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a HISTÓRIA COMPLETA de CLARICE LISPECTOR

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a HISTÓRIA COMPLETA de CLARICE LISPECTOR

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250 segments

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Nós estamos em 1920 e essa é Chelnic, uma  pequena aldeia na região de Vinitza, na atual  

0:35

Ucrânia. E se você acha que o mundo de hoje está  caótico, deixa eu te apresentar esse lugar aqui.  

0:41

O território vive o caos absoluto da guerra  civil russa. Um conflito que explodiu depois  

0:47

que a revolução russa derrubou a monarquia  absolutista do quizar Nicolau II. De um lado  

0:52

estão os Bolchevics liderados por Vladimir Lenin,  defendendo a criação de um governo socialista.  

0:59

E do outro estão os chamados exércitos  brancos, uma coalizão de conservadores  

1:04

militares ligados à antiga monarquia,  nacionalistas liberais e a tropas estrangeiras.  

1:10

Isso sem falar dos nacionalistas ucranianos  e dos anarquistas do exército verde negro.  

1:15

E no meio disso [música] tudo, espremida entre  exércitos, milícias armadas e soldados desertores  

1:20

que saqueavam cidades inteiras, estava a população  civil. Mas existia um grupo que sofria mais do que  

1:27

todos os outros, as comunidades judaicas. Elas  eram o alvo preferido dos chamados pogroms,  

1:34

massacres, antissemitas que envolviam roubos,  incêndios, estupros e assassinatos em massa  

1:40

e que forçaram milhares de famílias a fugir  para sobreviver. E é exatamente no meio desse  

1:47

inferno [música] que nasce uma menina judia  chamada Shaia Pincassivna Lispector. Shaia  

1:54

é um nome que significa vida em hebraico. Uma bebê  que atravessaria o oceano carregada no colo da mãe  

2:01

e que décadas depois se tornaria simplesmente  uma das maiores escritoras da história do Brasil,  

2:07

Clarice Lpector. Você provavelmente já  viu uma frase dela compartilhada por aí.  

2:14

Talvez já tenha lido um conto dela na escola, mas  eu te garanto que você não conhece essa história.  

2:21

A vida de Clarisspector é cercada de tragédias,  mistérios e perguntas que intrigam o Brasil até  

2:27

hoje. Por que ela nasceu com a missão de curar  a própria mãe? Porque a crítica dizia que seus  

2:33

livros eram difíceis demais e porque mesmo assim  ela revolucionou nossa literatura? Como ela quase  

2:40

perdeu a mão direita, justamente a mão com que  escrevia. E por que no final da vida ela ficou  

2:45

conhecida como a grande bruxa da literatura  brasileira? Eu sei, são muitas perguntas,  

2:50

por isso eu quero te convidar para  sentar confortavelmente em seu sofá,  

2:55

pegar um refrigerante e uma pipoca, porque  nós vamos conhecer a história [música] de  

2:59

Clarisspector, a escritora que mudou para sempre a  forma de escrever no Brasil. Hoje no Biografando.

3:14

Oi, eu sou o Tinoco. Já se inscreve no canal e  esse foi um dos biografandos mais pedidos por  

3:19

vocês aqui nos comentários. Então, se você tem  alguma sugestão de tema, eu sugiro que você se  

3:24

torne membro aqui do canal, porque sendo membro,  nós conseguimos ter um contato muito mais direto  

3:29

para eu saber o que vocês querem. Além de que  você tem acesso a vídeos totalmente exclusivos  

3:34

que nós estamos produzindos somente para os  membros do canal. Tem vídeo sobre o Rasputin,  

3:39

tem vídeo sobre o SESIO 137, [música] sobre livro,  sobre um monte de coisa. Então não perde tempo e  

3:44

se torne um membro aqui do canal. Eu queria deixar  claro aqui no começo do vídeo que essa história  

3:49

contém elementos que podem ser considerados  perturbadores para alguns públicos. Então,  

3:55

se atente à classificação indicativa, enfim, vamos  pro vídeo. Bom, a história da Clarice começa muito  

4:01

antes do seu nascimento e começa da pior forma  possível. Os seus pais Pincas e Manalpector  

4:08

passaram anos fugindo de cidade em cidade para  escapar dos pogroms. E foi numa dessas invasões,  

4:14

por volta de em 1919, na cidade de Hein,  que aconteceu a maior tragédia da família.  

