a HISTÓRIA COMPLETA de CLARICE LISPECTOR
250 segments
Apoia o Tinocando TV no Apoia-se. Com sua ajuda, nós podemos fazer muito mais.
Nós estamos em 1920 e essa é Chelnic, uma pequena aldeia na região de Vinitza, na atual
Ucrânia. E se você acha que o mundo de hoje está caótico, deixa eu te apresentar esse lugar aqui.
O território vive o caos absoluto da guerra civil russa. Um conflito que explodiu depois
que a revolução russa derrubou a monarquia absolutista do quizar Nicolau II. De um lado
estão os Bolchevics liderados por Vladimir Lenin, defendendo a criação de um governo socialista.
E do outro estão os chamados exércitos brancos, uma coalizão de conservadores
militares ligados à antiga monarquia, nacionalistas liberais e a tropas estrangeiras.
Isso sem falar dos nacionalistas ucranianos e dos anarquistas do exército verde negro.
E no meio disso [música] tudo, espremida entre exércitos, milícias armadas e soldados desertores
que saqueavam cidades inteiras, estava a população civil. Mas existia um grupo que sofria mais do que
todos os outros, as comunidades judaicas. Elas eram o alvo preferido dos chamados pogroms,
massacres, antissemitas que envolviam roubos, incêndios, estupros e assassinatos em massa
e que forçaram milhares de famílias a fugir para sobreviver. E é exatamente no meio desse
inferno [música] que nasce uma menina judia chamada Shaia Pincassivna Lispector. Shaia
é um nome que significa vida em hebraico. Uma bebê que atravessaria o oceano carregada no colo da mãe
e que décadas depois se tornaria simplesmente uma das maiores escritoras da história do Brasil,
Clarice Lpector. Você provavelmente já viu uma frase dela compartilhada por aí.
Talvez já tenha lido um conto dela na escola, mas eu te garanto que você não conhece essa história.
A vida de Clarisspector é cercada de tragédias, mistérios e perguntas que intrigam o Brasil até
hoje. Por que ela nasceu com a missão de curar a própria mãe? Porque a crítica dizia que seus
livros eram difíceis demais e porque mesmo assim ela revolucionou nossa literatura? Como ela quase
perdeu a mão direita, justamente a mão com que escrevia. E por que no final da vida ela ficou
conhecida como a grande bruxa da literatura brasileira? Eu sei, são muitas perguntas,
por isso eu quero te convidar para sentar confortavelmente em seu sofá,
pegar um refrigerante e uma pipoca, porque nós vamos conhecer a história [música] de
Clarisspector, a escritora que mudou para sempre a forma de escrever no Brasil. Hoje no Biografando.
Oi, eu sou o Tinoco. Já se inscreve no canal e esse foi um dos biografandos mais pedidos por
vocês aqui nos comentários. Então, se você tem alguma sugestão de tema, eu sugiro que você se
torne membro aqui do canal, porque sendo membro, nós conseguimos ter um contato muito mais direto
para eu saber o que vocês querem. Além de que você tem acesso a vídeos totalmente exclusivos
que nós estamos produzindos somente para os membros do canal. Tem vídeo sobre o Rasputin,
tem vídeo sobre o SESIO 137, [música] sobre livro, sobre um monte de coisa. Então não perde tempo e
se torne um membro aqui do canal. Eu queria deixar claro aqui no começo do vídeo que essa história
contém elementos que podem ser considerados perturbadores para alguns públicos. Então,
se atente à classificação indicativa, enfim, vamos pro vídeo. Bom, a história da Clarice começa muito
antes do seu nascimento e começa da pior forma possível. Os seus pais Pincas e Manalpector
passaram anos fugindo de cidade em cidade para escapar dos pogroms. E foi numa dessas invasões,
por volta de em 1919, na cidade de Hein, que aconteceu a maior tragédia da família.
Mania foi estuprada por soldados. Além de todo o trauma físico e psicológico, ela contraiu sífiles,
uma doença que naquela época era praticamente sem tratamento e que avançava lentamente pelo
corpo, [música] causando dores intensas e uma deterioração progressiva da saúde. E é aqui
que entra um detalhe que muda tudo nessa história. [música] Entre os familiares e
membros da comunidade judaica, existia uma crença popular de que o nascimento de uma
criança poderia curar uma mãe doente. Então, quando Mania engravidou, mesmo debilitada,
aquela gestação passou a carregar um significado quase simbólico de esperança no meio do desespero.
