebrava a beleza e que defendia que o ser humano tinha o poder de esculpir a si
mesmo. Foi justamente essa crença que moldaria a Europa moderna e com ela o mundo inteiro. No
final das contas, o renascimento não foi apenas um período de belas pinturas e esculturas magníficas.
Foi uma mudança profunda na forma como a humanidade enxergava a si mesma. A humanidade
percebeu que podia olhar pro passado e aprender com ele, que podia usar a razão para desvendar os
mistérios da natureza, que podia criar beleza que rivaliza com a própria criação e que o ser humano
tinha dignidade suficiente para ser o centro da atenção. Não porque Deus havia deixado de existir,
mas porque Deus havia criado o ser humano com algo extraordinário, a capacidade de pensar, criar
e escolher. Quando Bruneles e Donatelo cavavam entre escombros em 1402, eles não estavam apenas
procurando técnicas arquitetônicas perdidas, eles estavam resgatando uma ideia, a ideia de que o
ser humano é capaz de grandeza e que essa grandeza não precisa esperar pela vida após a morte para se
manifestar. Ela pode acontecer aqui, agora, nesse mundo. E foi essa a ideia que atravessou séculos,
que sobreviveu à contrarreforma, que inspirou a revolução científica, que moldou o Iluminismo e
que continua viva até hoje. Toda vez que olhamos pro céu e tentamos entender como
as estrelas funcionam, toda vez que dseamos um corpo para entender como a vida se organiza,
toda vez que criamos qualquer coisa que tente capturar a beleza e a complexidade da existência,
nós estamos continuando o trabalho que Bruneles e Donatelo começaram naquela madrugada romana.
Nós estamos cavando entre ruínas em busca de conhecimento e libertando anjos do mármore. Bom,
esse foi o vídeo. Eu espero que você tenha gostado. Deixe seu like, se inscreve no canal,
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Ah.
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O vídeo narra a ascensão do Renascimento, partindo das ruínas medievais até a revolução intelectual e artística que transformou a Europa. Explora como figuras como Brunelleschi, Donatello, Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo, impulsionados pelo mecenato e por uma nova mentalidade humanista, mudaram a forma como a humanidade enxergava o mundo, o corpo e a si mesma, estabelecendo as bases para a ciência moderna.
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