4:21

Mania foi estuprada por soldados. Além de todo o  trauma físico e psicológico, ela contraiu sífiles,  

4:28

uma doença que naquela época era praticamente  sem tratamento e que avançava lentamente pelo  

4:34

corpo, [música] causando dores intensas e uma  deterioração progressiva da saúde. E é aqui  

4:40

que entra um detalhe que muda tudo nessa  história. [música] Entre os familiares e  

4:45

membros da comunidade judaica, existia uma  crença popular de que o nascimento de uma  

4:49

criança poderia curar uma mãe doente. Então,  quando Mania engravidou, mesmo debilitada,  

4:55

aquela gestação passou a carregar um significado  quase simbólico de esperança no meio do desespero.  

5:01

Saya nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 com  uma missão impossível, salvar a própria mãe.  

5:08

Só que a cura nunca veio. A situação na Ucrânia  ficava cada vez mais perigosa. E como milhares de  

5:14

judeus do Leste Europeu, os Lispector começaram  a procurar um país que aceitasse imigrantes  

5:20

e o escolhido foi o Brasil. Em parte porque o país  já recebia grandes fluxos de imigrantes judeus.  

5:26

Em parte porque os parentes de mania já tinham  conseguido se estabelecer em Maceió, em Alagoas.  

5:32

Então, ainda bebê, Clarice atravessou o oceano no  colo ao lado das irmãs mais velhas Elisa e Tânia,  

5:38

numa viagem em navios superlotados e em condições  precárias. Até que em março de 1922 a família  

5:44

desembarcou em Maceió. Clarice [música] tinha  1 ano e 2 meses de vida. E décadas depois ela  

5:50

resumiria essa ruptura com sua terra natal naquela  frase que abriu o nosso vídeo. Naquela terra  

5:56

eu literalmente nunca pisei, fui carregada no  colo. No Brasil a família inteira adaptou os nomes  

6:02

ao português numa tentativa de recomeço. [música]  Pincas virou Pedro. Mania virou Marieta. Lea virou  

6:09

Elisa. E a pequena shabeu o nome pelo qual ficaria  conhecida mundialmente, Clarisspector. [música]

6:19

Os primeiros anos em Maceió foram difíceis  e as oportunidades eram limitadas. Então,  

6:24

em 1925, [música] a família se mudou para Recife  e se instalou na Praça Marcial Pinheiro, no bairro  

6:30

de Boa Vista, um endereço que ficaria marcado para  sempre na memória da escritora. E aqui a infância  

6:36

de Clarice acontecia entre dois mundos. Dentro de  casa, a família falava Iidh, a língua tradicional  

6:42

dos judeus do leste europeu. Enquanto nas ruas  e nas brincadeiras, ela mergulhava no português  

6:47

nordestino, cheio de expressões populares e  sonoridades completamente diferentes. Pedro fazia  

6:53

de tudo para sustentar a família, vendia roupas  usadas, fabricava sabão e dava aulas de hebraico.  

6:59

E mesmo com todas as dificuldades financeiras,  existia um forte incentivo intelectual dentro  

7:04

daquela casa. Clariss aprendeu a ler e a escrever  muito cedo e transformou os livros em refúgio.  

7:09

Tanto que ainda criança, entre os 7 e 9 anos,  ela já enviava pequenas histórias para a sessão  

7:15

infantil do diário de Pernambuco. Só que tem  um detalhe muito curioso aqui. Muitos desses  

7:20

textos eram recusados e o motivo da recusa diz  tudo sobre quem Clarice se tornaria. Segundo  

7:26

os responsáveis pelo jornal, as histórias dela  não narravam fatos. Enquanto as outras crianças  

7:32

escreviam aventuras cheias de acontecimentos e  lições de moral, Clarice escrevia sobre emoções,  

7:38

pensamentos e sensações difíceis de explicar.  Ela parecia menos interessada no mundo exterior  

7:44

e mais fascinada pelo funcionamento invisível da  mente humana. Sem perceber, começava ali o estilo  