Saya nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 com uma missão impossível, salvar a própria mãe.
Só que a cura nunca veio. A situação na Ucrânia ficava cada vez mais perigosa. E como milhares de
judeus do Leste Europeu, os Lispector começaram a procurar um país que aceitasse imigrantes
e o escolhido foi o Brasil. Em parte porque o país já recebia grandes fluxos de imigrantes judeus.
Em parte porque os parentes de mania já tinham conseguido se estabelecer em Maceió, em Alagoas.
Então, ainda bebê, Clarice atravessou o oceano no colo ao lado das irmãs mais velhas Elisa e Tânia,
numa viagem em navios superlotados e em condições precárias. Até que em março de 1922 a família
desembarcou em Maceió. Clarice [música] tinha 1 ano e 2 meses de vida. E décadas depois ela
resumiria essa ruptura com sua terra natal naquela frase que abriu o nosso vídeo. Naquela terra
eu literalmente nunca pisei, fui carregada no colo. No Brasil a família inteira adaptou os nomes
ao português numa tentativa de recomeço. [música] Pincas virou Pedro. Mania virou Marieta. Lea virou
Elisa. E a pequena shabeu o nome pelo qual ficaria conhecida mundialmente, Clarisspector. [música]
Os primeiros anos em Maceió foram difíceis e as oportunidades eram limitadas. Então,
em 1925, [música] a família se mudou para Recife e se instalou na Praça Marcial Pinheiro, no bairro
de Boa Vista, um endereço que ficaria marcado para sempre na memória da escritora. E aqui a infância
de Clarice acontecia entre dois mundos. Dentro de casa, a família falava Iidh, a língua tradicional
dos judeus do leste europeu. Enquanto nas ruas e nas brincadeiras, ela mergulhava no português
nordestino, cheio de expressões populares e sonoridades completamente diferentes. Pedro fazia
de tudo para sustentar a família, vendia roupas usadas, fabricava sabão e dava aulas de hebraico.
E mesmo com todas as dificuldades financeiras, existia um forte incentivo intelectual dentro
daquela casa. Clariss aprendeu a ler e a escrever muito cedo e transformou os livros em refúgio.
Tanto que ainda criança, entre os 7 e 9 anos, ela já enviava pequenas histórias para a sessão
infantil do diário de Pernambuco. Só que tem um detalhe muito curioso aqui. Muitos desses
textos eram recusados e o motivo da recusa diz tudo sobre quem Clarice se tornaria. Segundo
os responsáveis pelo jornal, as histórias dela não narravam fatos. Enquanto as outras crianças
escreviam aventuras cheias de acontecimentos e lições de moral, Clarice escrevia sobre emoções,
pensamentos e sensações difíceis de explicar. Ela parecia menos interessada no mundo exterior
e mais fascinada pelo funcionamento invisível da mente humana. Sem perceber, começava ali o estilo
que décadas depois revolucionaria a literatura brasileira. Mas enquanto Clarice crescia
intelectualmente dentro de casa, a tragédia avançava. A sífiles consumia Marieta lentamente,
as dores eram constantes e a menina observava tudo aquilo sem compreender direito, tentando agradar
a mãe, escrevendo historinhas e pequenas peças, como se ainda pudesse cumprir a missão para a qual
tinha nascido. Até que no dia 21 de setembro de 1930, Marieta morreu aos 42 anos de idade. Clariss
apenas [música] 9 anos e muitos biógrafos apontam que ela carregou pela vida inteira uma sensação
silenciosa de fracasso. Ela tinha nascido para curar a mãe e não conseguiu. [música] A culpa,
a solidão, o silêncio, a impossibilidade de salvar o outro, tudo isso atravessaria sua
obra do primeiro ao último livro. A vida, porém, precisava continuar. Em 1932, Clarice foi aprovada
no tradicional ginásio pernambucano. E foi por volta de 1933 que ela compreendeu definitivamente
uma coisa: ela queria ser escritora. Não era mais um sonho de criança, tinha virado
um projeto de vida. E é esse projeto que leva a família para o lugar onde tudo de fato começou.