7:50

que décadas depois revolucionaria a literatura  brasileira. Mas enquanto Clarice crescia  

7:55

intelectualmente dentro de casa, a tragédia  avançava. A sífiles consumia Marieta lentamente,  

8:01

as dores eram constantes e a menina observava tudo  aquilo sem compreender direito, tentando agradar  

8:07

a mãe, escrevendo historinhas e pequenas peças,  como se ainda pudesse cumprir a missão para a qual  

8:13

tinha nascido. Até que no dia 21 de setembro de  1930, Marieta morreu aos 42 anos de idade. Clariss  

8:21

apenas [música] 9 anos e muitos biógrafos apontam  que ela carregou pela vida inteira uma sensação  

8:27

silenciosa de fracasso. Ela tinha nascido para  curar a mãe e não conseguiu. [música] A culpa,  

8:34

a solidão, o silêncio, a impossibilidade de  salvar o outro, tudo isso atravessaria sua  

8:39

obra do primeiro ao último livro. A vida, porém,  precisava continuar. Em 1932, Clarice foi aprovada  

8:47

no tradicional ginásio pernambucano. E foi por  volta de 1933 que ela compreendeu definitivamente  

8:53

uma coisa: ela queria ser escritora. Não  era mais um sonho de criança, tinha virado  

8:59

um projeto de vida. E é esse projeto que leva a  família para o lugar onde tudo de fato começou.

9:11

Em 1935, Pedro decidiu se mudar com  as filhas para o Rio de Janeiro,  

9:16

que na época ainda era a capital do Brasil, uma  cidade em plena transformação durante o governo  

9:22

de Getúlio Vargas e que oferecia muito mais  oportunidades para famílias de imigrantes judeus.  

9:27

Clarice chegou ali adolescente. Ela devorava  bibliotecas inteiras e lia tudo o que encontrava.  

9:33

de essa de Queiroz a José de Alencar até a  literatura russa de Dostoyevski. E em 1937  

9:40

ela entrou na Faculdade Nacional de Direito  da Universidade do Brasil, a atual UFRJ,  

9:46

enquanto dava aulas particulares de matemática e  começava a trabalhar como jornalista na Agência  

9:51

Nacional e no jornal à Noite. Foi nesse ambiente  que ela se aproximou de intelectuais importantes,  

9:57

entre eles o escritor Lúcio Cardoso, por quem  desenvolveu uma admiração enorme. E foi ali  

10:03

que, em maio de 1940, aos 19 anos, que ela  publicou o seu primeiro conto conhecido,  

10:09

Triunfo, na revista Pan. Só que poucos meses  depois veio mais um golpe. Em agosto de 1940,  

10:15

Pedro Lispector morreu após complicações de  uma cirurgia. Clariss estava órfão de pai e mãe  

10:21

aos 19 anos de idade. E foi justamente nesse  período de luto que ela começou a escrever  

10:28

entre 1942 e 1943 o livro mudaria tudo, perto  do coração selvagem, um romance inspirado numa  

10:37

frase de James Joyce sugerida pelo próprio Lúcio  Cardoso. Para você entender o tamanho da bomba  

10:43

que esse livro representou, é preciso entender o  cenário. A literatura brasileira dos anos 40 era  

10:49

dominada pelo romance regionalista e social  do Nordeste, com autores tratando de seca,  

10:55

latifúndio, [música] cangaço e drama coletivo numa  narrativa objetiva. E aí do nada surge uma jovem  

11:01

de 20 e poucos anos propondo algo radicalmente  diferente, uma literatura voltada exclusivamente  

11:07

para dentro da mente humana. O romance acompanha  Joana, uma protagonista inquieta numa narrativa  

11:13

fragmentada, sem cronologia tradicional,  mergulhada no chamado fluxo da consciência,  

11:18

um estilo que tenta reproduzir os pensamentos  exatamente como eles surgem na nossa cabeça,  

11:24

desorganizados, emocionais, cheios de memórias e  dúvidas. Era a primeira vez que a prosa brasileira  

11:31

mergulhava com essa profundidade na consciência  humana. Mas antes do livro chegar às livrarias,  

11:37

a vida de Clarice deu mais uma virada. Ela estava  se preparando para casar com Mauri Gurgel Valente,  

11:43

um colega da Faculdade de Direito recém  aprovado no concurso do Itamarati. E aqui  

11:49

apareceu um detalhe burocrático meio absurdo,  porque para casar com um diplomata, ela precisava  

11:54

ser oficialmente brasileira. E mesmo vivendo  no Brasil desde bebê, Clarice ainda não tinha  

11:58

cidadania formal. A solução foi escrever uma carta  diretamente para o presidente Getúlio Vargas,  

12:05

pedindo a naturalização, que foi aprovada em 12  de janeiro de 1943 e 11 dias depois ela se casou.  

12:13

Tornar-se brasileira e tornar-se Clarice Gurgel  Valente aconteceram praticamente no mesmo gesto.  

12:20

E guarda essa segunda identidade, porque ela vai  sufocar Clarice nas décadas seguintes. No final  

12:26

de 1943, perto do coração selvagem, finalmente  chegou às livrarias e o impacto foi imediato.  

12:32

O crítico Antônio Cardoso escreveu um ensaio  famoso chamado No Raiar de Clarice Spector,  

12:38

afirmando que aquilo era algo completamente  novo na literatura nacional. O escritor Ledo Ivo  

12:44

declarou que aquele era o maior romance já  escrito por uma mulher em língua portuguesa  

12:49

e outros críticos começaram a comparar Clarice  a Virgínia Wolf e a James Joyce. O mais curioso  

12:55

é que ela se incomodava com essas comparações,  porque naquele momento ela sequer tinha lido  

13:00

Virgínia Wolf ou Joyce e mais tarde diria que uma  das grandes [música] influências era na verdade  

13:06

Herman R, especialmente o lobo da step. E aqui uma  pausa pra gente falar um pouquinho do Herman Hess.  

13:12

Esse é um dos meus escritores preferidos. Eu  li o Lobo da Step recentemente e é um livro  

13:17

animal. Ele tem diversos outros romances  incríveis e é assustador você poder conhecer  

13:23

os livros desse cara e depois ler Clarisson.  Em 1944, o livro recebeu o prêmio Graça Aranha  

13:29

de melhor romance de estreia. E Clariss ainda  jovem virou um fenômeno literário. Mas justamente  

13:35

quando o Brasil descobria Clarisspector,  ela foi obrigada a desaparecer. [música]

13:46

Em julho de 1944, Clarisspector deixou o país ao  lado de seu marido e o primeiro destino do casal  

13:53

era simplesmente Nápolis na Itália em  plena Segunda Guerra Mundial, uma cidade  

13:59

de ruas destruídas, fome e milhares de soldados  feridos. E enquanto Mauri trabalhava no consulado,  

14:05

Clarice fez uma coisa impressionante. Ela se  voluntariou nos hospitais que atendiam soldados  

14:11

da força expedicionária brasileira, os pracinhas  enviados pelo Brasil para lutar contra as forças  

14:18

nazifascistas. Ela não tinha nenhuma formação  médica, mas conversava com os pacientes, escrevia  

14:23

cartas para as famílias deles e fazia companhia  para homens mutilados e traumatizados pela guerra.  

14:29

Foi também nesse período europeu que ela conheceu  o poeta italiano Giuseppearet, que traduziu  

14:35

trechos do seu romance e teve o retrato pintado  pelo famoso artista surrealista Diordio Xirico.  

14:41

Por fora até poderia parecer uma vida glamurosa  na Europa, mas por dentro algo estava morrendo.  

14:48

Nas cartas enviadas à irmã Tânia, Clarissonrava um  desconforto crescente com o papel social exigido  

14:54

das esposas de diplomatas, com as recepções, os  eventos oficiais, a postura elegante e controlada,  

15:01

e aos poucos sentia que sua identidade de  escritora estava sendo sufocada. Numa carta  

15:06

famosa de agosto de 1944, ela resumiu tudo numa  frase: "Sou inteiramente Clarice Gurgel Valente."  