Em 1935, Pedro decidiu se mudar com as filhas para o Rio de Janeiro,
que na época ainda era a capital do Brasil, uma cidade em plena transformação durante o governo
de Getúlio Vargas e que oferecia muito mais oportunidades para famílias de imigrantes judeus.
Clarice chegou ali adolescente. Ela devorava bibliotecas inteiras e lia tudo o que encontrava.
de essa de Queiroz a José de Alencar até a literatura russa de Dostoyevski. E em 1937
ela entrou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, a atual UFRJ,
enquanto dava aulas particulares de matemática e começava a trabalhar como jornalista na Agência
Nacional e no jornal à Noite. Foi nesse ambiente que ela se aproximou de intelectuais importantes,
entre eles o escritor Lúcio Cardoso, por quem desenvolveu uma admiração enorme. E foi ali
que, em maio de 1940, aos 19 anos, que ela publicou o seu primeiro conto conhecido,
Triunfo, na revista Pan. Só que poucos meses depois veio mais um golpe. Em agosto de 1940,
Pedro Lispector morreu após complicações de uma cirurgia. Clariss estava órfão de pai e mãe
aos 19 anos de idade. E foi justamente nesse período de luto que ela começou a escrever
entre 1942 e 1943 o livro mudaria tudo, perto do coração selvagem, um romance inspirado numa
frase de James Joyce sugerida pelo próprio Lúcio Cardoso. Para você entender o tamanho da bomba
que esse livro representou, é preciso entender o cenário. A literatura brasileira dos anos 40 era
dominada pelo romance regionalista e social do Nordeste, com autores tratando de seca,
latifúndio, [música] cangaço e drama coletivo numa narrativa objetiva. E aí do nada surge uma jovem
de 20 e poucos anos propondo algo radicalmente diferente, uma literatura voltada exclusivamente
para dentro da mente humana. O romance acompanha Joana, uma protagonista inquieta numa narrativa
fragmentada, sem cronologia tradicional, mergulhada no chamado fluxo da consciência,
um estilo que tenta reproduzir os pensamentos exatamente como eles surgem na nossa cabeça,
desorganizados, emocionais, cheios de memórias e dúvidas. Era a primeira vez que a prosa brasileira
mergulhava com essa profundidade na consciência humana. Mas antes do livro chegar às livrarias,
a vida de Clarice deu mais uma virada. Ela estava se preparando para casar com Mauri Gurgel Valente,
um colega da Faculdade de Direito recém aprovado no concurso do Itamarati. E aqui
apareceu um detalhe burocrático meio absurdo, porque para casar com um diplomata, ela precisava
ser oficialmente brasileira. E mesmo vivendo no Brasil desde bebê, Clarice ainda não tinha
cidadania formal. A solução foi escrever uma carta diretamente para o presidente Getúlio Vargas,
pedindo a naturalização, que foi aprovada em 12 de janeiro de 1943 e 11 dias depois ela se casou.
Tornar-se brasileira e tornar-se Clarice Gurgel Valente aconteceram praticamente no mesmo gesto.
E guarda essa segunda identidade, porque ela vai sufocar Clarice nas décadas seguintes. No final
de 1943, perto do coração selvagem, finalmente chegou às livrarias e o impacto foi imediato.
O crítico Antônio Cardoso escreveu um ensaio famoso chamado No Raiar de Clarice Spector,
afirmando que aquilo era algo completamente novo na literatura nacional. O escritor Ledo Ivo
declarou que aquele era o maior romance já escrito por uma mulher em língua portuguesa
e outros críticos começaram a comparar Clarice a Virgínia Wolf e a James Joyce. O mais curioso
é que ela se incomodava com essas comparações, porque naquele momento ela sequer tinha lido
Virgínia Wolf ou Joyce e mais tarde diria que uma das grandes [música] influências era na verdade
Herman R, especialmente o lobo da step. E aqui uma pausa pra gente falar um pouquinho do Herman Hess.
Esse é um dos meus escritores preferidos. Eu li o Lobo da Step recentemente e é um livro
animal. Ele tem diversos outros romances incríveis e é assustador você poder conhecer
os livros desse cara e depois ler Clarisson. Em 1944, o livro recebeu o prêmio Graça Aranha
de melhor romance de estreia. E Clariss ainda jovem virou um fenômeno literário. Mas justamente
quando o Brasil descobria Clarisspector, ela foi obrigada a desaparecer. [música]
Em julho de 1944, Clarisspector deixou o país ao lado de seu marido e o primeiro destino do casal
era simplesmente Nápolis na Itália em plena Segunda Guerra Mundial, uma cidade
de ruas destruídas, fome e milhares de soldados feridos. E enquanto Mauri trabalhava no consulado,
Clarice fez uma coisa impressionante. Ela se voluntariou nos hospitais que atendiam soldados
da força expedicionária brasileira, os pracinhas enviados pelo Brasil para lutar contra as forças
nazifascistas. Ela não tinha nenhuma formação médica, mas conversava com os pacientes, escrevia
cartas para as famílias deles e fazia companhia para homens mutilados e traumatizados pela guerra.
Foi também nesse período europeu que ela conheceu o poeta italiano Giuseppearet, que traduziu
trechos do seu romance e teve o retrato pintado pelo famoso artista surrealista Diordio Xirico.
Por fora até poderia parecer uma vida glamurosa na Europa, mas por dentro algo estava morrendo.
Nas cartas enviadas à irmã Tânia, Clarissonrava um desconforto crescente com o papel social exigido
das esposas de diplomatas, com as recepções, os eventos oficiais, a postura elegante e controlada,
e aos poucos sentia que sua identidade de escritora estava sendo sufocada. Numa carta
famosa de agosto de 1944, ela resumiu tudo numa frase: "Sou inteiramente Clarice Gurgel Valente."
A escritora estava sumindo dentro de seu papel como esposa. E o pior é que a vida não parava de
mudar. Depois da Itália veio Berna na Suíça, que seria um dos períodos mais difíceis da vida dela.
Uma cidade que Clariss enxergava como silenciosa e distante demais e que ela definiu com uma frase
devastadora. Berna é o cemitério de sensações. Foi lá que nasceu Pedro, seu primeiro filho, em 1948.
E a maternidade trouxe alegrias, mas também aprofundou sua solidão com Clarice relatando nas
cartas às irmãs uma depressão pós-parto misturada com a melancolia do exílio. E essa relação com
Pedro ainda se tornaria mais dolorosa anos depois, quando na adolescência ele seria diagnosticado com
esquizofrenia, algo que Clarice carregaria com um silencioso sentimento de culpa pelo resto
da vida. [música] Nesse meio tempo, os livros continuavam saindo, mas a recepção tinha esfriado.
O segundo romance e o lustre foi considerado introspectivo e difícil demais pela crítica.
E a cidade sitiada escrito em Berna também passou longe do impacto da estreia. Depois da Suíça,
veio a Inglaterra, onde Clarice sofreu um aborto espontâneo [música] que abalou profundamente.
Em 1952, a família se mudou mais uma vez agora para Washington, nos Estados Unidos, onde nasceu
o segundo filho, Paulo, e onde ela construiu uma amizade intensa com o escritor Erico Veríssimo
e a esposa dele, Mafalda, que virariam padrinhos de seus filhos. E aqui tem um detalhe que pouca
gente conhece. Para complementar a renda, Clarice virou o colunista de jornal escrevendo sobre moda,
beleza e vida doméstica, só que escondida atrás de pseudônimos como Teresa Quadros e Helen Palmer,
e chegou até a ser ghost writer [música] da atriz Ica Soares. Naquela época, misturar a literatura
experimental com conselhos de moda era visto como um rebaixamento profissional. Então, a autora mais
inovadora do Brasil pagava as contas escrevendo dicas de comportamento que ninguém sabia que
eram [música] dela. 15 anos se passaram assim, entre países, idiomas e recepções diplomáticas,
até que em 1959, Clarice tomou uma decisão radical para a época. Ela se separou de Mauri, numa época
em que o divórcio nem era permitido legalmente no Brasil. Ela pegou os dois filhos e voltou
para o Rio de Janeiro. Aos 38 anos, ela precisava reconstruir a vida do zero como [música] mãe
solteira, escritora e mulher separada numa sociedade profundamente conservadora. Ela não
sabia, mas estava prestes a viver a fase mais genial e mais trágica de sua vida.