15:14

A escritora estava sumindo dentro de seu papel  como esposa. E o pior é que a vida não parava de  

15:21

mudar. Depois da Itália veio Berna na Suíça, que  seria um dos períodos mais difíceis da vida dela.  

15:26

Uma cidade que Clariss enxergava como silenciosa  e distante demais e que ela definiu com uma frase  

15:32

devastadora. Berna é o cemitério de sensações. Foi  lá que nasceu Pedro, seu primeiro filho, em 1948.  

15:41

E a maternidade trouxe alegrias, mas também  aprofundou sua solidão com Clarice relatando nas  

15:47

cartas às irmãs uma depressão pós-parto misturada  com a melancolia do exílio. E essa relação com  

15:53

Pedro ainda se tornaria mais dolorosa anos depois,  quando na adolescência ele seria diagnosticado com  

15:59

esquizofrenia, algo que Clarice carregaria com  um silencioso sentimento de culpa pelo resto  

16:05

da vida. [música] Nesse meio tempo, os livros  continuavam saindo, mas a recepção tinha esfriado.  

16:11

O segundo romance e o lustre foi considerado  introspectivo e difícil demais pela crítica.  

16:16

E a cidade sitiada escrito em Berna também passou  longe do impacto da estreia. Depois da Suíça,  

16:22

veio a Inglaterra, onde Clarice sofreu um aborto  espontâneo [música] que abalou profundamente.  

16:27

Em 1952, a família se mudou mais uma vez agora  para Washington, nos Estados Unidos, onde nasceu  

16:33

o segundo filho, Paulo, e onde ela construiu uma  amizade intensa com o escritor Erico Veríssimo  

16:40

e a esposa dele, Mafalda, que virariam padrinhos  de seus filhos. E aqui tem um detalhe que pouca  

16:46

gente conhece. Para complementar a renda, Clarice  virou o colunista de jornal escrevendo sobre moda,  

16:52

beleza e vida doméstica, só que escondida atrás  de pseudônimos como Teresa Quadros e Helen Palmer,  

17:00

e chegou até a ser ghost writer [música] da atriz  Ica Soares. Naquela época, misturar a literatura  

17:06

experimental com conselhos de moda era visto como  um rebaixamento profissional. Então, a autora mais  

17:11

inovadora do Brasil pagava as contas escrevendo  dicas de comportamento que ninguém sabia que  

17:18

eram [música] dela. 15 anos se passaram assim,  entre países, idiomas e recepções diplomáticas,  

17:23

até que em 1959, Clarice tomou uma decisão radical  para a época. Ela se separou de Mauri, numa época  

17:31

em que o divórcio nem era permitido legalmente  no Brasil. Ela pegou os dois filhos e voltou  

17:37

para o Rio de Janeiro. Aos 38 anos, ela precisava  reconstruir a vida do zero como [música] mãe  

17:42

solteira, escritora e mulher separada numa  sociedade profundamente conservadora. Ela não  

17:48

sabia, mas estava prestes a viver a fase  mais genial e mais trágica de sua vida.

17:59

O Brasil que Clarice reencontrou em 1959 era outro  país. O Rio estava prestes a perder o posto de  

18:07

capital para Brasília. O governo de Jcelino  Kubichek vivia o auge do desenvolvimentismo.  

18:13

A bossa nova tinha acabado de explodir e o  cinema novo nascia com Glauber Rocha. E Clarice  

18:19

precisava sobreviver. A pensão do ex-marido  não era suficiente. Então o jornalismo virou  

18:24

questão de sobrevivência. enquanto ela retomava  a carreira literária. E que retomada! Em 1960,  

18:31

ela publicou Laços de Família, uma coletânia  de contos construída em torno de epifanias  

18:37

daqueles momentos aparentemente banais do  cotidiano que provocam revelações devastadoras.  

18:43

No conto mais famoso amor, a dona de casa Ana  vê um cego mascando chiclete dentro de um bonde.  