O Brasil que Clarice reencontrou em 1959 era outro país. O Rio estava prestes a perder o posto de
capital para Brasília. O governo de Jcelino Kubichek vivia o auge do desenvolvimentismo.
A bossa nova tinha acabado de explodir e o cinema novo nascia com Glauber Rocha. E Clarice
precisava sobreviver. A pensão do ex-marido não era suficiente. Então o jornalismo virou
questão de sobrevivência. enquanto ela retomava a carreira literária. E que retomada! Em 1960,
ela publicou Laços de Família, uma coletânia de contos construída em torno de epifanias
daqueles momentos aparentemente banais do cotidiano que provocam revelações devastadoras.
No conto mais famoso amor, a dona de casa Ana vê um cego mascando chiclete dentro de um bonde.
E essa cena banal simplesmente desmorona o mundo organizado em que ela vivia. O livro foi recebido
com entusiasmo enorme. Fernando Sabino afirmou que era o melhor livro de contos já publicado no
Brasil. Erico Veríssimo disse que era a coletânea mais importante desde Machado de Assis e em 1961
a obra levou o prêmio Jabuti. Mas foi em 1964 que Clarissou aquela que muitos críticos consideram
sua obra prima, A Paixão segundo GH. E olha que loucura que é esse livro. A trama inteira se
resume a uma mulher rica que entra no quarto vazio da empregada que tinha acabado de sair do emprego,
encontra uma barata dentro do guarda-roupa, esmaga o inseto e diante daquela matéria branca
escorrendo do corpo da barata, mergulha numa das crises existenciais mais profundas já narradas na
literatura brasileira, uma epifania sobre Deus, sobre a existência e sobre os limites do humano,
que termina no clímax do livro com ela colocando aquela matéria na boca, não como um ato bizarro,
mas como uma rendição mística, a aceitação radical de que ela e a barata são parte da mesma matéria
viva. Naquele mesmo ano, em 1964, o Brasil mergulhava na ditadura civil militar. E aqui
vale desfazer um mito. Ao contrário do que parte da crítica dizia, Clarice não era alienada. Ela
mesma se declarou engajada, afirmando que tudo que escrevia estava ligada à realidade em que vivemos.
E tudo isso foi além do discurso. Em 1968, ela assinou com outros 48 intelectuais um telegrama
público contra o regime e marchou na primeira fila da passeata dos 100.000 ao lado de Chico Boarque
e Paulo Altran. E em 1973, o Serviço Nacional de Informações chegou a abrir um dossiê para
monitorá-la. Mas o episódio que mais marcou essa fase tinha acontecido antes, em 1966,
quando Clarice quase morreu. Na madrugada de 14 de setembro, no apartamento do Leme, onde vivia,
ela adormeceu com um cigarro aceso depois de tomar remédios para dormir.
O fogo se espalhou pelo quarto e quem a salvou foi uma vizinha que ouviu os gritos. Clarice sofreu
queimaduras gravíssimas e a situação era tão séria que os médicos cogitaram amputar sua mão direita,
justamente a mão com que ela escrevia. Foram meses de internação e cirurgias dolorosas,
e as sequelas físicas e emocionais a acompanhariam pelo resto da vida,
deixando-a com dores constantes e cada vez mais recluso. E mesmo assim ela não parou. Entre 1967
e 1973, Clarice escreveu crônicas semanais para o Jornal do Brasil. publicou uma aprendizagem ou O
Livro dos Prazeres, lançou Felicidade Candestina com lembranças da infância no Recife e em 1973
entregou Água Viva, uma obra tão experimental que praticamente abandona o enredo e os personagens.
É um fluxo contínuo de sensações onde ela escreveu uma das frases mais emblemáticas de sua carreira:
"Eu quero apoar-me do coisa". Nessa altura, a figura pública de Clarice já tinha virado quase um
mito, com o seu jeito reservado, o olhar intenso e fala pausada, alimentando lendas em torno dela.
E em 1975 aconteceu o episódio que selou essa imagem. Ela participou do primeiro
congresso mundial de bruxaria em Cali, na Colômbia. A participação dela, obviamente,
era puramente filosófica e literária, mas a imprensa brasileira não perdoou
e espalhou relatos da autora vestida de preto e coberta de amuletos. atribuindo a ela o título de
grande bruxa da literatura brasileira. Uma imagem que ela nunca cultivou, mas que colou de vez.