18:49

E essa cena banal simplesmente desmorona o mundo  organizado em que ela vivia. O livro foi recebido  

18:55

com entusiasmo enorme. Fernando Sabino afirmou  que era o melhor livro de contos já publicado no  

19:01

Brasil. Erico Veríssimo disse que era a coletânea  mais importante desde Machado de Assis e em 1961  

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a obra levou o prêmio Jabuti. Mas foi em 1964 que  Clarissou aquela que muitos críticos consideram  

19:17

sua obra prima, A Paixão segundo GH. E olha que  loucura que é esse livro. A trama inteira se  

19:24

resume a uma mulher rica que entra no quarto vazio  da empregada que tinha acabado de sair do emprego,  

19:29

encontra uma barata dentro do guarda-roupa,  esmaga o inseto e diante daquela matéria branca  

19:35

escorrendo do corpo da barata, mergulha numa das  crises existenciais mais profundas já narradas na  

19:41

literatura brasileira, uma epifania sobre Deus,  sobre a existência e sobre os limites do humano,  

19:46

que termina no clímax do livro com ela colocando  aquela matéria na boca, não como um ato bizarro,  

19:52

mas como uma rendição mística, a aceitação radical  de que ela e a barata são parte da mesma matéria  

19:59

viva. Naquele mesmo ano, em 1964, o Brasil  mergulhava na ditadura civil militar. E aqui  

20:06

vale desfazer um mito. Ao contrário do que parte  da crítica dizia, Clarice não era alienada. Ela  

20:13

mesma se declarou engajada, afirmando que tudo que  escrevia estava ligada à realidade em que vivemos.  

20:19

E tudo isso foi além do discurso. Em 1968, ela  assinou com outros 48 intelectuais um telegrama  

20:27

público contra o regime e marchou na primeira fila  da passeata dos 100.000 ao lado de Chico Boarque  

20:34

e Paulo Altran. E em 1973, o Serviço Nacional  de Informações chegou a abrir um dossiê para  

20:41

monitorá-la. Mas o episódio que mais marcou  essa fase tinha acontecido antes, em 1966,  

20:48

quando Clarice quase morreu. Na madrugada de 14  de setembro, no apartamento do Leme, onde vivia,  

20:55

ela adormeceu com um cigarro aceso  depois de tomar remédios para dormir.  

20:59

O fogo se espalhou pelo quarto e quem a salvou foi  uma vizinha que ouviu os gritos. Clarice sofreu  

21:05

queimaduras gravíssimas e a situação era tão séria  que os médicos cogitaram amputar sua mão direita,  

21:11

justamente a mão com que ela escrevia. Foram  meses de internação e cirurgias dolorosas,  

21:16

e as sequelas físicas e emocionais  a acompanhariam pelo resto da vida,  

21:21

deixando-a com dores constantes e cada vez mais  recluso. E mesmo assim ela não parou. Entre 1967  

21:28

e 1973, Clarice escreveu crônicas semanais para o  Jornal do Brasil. publicou uma aprendizagem ou O  

21:35

Livro dos Prazeres, lançou Felicidade Candestina  com lembranças da infância no Recife e em 1973  

21:42

entregou Água Viva, uma obra tão experimental que  praticamente abandona o enredo e os personagens.  

21:48

É um fluxo contínuo de sensações onde ela escreveu  uma das frases mais emblemáticas de sua carreira:  

21:54

"Eu quero apoar-me do coisa". Nessa altura, a  figura pública de Clarice já tinha virado quase um  

22:01

mito, com o seu jeito reservado, o olhar intenso  e fala pausada, alimentando lendas em torno dela.  

22:08

E em 1975 aconteceu o episódio que selou  essa imagem. Ela participou do primeiro  

22:13

congresso mundial de bruxaria em Cali, na  Colômbia. A participação dela, obviamente,  

22:18

era puramente filosófica e literária,  mas a imprensa brasileira não perdoou  

22:22

e espalhou relatos da autora vestida de preto e  coberta de amuletos. atribuindo a ela o título de  

22:29

grande bruxa da literatura brasileira. Uma imagem  que ela nunca cultivou, mas que colou de vez.  

22:35

Tanto que o seu amigo Oto Lara Rezende resumiu  numa célebre frase: "Não se trata de literatura,  

22:41

mas de [música] bruxaria". Em 1977, já bastante  debilitada, Clarice concluiu seu último romance,  

22:48

A Hora da Estrela. A história de Macabea, uma  jovem nordestina pobre, invisível para o mundo,  

22:55

que migra para o Rio e vive uma existência  silenciosa e sem perspectivas. E depois de  

23:00

todo esse vídeo, você pode começar a reparar em  pequenas coincidências entre a personagem desse  

23:05

livro e a própria vida da Clarice. Em fevereiro  daquele ano, ela deu a TV Cultura a única  

23:10

entrevista de televisão de sua vida, onde definiu  o livro como a história de uma moça tão pobre  

23:16

que só comia cachorro quente. Mas completou em  seguida que a história não era isso, era sobre uma  

23:22

inocência pisada. E no fim da conversa, ela fez um  pedido, que a gravação só fosse exibida depois de  

23:29

sua morte. Ela sabia de alguma coisa que a gente  não sabia. Pouco depois da publicação do livro,  

23:35

as dores que Clarice sentia se intensificaram  e os exames revelaram um câncer de ovário  

23:40

em estágio avançado e inoperável. Ela passou  os últimos meses escrevendo, recebendo amigos  

23:46

e ditando frases para a amiga Olga Borelli, que  a acompanhou até o fim. e mesmo sobativos, ainda  

23:53

ditava frases na manhã da própria morte. Clariss  Lispector morreu no dia 9 de dezembro de 1977,  

24:01

um dia antes de completar 57 anos, e foi enterrada  no cemitério israelita do Caju, no Rio de Janeiro.  

24:08

Poucos meses depois, a Hora da Estrela recebeu  o prêmio Jabuti póstumo. E em 1985, o romance  

24:16

virou o filme pelas mãos de Susana Amaral, com a  atriz Marcélia Cartacho, intérprete de Macabeia,  

24:23

conquistando o urso de prata no Festival de  Berlim. Sua obra influenciou nomes como Caio  

24:28

Fernando Abreu, Líia Fagundes, Steles, Hilda Hills  e Chico Boarque. E suas frases circulam até hoje  

24:35

em livros, [música] peças, músicas e redes  sociais. E talvez o motivo seja simples.  

24:40

A menina, que nasceu com a  missão impossível de curar a mãe,  

24:44

passou a vida inteira escrevendo sobre aquilo  que não se cura, a solidão, a culpa, o silêncio,  

24:51

o mistério de existir. A literatura de Clarice  não oferece respostas prontas. Ela convida  

24:56

cada pessoa [música] a mergulhar dentro de si  mesma. E é exatamente por isso que sua obra  

25:02

permanece tão viva, porque ao escrever sobre  si, Clarice acabou escrevendo sobre todos nós.

25:14

Bom, esse foi o vídeo. Eu espero que você tenha  gostado. Deixe o seu like, se inscreve no canal  

25:18

e ative o sininho para não perder nenhum  vídeo que a gente posta. Como eu disse,  

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esse foi um dos vídeos mais pedidos [música] por  vocês. Então, deixa aqui nos comentários sugestões  

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de vídeos que vocês querem que a gente faça. Tem  diversos temas por aí. Eu tenho certeza que você  

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vai conseguir comentar alguma coisa legal. Lembra  de apoiar a gente no Apoia-se também. A gente tem  

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uma comunidade bem interessante lá e também tem  uma comunidade muito boa aqui no Seja Membro,  

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que você pode ter diversos benefícios. É só  clicar no botão de seja membro aqui embaixo  

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para conferir. Enfim, muito obrigado pelo seu  acesso e até o próximo vídeo. Valeu. Falou.  

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Um grande abraço do Tinco e lembre-se,  [música] a existência é passageira. Ciao

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[música]

Interactive Summary

Este vídeo apresenta a biografia de Clarice Lispector, abordando desde seu nascimento na Ucrânia, em meio aos pogroms e à Primeira Guerra Mundial, até sua imigração para o Brasil e consolidação como uma das maiores escritoras da história da literatura brasileira. O conteúdo explora a infância da autora, a perda precoce da mãe, a transição para a carreira de escritora no Rio de Janeiro, o impacto de sua obra inovadora e a profundidade de seus temas existenciais, além de esclarecer mitos sobre sua vida, como sua suposta alienação política e o apelido de 'bruxa da literatura'.

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