Tanto que o seu amigo Oto Lara Rezende resumiu numa célebre frase: "Não se trata de literatura,
mas de [música] bruxaria". Em 1977, já bastante debilitada, Clarice concluiu seu último romance,
A Hora da Estrela. A história de Macabea, uma jovem nordestina pobre, invisível para o mundo,
que migra para o Rio e vive uma existência silenciosa e sem perspectivas. E depois de
todo esse vídeo, você pode começar a reparar em pequenas coincidências entre a personagem desse
livro e a própria vida da Clarice. Em fevereiro daquele ano, ela deu a TV Cultura a única
entrevista de televisão de sua vida, onde definiu o livro como a história de uma moça tão pobre
que só comia cachorro quente. Mas completou em seguida que a história não era isso, era sobre uma
inocência pisada. E no fim da conversa, ela fez um pedido, que a gravação só fosse exibida depois de
sua morte. Ela sabia de alguma coisa que a gente não sabia. Pouco depois da publicação do livro,
as dores que Clarice sentia se intensificaram e os exames revelaram um câncer de ovário
em estágio avançado e inoperável. Ela passou os últimos meses escrevendo, recebendo amigos
e ditando frases para a amiga Olga Borelli, que a acompanhou até o fim. e mesmo sobativos, ainda
ditava frases na manhã da própria morte. Clariss Lispector morreu no dia 9 de dezembro de 1977,
um dia antes de completar 57 anos, e foi enterrada no cemitério israelita do Caju, no Rio de Janeiro.
Poucos meses depois, a Hora da Estrela recebeu o prêmio Jabuti póstumo. E em 1985, o romance
virou o filme pelas mãos de Susana Amaral, com a atriz Marcélia Cartacho, intérprete de Macabeia,
conquistando o urso de prata no Festival de Berlim. Sua obra influenciou nomes como Caio
Fernando Abreu, Líia Fagundes, Steles, Hilda Hills e Chico Boarque. E suas frases circulam até hoje
em livros, [música] peças, músicas e redes sociais. E talvez o motivo seja simples.
A menina, que nasceu com a missão impossível de curar a mãe,
passou a vida inteira escrevendo sobre aquilo que não se cura, a solidão, a culpa, o silêncio,
o mistério de existir. A literatura de Clarice não oferece respostas prontas. Ela convida
cada pessoa [música] a mergulhar dentro de si mesma. E é exatamente por isso que sua obra
permanece tão viva, porque ao escrever sobre si, Clarice acabou escrevendo sobre todos nós.
Bom, esse foi o vídeo. Eu espero que você tenha gostado. Deixe o seu like, se inscreve no canal
e ative o sininho para não perder nenhum vídeo que a gente posta. Como eu disse,
esse foi um dos vídeos mais pedidos [música] por vocês. Então, deixa aqui nos comentários sugestões
de vídeos que vocês querem que a gente faça. Tem diversos temas por aí. Eu tenho certeza que você
vai conseguir comentar alguma coisa legal. Lembra de apoiar a gente no Apoia-se também. A gente tem
uma comunidade bem interessante lá e também tem uma comunidade muito boa aqui no Seja Membro,
que você pode ter diversos benefícios. É só clicar no botão de seja membro aqui embaixo
para conferir. Enfim, muito obrigado pelo seu acesso e até o próximo vídeo. Valeu. Falou.
Um grande abraço do Tinco e lembre-se, [música] a existência é passageira. Ciao
[música]
Ask follow-up questions or revisit key timestamps.
Este vídeo apresenta a biografia de Clarice Lispector, abordando desde seu nascimento na Ucrânia, em meio aos pogroms e à Primeira Guerra Mundial, até sua imigração para o Brasil e consolidação como uma das maiores escritoras da história da literatura brasileira. O conteúdo explora a infância da autora, a perda precoce da mãe, a transição para a carreira de escritora no Rio de Janeiro, o impacto de sua obra inovadora e a profundidade de seus temas existenciais, além de esclarecer mitos sobre sua vida, como sua suposta alienação política e o apelido de 'bruxa da literatura'.
Videos recently processed by our community